sábado, 18 de abril de 2009

ÉVORA BRANCA por Cecília Meireles

E então já sei que é domingo. Uma vez, até vi passear entre esses janotas de casaquinhos modernos, um pastor de samarra peluda, com o cajado na mão, e pensei quase seria muito mais lindo se todos andassem com roupas dessas: mas quem acreditaria que falava a sério, se dissesse uma coisa dessas?
Prefiro os dias de semana: embora muito me encantem os rapazes e moças que passeiam, e os casaquinhos riscados, e os vestidos cor-de-rosa – sem falar nas samarras bucólicas. Mas quase sempre as cidades se tornam mais belas quando estão vazias. Falo destas cidades cheias de séculos – e Évora é um antigo ponto de encontro de romanos, mouros e cristãos.
Há sempre duas coisas a visitar, quando se chega a Évora: o templo de Diana, que já não parece uma peça arqueológica, mas um adorno colocado naquele sítio tão pulcramente bem varrido entre o Largo do Marquês e Marialva e o palácio do Duque de Cadaval; – e a fonte, aquela fonte gordinha que parece a «Menina e Moça», tem uma coroa no alto porque um rei – ó esses grandes galanteadores! – vendo-a tão harmoniosa, tão redonda, tão perfeita, teria exclamado: «Tão formosa és que bem mereces ser coroada!» E logo veio a coroa rematar-lhe a fronte de pedra, que pensa apenas águas reflexos de céu azul, velhas palavras enamoradas.
Eu também, se pudesse, punha uma outra coroa em Évora, se o ser formosa continua a dar direito à coroação. Amo a sobriedade gráfica de suas muralhas que caminham para longe como o dorso eriçado de um animal antediluviano; e as torres quadradas, e os parapeitos sobre os arcos, e o vulto maciço dos palácios, e todo o século XVIII das varandas e janelas; e tudo que é muito antigo – claustro, aquedutos – e tem uma grandeza, uma dignidade que o cimento armado – a meus olhos – não consegue ter. Bem sei que dentro destas colunas de hoje estão os cálculos dos arquitectos, está uma ciência nova e uma outra concepção do Mundo. Mas nada disso me comove ainda tanto quanto estas pedras antigas, estes azulejos, esta madeira. Queria que anoitecesse logo que viesse o luar, aquele luar de Florbela Espanca – «Não sei quem tem tanta pérola espalhou!» – e que a cidade se convertesse num claro mapa móvel, para em silêncio percorrer essa gravura de solidão.
Mas, apesar – dos transeuntes, há longas margens de sossego, nesta cidade serena, tão mineral, que para ver uma árvore é preciso empurrar a porta de um jardim. E então derrama-se-nos diante dos olhos algum pátio de recordações mouriscas, com seus vasos de plantas perfumosas e uma gota de água cantando, espaçada, como o suspiro de um alaúde.
«Évora branca, marmórea, ebúrnea, de lírios, nuvens, pombos e cisnes, camélia, cal, amêndoa e lua, imaculada…»

Esposas, vestais, capitéis, túmulos, cipós – é a paisagem de um mundo lunar, este maravilhoso museu, por onde os passantes sentem a tristeza da sua densidade, do seu peso, da sua obscura sombra. Quem tivesse estes leves pés que parecem de ar e luz, e são de vetusta pedra! Ah! Quem fosse apenas o que fica esculpido, ténue e translúcido…
Évora branca… – e então descemos pelo verde macio do jardim, com seus lagos, suas cornijas, seus recantos pensativos. Os pombos alçam voo, num arremesso de leques brancos; os cisnes deslizam sobre o seu próprio reflexo; e, à meia luz de um pequeno bosque, a face de Florbela inclina sua palidez de magnólia.

«A Flor do Sonho alvíssima, divina,
Miraculosamente abriu em mim…»

Como se o escultor tivesse querido imortalizá-la nesse verso. E há um silêncio de cetim, franzido apenas de repente pelo frenesi dos pombos, pelo frémito da água esverdeada. O rosto de Florbela pousa ali a sua brancura já sobre-humana «como pousam as folhas sobre os galhos». E tudo É branco.

«Évora branca, marmórea, ebúrnea,
Cera, alabastro, magnólia, jaspe…
Sal das tristezas, coluna de horas
Ultrapassadas…»

E estamos de novo no Largo do Giraldo. Giraldo Sem-Pavor, o mata-mouros… Ah! No brasão da cidadã, lá vai ele com a durindana levantada acima da testa, entre duas cabeças tristes que o contemplam, degoladas. E esta á a mancha encarnada, na brancura de Évora.
Pois sempre aparece uma alma sentimental que nos conte o passado: e esse Giraldo começou por namorar a pobre mourinha, e arrancou-lhe as senhas com que os Mouros se comunicavam, e assim escalou a Yeborah mourisca; e ainda degolou a triste menina mais o pai, o que a mim se me afigura um excesso de façanha.
Por isso, quando murmuro «Évora, branca, marmórea, ebúrnea…», estes fantasmas (que em toda a parte encontro e me acompanham) vêm a mim, e são os dois pobres degolados do brasão, e contam-me suas mágoas. E o mouro diz assim:

«Lembrai-vos, porém, senhora,
de Giraldo Sem-Pavor:
que outros o chamem de bravo,
nós o chamamos traidor.
Chegou-se tão disfarçado!
Conquistou o nosso favor.
Depois de amante fingido,
tornou-se vil agressor.
sobre as pedras que estais vendo,
corre uma fita de cor:
corre uma fita encarnada.
- sangue mouro, em tanto alvor –
destas cabeças cortadas
que pesam sobre o valor
do ardiloso comandante,
cruel Giraldo Sem-Pavor

Por mim, não diria nada:
mas não hei-de chorar por
esta moura, minha filha,
que mal podia supor
ser por ele degolada,
dando-lhe senhas e amor.»

Não posso deixar de ouvir o mouro, pois ele aqui está na minha frente, ao lado da filha, ambos lacrimosos, por mais que sobre eles tenham a passado quase oito séculos completos. As cabeças degoladas são assim: falam por muito tempo. Eu acho mesmo que falam eternamente. E não há nada a fazer, senão ouvi-lo, pois tentei voltar ao meu recitativo.

«Évora branca, marmórea, ebúrnea
cera, alabastro, magnólia, jaspe…».

e o mouro e sua filhinha me acompanhavam, em contraponto:

«Lembrai-vos, porém, senhora,
de Giraldo Sem Pavor!
Vede nestas pedras claras
Nossas máscaras de dor…».

Então, fui deixando aquele largo mal assombrado – apesar da confeitaria com bolos tão apetitosos – e comecei a subir uma daquelas ladeiras, e já ia alcançando o templo de Diana quando nos apareceu um cigano verde, um cigano absoluto de Garcia Lorca, de sombrero preto e lábios de azeitona, que se pôs a contar aos presentes o que ia fazer brevemente num circo. E levava arrastada a seu lado uma cigana dessas de morrer no fundo do algibe – e foi assim que se me escureceu a vista de Évora, embora não possa garantir se estas últimas coisas foram realmente vividas ou tão somente sonhadas. Mas deve ter sido tudo ao mesmo tempo.

Cecília Meireles

NOTA: interessante este texto de Cecília Meireles, que ainda não consegui datar. É o texto de uma poeta. Muito mais interessante se estivermos atentos a um assunto quase tabu para a cidade, para o senso comum de muitos eboreses. A questão do brasão da cidade ter por enventual protagonista uma sanguinária personagem, chamam-lhe Giraldo ou Giraldinho que é o mesmo, baseada numa lenda talvez forjada há séculos atrás... Tal como o estúpido espectáculo das touradas em pleno século XXI me deixam agoniado também esta mal compreendida iconografia do cavaleiro medievo me deixa consternado. É tempo dos eborenses se interessarem pelo significado dos símbolos que os representam. Por mim, enquanto eborense recuso ser representado por um símbolo homicida! Talvez alguns Professores que estudam sobre as coisas e os factos da história da nossa cidade se comprometam em lançar este debate e em organizar um forum de discussão sobre a iconografia da Cidade de Évora: qual é? qual a sua origem? qual o seu significado?...

1 comentário:

mjfigueira disse...

Também eu, enquanto eborense, recuso ser representada por um símbolo homicida. Quantos de nós têm sentido esta e outras presenças a influenciar, de forma velada, como o fazem os símbolos, a nossa vivência da cidade. E como são tantas vezes contraditórias essas influências. O poeta Sufi cujo poema também colocas, é o representante, aqui, de um símbolo absolutamente contrário a este, a tolerância que houve no Al Andaluz, e estas diversas influências moldam a cidade e o comportamento dos que aqui vivemos.
Quantos me têm dito ao longo dos anos que esta cidade não os quer cá, que fecha a sua casa e vira a sua cara não deixando entrar os estranhos, não lhe oferecendo a hospitalidade do coração sufi. Eu própria, apesar de ser Eborense do coração, quantas vezes me zanguei com esta cidade e coloquei a hipótese de voltar a sair dela. Mas permanecei e ainda bem.
O espírito da intolerância e da inquisição tem que ser varrido e é nossa responsabilidade contribuirmos para que isso aconteça. Já vejo alguma luz. Há quem esteja a ousar,a criar espaços de tertúlia, abertos à diferença e à partilha. Temos que espalhar estas sementes, multiplicá-las e fazê-las germinar.