domingo, 18 de dezembro de 2016

António Telmo o Poeta Pensador


SOBRE A POESIA DE ANTÓNIO TELMO



Rui Arimateia
Apresentar e falar sobre a figura e a Obra de António Telmo é sempre um desafio do “Arco da Velha”, simultaneamente difícil e estimulante.
Difícil, devido à complexa idiossincrasia do Autor, estimulante porque a presença de Telmo continua a inspirar-nos a constantemente re-trabalharmos (e não a repetirmos) a sua obra em nós e entre nós para que o poder do pensamento criativo aconteça e transforme e siga livremente para o Astro…
Tal como afirma António Telmo:
«A terra em que vivemos é apenas um laboratório; no athanor da humanidade separa-se o subtil do denso. Esta não é a terra definitiva. Para onde vai a energia que, pela entropia, constantemente se perde? Transforma-se em energia espiritual. Tudo quanto de bom e de verdadeiro se pensou e imaginou, e pensa e imagina, é o subtil que se separa do denso e vai formar a Terra Prometida.»
[A.T., in A Terra Prometida, Edições Zéfiro, Sintra 2014, pp.17-18].

No que diz respeito à sua personalidade única, poderemos socorrer-nos de uma auto-apresentação que o próprio António Telmo escreveu, na Carta-Prefácio ao livro de Alexandre Teixeira Mendes [“Barros Basto – A Miragem Marrana” (p.12)], é muito ao seu jeito:
«Não serve então de prefácio esta carta? É a obra de um marrano, cheia de paradoxos e de duplicidades, de desvios súbitos, de contradições, de certezas e de incertezas. (…).»
Daí que ao lermos e tornarmos a ler a extensa obra que Telmo nos legou, a nossa evolução/criação interior, a nossa reflexão que pretendemos séria, nos vai permitindo uma compreensão cada vez mais profunda da dinâmica do pensamento criacionista do Autor. Pois que a poesia para António Telmo é criacionista; uma vez que cria a realidade de que fala. E importa reescrever e verbalizar esse pensamento porque, como ele afirma, “Só há pensamento, pelo menos pensamento activo, através da palavra”.
Em momentos de profunda crise física (económica e financeira) e psicológica (carência de valores humanistas), como são os que nos encontramos a viver, estas Tardes Télmicas são fundamentais para a conservação e o fortalecimento da Cultura Portuguesa, da sua Filosofia, da sua Poesia, do seu Humanismo… entre as nossas comunidades.
É um projecto generoso construído em comum por homens e por mulheres preocupados com a participação e com a assumpção da palavra, factores importantes e fundamentais para a coesão e a harmonia, tanto social como espiritual. Um sentimento forte começa a nascer no mais profundo de nós próprios quando reflectimos em conjunto estas matérias, e de facto começamos a sentir que o poder da palavra (do diálogo, da partilha) cada vez mais terá de se impor perante a palavra do poder
Diz-nos António Telmo, numa entrevista a Américo Rodrigues, que:
«(…). Não me considero um mestre. Eu não considero e qualquer desses que aí estão no livro [António Telmo e as Gerações Novas] não podem dizer que são meus discípulos, porque eu ainda não lhes disse que eram, não é? Porque o mestre é que diz quem é o discípulo.
E um discípulo não pode escolher um mestre?
Não pode. Podíamos estar sujeitos a que qualquer cavalheiro dissesse que era discípulo. Agora seguidor, aceito. Eu gosto muito da expressão “olhar a mesma estrela”. Eu aceito que eles todos olhem a mesma estrela mas isso não me põe a mim na situação de mestre. Companheiro mais velho, talvez.»
[António Telmo, in «A Terra Prometida», Ed. Zéfiro, Sintra, 2014, pág.185.]

E são sobre as palavras de poesia daquele Companheiro mais velho que gostaria de tecer algumas breves considerações, tentando continuar a “olhar a mesma estrela” que muitos de nós partilharam e vivenciaram com António Telmo.
Não queria deixar de felicitar a querida Amiga, a Escritora e Poeta Risoleta Pedro, cujo trabalho de compilação e de apresentação dos poemas, agora reunidos neste VI livro das Obras Completas de António Telmo, foi extraordinário e esclarecedor para quem se quiser debruçar mais aprofundadamente sobre os textos poéticos de Telmo.
Não queria também deixar de agradecer o convite que me foi feito pelo Amigo Pedro Martins para fazer esta pequena apresentação, dando-me a oportunidade de a partilhar com os presentes. E a todos os Amigos e Amigas do Projecto António Telmo que, continuando a trabalhar e a publicar a Obra de António Telmo, estão a contribuir decisivamente para o tornar imorredouro…
Sendo estas sessões também para nos reaproximarmos da obra de António Telmo, recorrerei à sua palavra sempre que a mesma for esclarecedora, sempre que nos dê mais claridade, sobre algum assunto mais complexo, dúbio ou esotérico apresentado nos poemas.
Elegi meia dúzia de poemas. Os que pela sua leitura, e neste momento, me tocaram mais fundo e que suscitaram uma ou outra reflexão.
Então, e para “entrar a matar”, recordemos que, para António Telmo,
«As ideias são comunicadas pelos anjos! Só que há quem as pense e quem as não pense. O pensamento é que é nosso.  [pág. 57]
(…)
Acho que a poesia não tem intenções porque a poesia é também o resultado da colaboração do homem com o anjo. Claro que eu não digo que o anjo é que escreve os poemas, é o homem que escreve os poemas ajudado pelo génio! O génio era esse anjo que a gente vê nas “Mil e uma Noites”, os génios que são educados.  (…).»  [págs.183-4]
[António Telmo, in A Terra Prometida, Edições Zéfiro, Sintra 2014, pp.183-4].
Após esta consideração, indicarei então alguns dos poemas que me tocaram e que me fizeram alargar a consciência para outra Poeta, Beatriz Serpa Branco, cujas palavras considero estarem em perfeita sintonia com António Telmo e que inclusivamente se conheceram e trocaram publicações nos idos anos de 1982, em Évora.
Confesso que me diverti imenso a ler a poesia agora reunida de António Telmo e, sem esforço, ler as frases, olhar as palavras, sentir e desocultar os sentidos esotéricos e exotéricos das construções poéticas. Contudo obra inacabada, continuamente retrabalhada… sempre que me apropriar de um poema e lhe fizer uma nova leitura.
Dionísio, poema da juventude, em que António Telmo faz desocultar a relação entre o menino e sua mãe, num jogo onde a vida e morte nos alertam para o tempo mítico da criança. Obrigou-me a olhar para o tempo mítico da minha infância.
Para António Telmo – criança é o ser que cresce, o adulto em devir; a criança, através da educação deverá atingir o estado adulto com uma inofensividade (ahimsa, conceito espiritual que os orientais tanto prezam) que a tornará um “príncipe, isto é, um ser que em si tem o seu princípio e do qual o Infante é o seu perfeito símbolo.”

 Tal como o Infante do poema Eros e Psique de Fernando Pessoa:

“(…).
E, inda tonto do que houvera,
À cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era A Princesa que dormia.”

A Inofensividade é um estádio de evolução psicológica e espiritual que acontece após a fase de inocência da criança; é um estádio em que a reflexão e o autoconhecimento constroem um homem novo. Nos contos do maravilhoso, o Príncipe e ou a Princesa, no início da saga encontram-se normalmente num estádio de graça onde a inocência impera! Através das provas físicas e psicológicas, através da experiência perigosa de contacto com o mundo real, vão adquirir força, beleza e sabedoria interiores suficientes para assumirem a transformação/crescimento do Ser e, através da escolha e do livre arbítrio transmutam a inocência (estádio inconsciente) em inofensividade (estádio consciente). O autoconhecimento tem aqui um papel fundamental.
Apresento-vos então um poema de Beatriz Serpa Branco, em casa de quem tive o prazer de conhecer António Telmo na Primavera de 1982, retirado do seu livro de poemas “A face e as sombras[Colecção Daimon, Évora, 1959]:

“o menino é um recém-chegado de outros mundos.
anunciador de uma distância íntima. de onde nascer
é revelar

sinal de uma viagem a um viver separado.

memória. vaga memória. de brisas além da terra
em mares de aprofundar.

ele é o Anjo enviado de nossos reinos secretos. a este
mundo de fora     onde depois da infância nos encontrámos
habitando. sem saber de outro lugar.

mas o menino é de longe. a Boa Nova soada de praias
além do mar.

rosto voltado aos cantos da distância.
olhos despertos ao acenar do longe.

de onde vieste e ainda lembras sem saber lembrar?

eco de mundos de silêncio o teu silêncio. menino
de silêncio olhando.
presença de um Real chamando.
além das vozes. das coisas. e dos gestos.”

Narciso, poema também da época da juventude de António Telmo. Utiliza neste seu muito longo poema, uma riqueza de metáforas e mais metáforas. Para António Telmo, e segundo António Cândido Franco, “a arte poética é o exercício da metáfora”.
A metáfora da água que António Telmo utiliza generosamente neste extenso poema, e ao longo de toda a sua obra poética, remete-me para uma quadra do cancioneiro popular alentejano dotada de uma profundidade de significado que importa ter em conta nas nossas pesquisas sobre a criação poética portuguesa, a saber:

Não me inveja de quem tem
carros, parelhas e montes
só me enleva quem bebe
água em todas as fontes.

A água em todas as fontes terá de ser bebida para que o Amor aconteça… para que o Amor prevaleça…
O cante alentejano, através do seu cancioneiro tradicional, contém em si vestígios de uma muito antiga sageza, sem idade… Uma sabedoria oculta, subterrânea, ancestral, que nos diz que todos os homens são irmãos, que todos detêm um saber que está para além da propriedade material das coisas, dos objectos. Como consequência directa, todos poderão partilhar e simultaneamente usufruir as riquezas espirituais comuns, colocando-se cada qual disponível para ouvir o outro e partilhar com ele.
Nos dias que correm é cada vez mais necessário que cada um de nós queira e consiga “beber água em todas as fontes” para que as diferenças de todos possam ser compreendidas e aceites por todos. Para que aquilo que diferencia os homens uns dos outros seja um factor de aproximação e não um factor de desavença e de desentendimento.

Terra escura de carne dolorida, poema em que António Telmo continua a cantar a água e o sol…
Refere a certa altura o canto do rouxinol, De lunar sentimento embriegado, talvez porque sinta em si próprio o tempo sem tempo.
Na nossa notável tradição galaico-portugueza relembremos a poesia de Afonso X, o Sábio, nomeadamente as suas “Cantigas de Santa Maria”. Ora justamente uma dessas Cantigas (a CIII) canta-nos a história de “Como Santa Maria fez estar o monge trezentos anos ao canto da passarinha, porque lhe pedia que lhe mostrasse qual era o bem que avian os que eran en paraiso”.

Reza assim:
“Certo monge rogava a Deus em instantes súplicas, que lhe desse em vida uma pequenina amostra dos gozos do paraíso. Eis senão quando um dia chegou aos seus ouvidos o canto dum passarinho, mas tão suave e melodioso que, no desejo de mais perto o ouvir, saiu do seu convento e foi prostrar-se junto do sítio onde a avezinha estava poisada. Sempre enlevado, ali se quedou algum tempo, segundo ele pensava, até que o alado cantor se afastou, dando fim aos seus trinados. O bom do monge voltou então ao cenóbio, mas grande foi a sua admiração, quando viu o exterior mudado, e maior ainda, ao saber do porteiro que nenhum dos seus antigos confrades lá estava. À vista da sua insistência em afirmar que poucas horas havia que dali saíra, perguntaram-lhe o nome do seu abade; foi então que, consultados os anais da casa, se reconheceu que trezentos anos se tinham passado entre a sua partida e chegada. Pouco tempo sobreviveu o santo homem à estranha aventura, voando o seu espírito de aí a pouco para o seio de Deus.”

[O Monge e o Passarinho – Uma Lenda Medieval, José Joaquim Nunes, Academia das Sciências de Lisboa, Separata do «Boletim da Segunda Classe», Vol. XII, Coimbra, Imprensa da Universidade, 1919.]

“Fecunda a terra o sol do amor perfeito. / Meu coração fica todo florido.” – Não remeterão estes dois versos para a realidade inefável de uma passagem de uma transformação… de uma Iniciação? Onde de novo faz todo o sentido o tempo sem tempo!
Outros poemas me saltaram à vista e ao sentimento:
O teu amor não veio moça? Choras. – Utilização pelo Autor de Metáforas. Imagens de grande riqueza poética a cantar o Amor.
A família é quando se dorme. – O jogo simbólico da luz com a sombra. Duas faces da mesma moeda. O Inefável… o indiscritível… Novamente as crianças, aqui aparecem como intermediárias entre os homens e Deus!
A minha fé tem a medida do que sou / Que se passou na infância que não lembro – Dois poemas que fundindo-os se constrói um soneto que trata de duas realidades psicológicas determinantes na obra e na reflexão de António Telmo: a assumpção da máxima “Eu sou o que sou” e o facto da Memória encontra-se ligada em profundidade à Inteligência! Sem inteligência não há memória e sem memória não acontece a inteligência…
A mim próprio – poema em que se adivinha a luta humana do eu e do não eu. A Gnose e as contradições da natureza humana em busca da perfeição ou da Morte. “Não sei como tentar e, se sei, temo / O fulgor essencial que mata ou cega.”
Uma vez conheci pelo Espírito Santo – Conhecer é recordar e novamente a frase iniciática “Sou aquilo que sou” saltam-nos aos sentidos e fazem sentido enquadradas pelo Espírito Santo o Senhor das Linguagens e dispensador do entendimento – novamente a máxima platónica do “conhecer é recordar”, continuamente utilizada..
Mestria / Rotina – poemas que remetem para a realidade simbólica ou menos simbólica da Maçonaria.
No primeiro poema, António Telmo dá-nos a descrição sumária da vivência íntima da passagem do Grau de Companheiro para o Grau de Mestre Maçon. Pondera a eficácia de todo o cerimonial…
No segundo poema, António Telmo, critica o comportamento de maçons no interior da Maçonaria. Maçon porquê? Para quê?...

Levaram luz pr’a onde reina a treva – novamente António Telmo fala-nos sobre a autenticidade da Maçonaria nos dias de hoje.
Lembremos, a propósito, um pequeno trecho de António Telmo sobre o assunto:
“(…) É espantoso como foi possível conservar, ao longo dos séculos, inalteráveis, no que lhes é essencial, ritos e símbolos maçónicos, quando enormes forças, cá dentro como lá fora, tudo têm feito para os adulterar e corromper (…).”
[António Telmo, in A Terra Prometida, 2014, pág. 108].


Breve conclusão:

Diz-nos Carlos Aurélio, Amigo e Companheiro de longa data de António Telmo que “A sua vida e a sua obra são metáforas mútuas, reflexos similares da mesma alma inquieta por Deus e por Portugal, a sua criatividade é fértil porque exposta à expectativa do espírito, ao espanto de se estar vivo.”

[Carlos Aurélio, António Telmo (1927-2010) e Vila Viçosa, in “Callipole”, n.º 18, Ed. Câmara Municipal de Vila Viçosa, 2010.]

Mais uma vez recorro às sábias palavras de António Telmo quando refere que “Os grandes poetas fazem-nos esquecer as imagens visuais com que nos falam. Tudo, sob a sugestão encantatória do ritmo, se dissolve em sons, cheios de «espírito», cada vez mais altos e profundos, em que ideias e sentimentos se confundem numa mesma, única e indefinível vibração.”
*
*   *

Termino com a leitura e a partilha de dois pequenos poemas de Beatriz Serpa Branco exactamente sobre “o poeta”:

todo o poeta é profeta

só ele sabe      antes do tempo
como acontece a verdade

e onde é verdade a cidade
aquela antiga cidade
da unidade e da altura

só ele sabe essa lonjura

terra em amor prometida
depois do tempo acabar

todo o poeta é profeta

só ele faz nascer o dia
antes de o sol o criar

*
*   *


deixa a Visão ficar
deixa o poeta morar      ah deixa
deixa que o poeta viva em ti


ele vem a acordar o poeta que em ti era

e da infância esqueceste
pelos caminhos da terra

*
*   *

Rui Arimateia – Sesimbra, 10 de Dezembro de 2016.

Sessão de apresentação do Vol. VI das Obras Completas de António Telmo VIAGEM A GRANADA SEGUIDA DE POESIA, na Biblioteca Municipal de Sesimbra, dia 10 de Dezembro de 2016, 15:00.

quinta-feira, 11 de junho de 2015

SANTOS POPULARES


MEMÓRIA DE FESTEJOS POPULARES DE SANTO ANTÓNIO NA ÉVORA DE OITOCENTOS

«(…).
Nos festejos ao taumaturgo português o Largo de S. Francisco apresentava, nessas noites, lindíssimos tronos com imensa profusão de lumes e onde não faltavam barricas de alcatrão espalhando luz de efeitos seguros e surpreendentes, graciosos mastros aramados artisticamente, com seus arcos triunfais, festões de murta e flores, o habitual concurso de duas filarmónicas, tocando alternadamente. Outro divertido espectáculo era a alegria das raparigas solteiras comprando, entre galhofas, alcachofras e maçarocas de alfazema, grilos e rouxinóis em coloridas gaiolas, bem como os tradicionais vasos de manjericos, com preferência pelos da tia Manuela, vendedeira do mercado, por as suas curiosas quadras populares melhor estimularem os sonhos ingénuos das cachopas, como esta:

                        Anjo meu, se por acaso
                        Este vaso às mãos te for,
                        Dá-lhe o teu seio por vaso
                        Rega-o com beijos de amor!
            (…).»


Silva Godinho, 1982-83, “Temas Oitocentistas Eborenses” (II Série) in A Cidade de Évora, n.º 65-66, Boletim de Cultura da Câmara Municipal, n.º 65-66, Évora, p.175.

sexta-feira, 22 de maio de 2015

Carro Alentejano


Uma viagem entre Lisboa e Evora antes de haver o caminho de ferro

Sciencias & lettras


Eis como a descreve a penna elegante do distincto escriptor o  sr. Ramalho Ortigão, n’uma das suas correspondências para a Gazeta de Noticias do Rio de Janeiro.

«Antes da abertura do caminho de ferro do sul, a viagem a Lisboa fazia-se em tres dias. No primeiro ia se a Montemor, no segundo a Pegões, e no terceiro, como Vendas Novas ficava perto de mais, pernoitava-se em Aldeia Gallega, esperando a falúa da carreira ou o vaporsinho da manhã seguinte.
Os quatro irmãos Cabreiras, – o Luiz, o Gabriel, o Antonio e o Romão – que tinham vindo de Hespanha em pequenos com a mãe viúva, faziam as recovagens e transporte de viajantes em carros alemtejanos entre Evora e Aldeia Gallega.
Na solida carreta, toldada de lona encerada e pintada de verde, acamavam-se primeiramente os sacos da mercadorias e os odres. Em cima da carga colocavam-se os colchões, e sobre os colchões acomodavam-se os passageiros, com os alforges, o farnel e a borracha com o vinho da jornada.
O Graviel, de barba feita para o caminho e camisa lavada, prendendo o colarinho desgravatado com dous grossos botões reboludos, o calção de briche novo, com fivelas e abotoadura de prata, a cinta de lã escarlate, o chapéo com o  diâmetro de uma mó, armado de dous pampous, a grande carteira de carneira verde – com a nota das encommendas dentro – na algibeira interior do jaleco, sentava-se com garbo sobre a lança, entre as mulas de troncos, dizia um monosyllabo ao gado, e tudo trotava alegremente por ahi fora ao estrepito argentino dos guizos, entre os rolos da poeira ennovelados no ar, ou sob a chuva, riscando o espaço n’uma pauta alvadia e transversal entre as longas orelhas abanadas da parelha de guias.
Ora, há muita gente em Evora que ainda hoje tem saudades das recovagens dos Cabreiras. Ataca-lhes os nervos o bem conhecido silvo da locomotiva, que tanto  incremento tem dado no paiz, não só ao commercio, mas á eloquencia parlamentar, e que ainda ha pouco eu ouvi citar, na camara dos deputados, como sendo uma das mais gloriosas conquistas do partido regenerador, querendo-se dar a entender ao reconhecimento publico, que quando os comboyos andam, é o sr. Fontes Pereira de Mello quem assobia.
Os simples viajantes acham menos divertido os vagons de primeira classe, do que os carros do Cabreira, e preferem abertamente ao entroncamento da Casa-Branca o antigo encontrão do odre nos solavancos da estrada velha.
Chega a haver antigos negociantes que, por baixo dos seus capotes ao fundo das lojas da rua Ancha, para o próprio transporte das mercadorias, suspiram ainda pela tracção do gado muar, como por uma terra de saudosa recordação da mocidade, jurando que o extincto macho carroceiro, quando nas unhas de quem lhe soubesse falar á mão, era muito mais ligeiro do que o vapor, em que tanto gosta de apitar a rethorica, consideravelmente menos fervida no transporte comercial dos odres do que na taverneação politica dos votos.
O caminho de ferro – dizem ainda – ligando-as estreitamente com Lisboa, absorvem para a capital a antiga importancia d’Evora como centro de provincia, e dissolveu uma grande parte da intensidade da sua vida autonoma.
O novo theatro sumptuoso e vastíssimo, se chegar a concluir-se, não terá quem o frequente, porque todos os rapazes e todas as senhoras novas das ricas familias eborenses preferirão ir a Lisboa ouvir a opera de S. Carlos, a comedia de D. Maria, ou a opereta da Trindade, a gastar o seu dinheiro com os amadores da terra.
E o que succederá com o theatro sucede com muitas outras fontes de trabalho, de commercio e de industria local, que o caminho de ferro vai sucessivamente empobrecendo e extinguindo.
Que demonio há de fazer a modista, o alfaiate elegante, o mercador de chapéos de seda e de pannos finos, o marceneiro, o joalheiro, o luveiro, o camiseiro, o relojoeiro, etc., numa terra distante apenas seis horas de Lisboa, e lendo em cada manhã o Diario de Noticias do mesmo dia com o programma dos espectaculos da noite, com o menu dos restaurantes, com as reclames dos alfaiates e das costureiras da baixa e com os annuncios do Gardé, da Emilia de Abreu, da Loja do Povo, da Aguia de Ouro e do Cento e três?!...
Além disso, o caminho de ferro encareceu em Evora o custo de todos os viveres, sugando-lhe como por uma enorme bomba aspirante para o estomago de Lisboa todos os generos alimenticios que n’ella abundavam: os frangos, os perús, os cabritos, os ovos, as perdizes, os repolhos e as laranjas.
De resto, com o no fundo das lamentações dos velhos retrogrados de Evora existe a melancólica afirmação de um facto perfeitamente positivo, eu receio bem, ao deixal-a com toda a minha sympathia de escriptor e de portuguez, que d’aqui a duas ou três gerações esta velha cidade, tão litteraria e tão artistica, cujo esplendor portanto tempo competiu com o de Lisboa, não venha a ser mais do que uma ruina monumental e um duplo deposito das mais gloriosas tradições para a nossa historia, e dos melhores géneros alimentícios para a nossa praça da Figueira.»
Ramalho Ortigão
in “Progresso do Alentejo”, III anno, n.º 269,
Évora, Quarta-feira, 28 de Abril de 1886.

quarta-feira, 22 de abril de 2015