quarta-feira, 23 de Dezembro de 2009

Janelas...


Universidade de Évora

A ARTE DE SER FELIZ

Houve um tempo em que minha janela
se abria sobre uma cidade que parecia
ser feita de giz. Perto da janela havia um
pequeno jardim quase seco.
Era uma época de estiagem, de terra
esfarelada, e o jardim parecia morto.
Mas todas as manhãs vinha um pobre
com um balde e, em silêncio, ia atirando
com a mão umas gotas de água sobre
as plantas. Não era uma rega: era uma
espécie de aspersão ritual, para que o
jardim não morresse. E eu olhava para
as plantas, para o homem, para as gotas
de água que caíam de seus dedos
magros e meu coração ficava
completamente feliz.
Às vezes abro a janela e encontro o
jasmineiro em flor. Outras vezes
encontro nuvens espessas. Avisto
crinças que vão para a escola. Pardais
que pulam pelo muro. Gatos que abrem
e fecham os olhos, sonhando com
pardais. Borboletas brancas, duas a
duas, como reflectidas no espelho do ar.
Marimbondos que sempre me parecem
personagens de Lope de Vega. Às
vezes um galo canta. Às vezes um
avião passa. Tudo está certo, no seu
lugar, cumprindo o seu destino. E eu me
sinto completamente feliz.
Mas, quando falo dessas pequenas
felicidades certas, que estão diante de
cada janela, uns dizem que essas coisas
não existem, outros que só existem
diante das minhas janelas, e outros,
finalmente, que é preciso aprender a
olhar, para poder vê-las assim.

Cecília Meireles

terça-feira, 22 de Dezembro de 2009

O Natal na Arte


Pintura de Álvaro Pires de Évora - Séc. XV

ALGUMAS TRADIÇÕES DO NATAL EBORENSE

Apesar da «normalização» das Tradições nos tempos que correm, as memórias das antigas tradições desta quadra festiva ainda dinamizam algumas práticas peculiares, tais como:
– A presença lúdica do Presépio com figurinhas de barro, que tradicionalmente era costume as famílias visitarem em algumas igrejas da cidade. Embora não dispensasse a sua construção nas próprias casas.
– Ainda em algumas aldeias do Alentejo – embora seja um costume de cariz comunitário hoje praticamente inexistente – os vizinhos juntam grande quantidade de lenha normalmente no adro da igreja paroquial, acompanhada por um grande madeiro, que fazem arder durante toda a noite de Natal, aí convivendo. Em algumas residências queimava-se igualmente um grande madeiro na lareira. Os restos do madeiro do Natal guardavam-se para posteriormente acender quando fizesse trovoadas, diz-se, como protecção...
– Ainda em muitas paróquias da Cidade se celebra a Missa do Galo, por volta da meia-noite, muito concorrida era a de S. Francisco devido ao facto de se iniciar a cerimónia com a enorme nave iluminada por pequenas lamparinas de azeite, provocando um efeito estético deslumbrante.
– É tradição comum a chamada consoada, missadela, missada ou missadura: reunião familiar após a Missa do Galo, ou por volta da meia-noite do dia 24 de Dezembro, em que as pessoas se juntam para cear, consistindo tradicionalmente a Ceia de Natal por diversas iguarias próprias da época festiva: peru assado, bacalhau cozido com couves, linguiça e febras de porco assadas, filhós, rabanadas, sonhos, nógado e arroz doce. A quantidade e a qualidade das iguarias da Ceia correspondiam proporcionalmente às disponibilidades dos ganhos de cada família…
– Após a Ceia e antes de irem dormir, as crianças iam colocar o sapatinho ou a meia à chaminé para que o Menino Jesus durante a noite viesse colocar as prendas. É pena que as «lógicas» modernas dos pais natais consumistas tenham destronado este costume tão simples e poético.
– Ainda ligadas com a quadra festiva, cantavam-se, principalmente nas aldeias e bairros limítrofes da cidade, com características rurais, as Janeiras e os Reis. Tradições hoje praticamente desaparecidas, com a excepção de um grupo de homens da aldeia de Torre de Coelheiros que, resistentemente, ainda persistem na saída à rua na noite de Reis a fim de cantarem e encantarem os residentes e os forasteiros que àquela aldeia se deslocam para usufruírem de uma memória viva.

Recordo alguns Natais de Évora rebuscados nas memórias da minha infância:

Natal de Évora I

O Menino está dormindo
Nas palhinhas, despidinho,
Os anjos lhe 'stão cantando:
Por amor, tão pobrezinho.

O Menino está dormindo
Nos braços da Virgem pura.
Os anjos lhe 'stão cantando:
Glória a Deus lá nas alturas.

O Menino está dormindo
Nos braços de São José,
Os anjos lhe 'stão cantando:
Glória tibi, Dominè.

O Menino está dormindo
Um sono de amor profundo
Os anjos lhe 'stão cantando:
Viva o salvador do mundo!


Natal de Évora II

Eu hei-de dar ao Menino
Uma fitinha pr’ó chapéu
Também ele me há-de dar
Um lugarzinho no Céu.

Olhei para o Céu
Estava estrelado
Vi o Deus Menino
Em palhas deitado

Em palhas deitado
Em palhas ‘quecido
Filho duma rosa e
Dum cravo nascido.

Arre burriquito
Vamos a Belém
Ver o Deus Menino
Qu’a Senhora tem

Qu’a Senhora tem,
Qu’a Senhora adora
Arre burriquito
Vamo-nos embora.


Natal de Évora III

Eu hei-de dar ó Menino
Uma fita, uma fita pr’ó chapéu
Também ele nos há-de dar
Um lugar, um lugarzinho no Céu.

Não façam bulha ao Deus Menino
Não o acordeis que está dormindo
Em vez d’O brindar com algum mimo
Dêem-lhe leite que é pequenino.

Eu hei-de dar ao Menino
Ao Menino, ao Menino hei-de dar
Camisinha de Bretanha
Nesta noite, nesta noite de Natal.


Rui Arimateia

segunda-feira, 21 de Dezembro de 2009

O Sol, a Luz e o Ovo


Pintura de Vladimir Kush

CÂNTICO DO IRMÃO SOL

Altíssimo, omnipotente, bom Senhor,
a Ti pertencem os louvores, a glória, a honra e toda a bênção.
A Ti só, Altíssimo, se hão-de prestar
e nenhum homem é digno de pronunciar o Teu Nome.

Louvado sejas, ó meu Senhor, com todas as Tuas criaturas,
especialmente meu senhor o irmão sol
que faz o dia e nos dá a luz.
E ele é belo e radiante com grande esplendor;
de Ti, ó Altíssimo, nos traz a imagem.

Louvado sejas, ó meu Senhor, pela irmã lua e as estrelas;
no céu as formaste, claras e preciosas e belas.

Louvado sejas, ó meu Senhor, pelo irmão vento
e pelo ar e a nuvem e o sereno e todo o tempo
pelo qual sustentas as Tuas criaturas.

Louvado sejas, ó meu Senhor, pela irmã água
a qual é muito útil e humilde e preciosa e casta.

Louvado sejas, ó meu Senhor, pelo irmão fogo
pelo qual alumias a noite
e ele é belo e alegre e robusto e forte.

Louvado sejas, ó meu Senhor, por nossa irmã a mãe terra
que nos alimenta e governa
e produz variados frutos e flores coloridas e erva.

Louvado sejas, ó meu Senhor, pelos que perdoam, por amor de ti
e suportam enfermidade e tribulação.
Bem-aventurados aqueles que as sofrem em paz,
pois que por Ti, ó Altíssimo, serão coroados.

Louvado sejas, ó meu Senhor, por nossa irmã a morte corporal
da qual nenhum homem vivente pode escapar;
ai daqueles que morrerem em pecado mortal.
Bem-aventurados aqueles que se tiverem conformado com Tua santíssima Vontade,
porque a morte segunda lhes não fará mal.

Louvai e bendizei ao meu Senhor e dai-lhe graças
e servi-O com grande humildade.


S. Francisco de Assis

domingo, 20 de Dezembro de 2009

Solstício


O Sol durante o solstício