sábado, 27 de fevereiro de 2010

O Templário, o Sonhador, o Poeta... uma Homenagem


José Manuel Capêlo - 1946 / 2010

A MORTE É A CURVA DA ESTRADA

Em memória do Poeta, Templário de coração, José Manuel Capêlo.
Um poema simples para um homem simples, do nosso Fernando Pessoa:

A morte é a curva da estrada,
Morrer é só não ser visto.
Se escuto eu te oiço a passada
Existir como eu existo.

A terra é feita de céu.
A mentira não tem ninho.
Nunca ninguém se perdeu.
Tudo é verdade e caminho.

Até Sempre!

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Lucifer... o transportador da Luz...


A PLENITUDE DO TEMPO

Num trono de ferro enferrujado,
Além da mais remota estrela do espaço,
Eu vi Satã sentado, sozinho,
Velho e corcovado era o seu rosto;
Porque o seu trabalho fora feito, e ele
Descansava na eternidade.

E até ele, do Sol
Vieram seu Pai e amigo,
Dizendo, – Agora que a obra está feita,
O antagonismo terminou –
E guiou Satã para o
Paraíso que Ele conhecia.

Gabriel, sem carranca;
Uriel, sem lança;
Rafael desceu cantando,
Dando Boas-vindas ao seu antigo par:
E sentaram ao lado dele
Aquele que havia sido crucificado.”

James Stephens, “The Fulness of Time” –
Collected Poems, MacMillan and Co, Ltd., London, 1931

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

O Alentejo... um Mundo ainda a descobrir...


Pitura de Estrela Faria

SÓ POSSO SER UNIVERSAL SE EU CANTAR A MINHA ALDEIA - ATAHUALPA YUPANQUI

Canción del Trovador Errante

Fui un trovador errante
sombra por caminos sin almas
Mis riquezas
fueron aquellos sitios
donde aprendian mis canciones
quienes me las mostraban
vagabundos alrededor de sus hogueras
iluminaciones de cirqueros y perros
donde me convertia en una chispa transitória
disuelta en las remotas
antífonas que saben las cigarras

Mi pátria era la intempérie
los acosados campos de clorofila elemental
y fauna en eclosión
pero también era ceniza
miércoles de lloviznas masticando
la hogaza súcia y nutritiva que comparte
el proscrito ordinário
risueño y colosal
entre las tíbias ocasionales
piernas de um cisne amaestrado

Fui un trovador errante y ahora
tras el paso del tiempo
soy quien enciende las hogueras
quien convoca luciérnagas
y sabe el nombre de la chispa que salta
de la crepitación hacia la noche
cometa de un universo diminuto
donde mi mano es la de Diós
quiero decir
la de un colosalmente viejo vagabundo
com la mirada puesta en los senderos
com la memoria abierta a la única
riqueza que le espera

Susurraré mi historia a un trovador errante
sombra en busca de almas
para que la reparta junto a los fuegos
ocasionales tíbios que depara el camino
a todos quienes sueñan com un cisne
salvaje.

Sílvio Rodrigues Dominguez
1996, Madrid

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Uma Brinca de há muitos anos...


Brinca antiga com identitificação desconhecida

AS BRINCAS DO ENTRUDO EM ÉVORA - IX

Curiosidades sobre as Brincas de Entrudo de Évora: As peles dos bombos e caixas

Há muitos anos atrás, muito antes dos relativamente generosos apoios das autarquias para a realização das "brincadeiras" de carnaval, os participantes destes grupos de folgazões tinham de puxar pela imaginação para resolverem as dificuldades muito concretas que existiam. Uma delas era a de fazerem com que as peles das caixas e dos bombos, muitas vezes emprestados, outras vezes velhos instrumentos que passavam de geração em geração, estivessem operacionais de uns anos para os outros. A dificuldade principal era a de arranjarem algum dinheiro a mais para recuperarem aqueles instrumentos. Como este recurso era escasso e como, por vezes, surgiam dificuldades aparentemente insuperáveis sem ele, tinham os rapazes que dar voltas e reviravoltas à cabeça no sentido de as ultrapassarem.
Imaginemo-nos nas vésperas do tão ansiado "ensaio da censura" (ou "baile da censura", que coincidia com o baile do sábado de Carnaval), em que os velhos das brincas de outros tempos tinham o privilégio de ver e criticar o que estava mal no fundamento, na dicção [no cante] das décimas, nos enfeites das roupas e nas interpretações dos figurantes e, principalmente dos palhaços.
Imaginemos, pois, que mesmo nesta altura a pele de uma das caixas ou de um bombo se rompia e punha em causa a saída que para breve estava prevista. Era o desastre total! Contudo, imediatamente se delineavam alternativas para se superar as dificuldades aparentemente irresolúveis. Ainda durante aquela noite os rapazes espalhavam-se pelas redondezas a fim de conseguirem um gato ou um cão, conforme precisassem de peles para a caixa ou para o bombo! Nestas noites que antecediam o Carnaval e durante os três dias de festas, era ver as velhas a guardarem muito bem guardados os seus bichos de estimação, ainda assim não fosse a sua pele servir de bombo ou de caixa para a rapaziada. E ainda por cima escarneciam da desgraçada no dia da saída da brinca, pois que, quando passavam em frente da casa da dona do infeliz animal, os brincalhões não se coibiam de fazer uma grande algazarra a chamar pelo bicho, miando ou ladrando conforme fosse o caso, para grande desespero da dona do até aí desaparecido animal: tinha sido encontrado o seu destino!

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Brinca antiga em actuação


Brinca de N.ª Sr.ª de Machede

BRINCAS DE ENTRUDO NA REGIÃO DE ÉVORA - VIII

AS BRINCAS EM MACHEDE

Depois da formação e da entrada no Largo ou na Rua, o Mestre da Brinca dirige-se à pessoa mais representativa desse lugar – o dono da rua. Neste caso concreto, o Sr. Marcos referido era, em 1959, o Sub-Regedor da Freguesia de Nª Sª de Machede, ferreiro de profissão e morador na rua da Igreja. O Regedor era o Sr. José Baptista, lavrador. Autoridades a quem a Brinca deveria apresentar-se em primeiro lugar para ter lugar a apresentação da censura... para poder ser apresentada posteriormente à população em geral.
A informação e os excertos de fundamento – fórmula inicial do mesmo – foram da autoria de Bernardino Manuel Pereira Piteira, já falecido, e a quem deixo as minhas mais respeitosas homenagens.

I

Senhor Marcos faça favor
Venho aqui à sua rua
Para pedir autorização sua
Porque o dono é o senhor
Quero-lhe pedir com amor
A sua boa licença
Quero que os que estão em nossa presença
Minha obra possam ouvir
Faz favor de me decidir
Para apresentar a pouca inteligência.

II

(Depois do dono da rua dar autorização para o desenrolar da função):

Quero lhe agradecer
Com um aperto de mão
Por saber que é o patrão
E a licença me ceder
Já lhe vou esclarecer
A minha pouca inteligência
Esta minha ’devertência
Vai agora observar
Não sei se irá gostar
E se não gostar tenha paciência

III

(O Mestre da Brinca dirigindo-se ao Grupo referindo que têm licença do dono da rua para apresentar e pedindo-lhes que se portassem bem):

Rapazes do coração
Não sei se estão a reparar
No que estive a publicar
Vejam lá o que farão
Reparem tomem atenção
Em tudo que vamos fazer
É isto que lhe quero dizer
Não se deixem distrair
É para todo o povo os ouvir
Ouvir e ficar a saber

IV

(Começa o Mestre da Brinca por se dirigir ao público explicando a sua intenção e qual o argumento, enredo, que irão desenvolver):

Sim senhor vou começar
Porque tenho a licença dada
Agradeço em nome da rapaziada
Porque me veio a calhar
Terão que me desculpar
Se fiz alguma coisa mal
Eu não sou profissional
Nem vivo com essa mania
É só para lhe dar alegria
Nos dias de Carnaval

V

O meu dito fundamento
Quero a todos esclarecer
Para no fim lhe dizer
O fundo é o casamento
Isto é neste momento
Que nós podemos pensar
Para uma relação tirar
Como se cai neste engano
Vamos todos ver este ano
Se por acaso tivermos vagar

VI

Um rapaz que não namora
Passa a vida sem alegria
Até que chegou o dia
Uma rapariga arranjou
Tudo para ele se voltou
Entrou então na mocidade
Teve aquela felicidade
De viver sempre enganado
E já não pára calado
Agora que não tem idade

VII

Para lhe esclarecer
De um rapaz não namorar
Se calha uma a aceitar
O que vai acontecer
Há logo muitas a querer
Porque ele já namora
Isto é a mocidade de agora
Só pendem para a vaidade
Não olham para quem tem bondade
Vão ver já pouco demora.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

O Mestre da Brinca de N.ª S.ª de Machede, Bernardino Piteira


Srs. Bernardino Piteira e Pompeu, ao Degebe

AS BRINCAS DO ENTRUDO EM ÉVORA - VII

AS BRINCAS EM NOSSA SENHORA DE MACHEDE

Tal como as Brincas das quintas de Évora, é praticamente impossível determinar as origens das Brincas na aldeia de Nossa Senhora de Machede (concelho de Évora).
Este foi um texto realizado em Fevereiro de 1996, com base no depoimento do Sr. Bernardino Manuel Pereira Piteira, antigo Mestre de Brinca na aldeia de Nossa Senhora de Machede, de onde era natural e onde residia na altura da representação carnavalesca.
Parece-nos haver influências entre a aldeia e as quintas e bairros rurais da cidade de Évora.
O meio social onde este costume proliferava era o dos trabalhadores rurais das grandes casas agrícolas existentes à volta da cidade.
O Sr. Bernardino Piteira foi Mestre de Brinca em Nossa Senhora de Machede nos tempos da sua juventude, nos anos de 1959 e 1960, tendo na época 23-24 anos de idade. Na altura era famoso o Ti António Cigarra (Caeiro) como ensaiador e Mestre de Brincas, homem já com os seus 60 anos, assim como os irmãos Tiago e Francisco Vieira “Marafalha”, que, anteriormente a 1957, também foram Mestres de Brincas oriundas de N.ª S.ª de Machede. Em 1961 o Mestre da Brinca, última que se lembra de ter sido organizada na aldeia e em que já não participou, foi o Sr. Marcolino.
Por volta do ano de 1950, então com 13 anos de idade, lembra-se o Sr. Bernardino Piteira de ter ido à aldeia a Brinca do monte da Pereira (sito junto à estrada de Viana do Alentejo), ou pelo menos constituída por rapazes que eram trabalhadores rurais na herdade a que este monte pertencia. A Brinca apresentada denominava-se As Quatro Estações do Ano, tendo sido o Mestre o Sr. Linhol.
No monte da Pereira congregavam-se normalmente os trabalhadores rurais dos montes em redor: Vale de Moura, Pinheiros, Campo da Mira, Coelheiros, Bota, Chaminé, S. Marcos, Maceda e até do Bairro de Almeirim. Juntavam-se esporadicamente nesse Monte para a realização de Bailes nos casões e nos palheiros e, durante o Entrudo para os ensaios de Brincas, como foi o caso desse ano de 1950.
É bom lembrar que certas casas agrícolas chegavam a albergar nas suas casas da malta mais de 100 trabalhadores, provenientes de toda a região circundante. Daí que o monte da Pereira, porque se encontra geograficamente situado numa zona central - e nesses tempos a deslocação dos trabalhadores rurais fazia-se a pé -, pudesse servir de ponto de encontro de toda essa gente.
É de referir a extrema importância da tradição oral na preservação destes costumes cantados, musicados e coreografados pelas gentes do povo. O Sr. Piteira, em 1958, foi contactado por um amigo seu - o Sr. José Caetano, que nesse ano se assumiu como Mestre de Brinca - com o objectivo expresso de passarem para o papel as Décimas do Fundamento: foi o suficiente para se entusiasmar e, no ano seguinte, assumir o mestrado das Brincas de Machede.
É importante também referir que, tradicionalmente, as Décimas eram todas decoradas pelos participantes da Brinca, uma vez que o analfabetismo era, infelizmente, regra geral entre os trabalhadores rurais no Alentejo.
Os grupos de 14 ou 15 elementos, e até mais, iniciavam a sua actividade efémera pelo Ano Novo. Daí até ao Carnaval ensaiavam dois dias por semana, às quartas e aos sábados, depois do trabalho. Como todos eram trabalhadores rurais nas casas agrícolas dos arredores, largavam o serviço após o sol-posto (depois do “pôr do ar de dia”), e só então vinham, a pé, para a aldeia, cear e comparecer no ensaio. Este era normalmente efectuado em segredo num local escuso e relativamente distante da aldeia, a fim de salvaguardar de olhares e ouvidos indiscretos todo o enredo do fundamento e toda a construção coreográfica da Brinca, com o objectivo de melhor surpreenderem os seus conterrâneos nos dias de Entrudo.
Em 1959, o tema do fundamento foi «O Namoro/Casamento». Nesse ano, além da representação do referido fundamento a Brinca apresentou igualmente uma Contradança das Fitas. Mais complexa do que a da Pinha, esta contradança possuía um Mastro central de onde saía um conjunto variável de longas fitas, em número par, cujas extremidades os executantes agarravam e que, devido aos movimentos coreográficos levados a efeito, permitia a construção de um entrançado colorido.
Uma espécie de Contradança das Fitas era tradicionalmente executada no Baile da Pinha, por alturas da Primavera, apresentando-se um conjunto de longas fitas coloridas ligadas a uma pinha que, por sua vez, se encontrava presa ao tecto do salão de baile. Com a continuidade da assim denominada dança da pinha todas as fitas se desprendiam da referida pinha, excepto uma que era a premiada.
Contudo, tradicionalmente, o que a Brinca de Nª Sª de Machede costumava, em anos anteriores, apresentar como complemento à saída do fundamento, e para enriquecer visualmente toda a função, era uma Contradança dos Arcos, que eram construídos com ramos de silvas e enfeitados com papéis coloridos e armações de flores de papel, tal como eram enfeitados os chapéus dos seus executantes.
O resultado da execução destas Contradanças do Entrudo era um conjunto de lindos efeitos estéticos.
Refira-se, como curiosidade, que se encontra descrita uma Dança das Fitas, dançada por alturas do Entrudo em Moncorvo, nos anos 30, num trabalho publicado pelos etnólogos Santos Júnior e António Mourinho (Coreografia Popular Transmontana, “Trabalhos de Antropologia e Etnologia”, Fasc.4, Vol.23, Sociedade Portuguesa de Antropologia e Etnologia, Porto, 1980), além da descrição de uma Dança Satírica ou Festa dos Rapazes de Felgar (Moncorvo), igualmente formada por alturas do Carnaval. Aqui também, tanto na primeira como na segunda dança, como ainda nas Brincas e Contradanças tradicionais de Entrudo na região de Évora, os elementos participantes são todos homens, travestindo-se quando necessário. De qualquer modo, é interessante notar o facto de em Trás-os-Montes a Dança das Fitas ser tradicional da época Entrudo e ser executada só por homens, utilizando os executantes, além do Mastro, também arcos enfeitados com papéis e flores de papel coloridos.

Os dias fortes para a saída da Brinca eram o Domingo Gordo e a Terça-Feira de Carnaval. E eles lá iam, depois de vestidos os seus trajos a rigor: eles envergando jaqueta, calça e cinta pretas, e elas com trajes de cores garridas, à minhota. Os músicos eram chefiados pelo acordeonista - o Ti Serra - e exibiam os seguintes instrumentos: bombo, caixa, castanholas, pandeiretas e ferrinhos.
É ainda de salientar a importância do bombo no anúncio da saída das Brincas pelo Carnaval. Nas noites silenciosas das aldeias dos anos 50, as pessoas conseguiam escutar as pancadas nos enormes bombos utilizados pelos foliões a uma distância considerável, inclusive identificando o local onde estavam a ser executadas: no Degebe, em Vale Côvo, na Garraia, nos Canaviais... todos topónimos de quintas de características rurais à volta da cidade de Évora, onde a tradição das Brincas se manteve até aos nossos dias.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Actuação de Brinca

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AS BRINCAS DO ENTRUDO EM ÉVORA - VI

Segue-se uma amostragem de décimas de um fundamento escrito por Mestre Raimundo, “As Encantadas”. É apresentada a “fórmula” que o Mestre utiliza tradicionalmente para iniciar o fundamento, neste caso do Grupo das Encantadas.

MESTRE

1.ª

Senhor venho-o cumprimentar
Com a minha delicadeza
E pedir-lhe a fineza
Se nos deixa aqui apresentar
Nada podemos falar
Sem a sua autorização
O Senhor é o patrão
Eu cumpro o meu dever
Faz favor de me dizer
Se me á licença ou não

2.ª

Fico-lhe grato senhor
Que atenda o meu pedido
Eu fico-lhe agradecido
Muito obrigado pelo favor
Já tenho a rua ao dispor
Pois irei o sinal dar
O povo está a esperar
A nossa apresentação
Dou-lhe um aperto de mão
E vamos já iniciar.

3.ª

A todos muito boa tarde
A todos muita saúde
Que Deus os ajude
Com sua bondade
Esta mocidade
Vem aqui alegremente
Cumprimentar toda a gente
De dentro do coração
Peço-lhe muita atenção
E não cheguem muito para a frente

4.º

Isto é um divertimento
Que nós mandámos fazer
Mas devem de gostar de vir
Este nosso entretimento
Não é um fundamento
Com toda a perfeição
É a revolta de uma nação
É a vida que foi vencida
Com um filho anda fugida
E muitos assuntos se verão.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

O Mestre Raimundo


O Senhor Raimundo José Lopes no Bairro de Almeirm (Évora)

AS BRINCAS DO ENTRUDO EM ÉVORA - V

OS FUNDAMENTOS DO SENHOR RAIMUNDO JOSÉ LOPES

Natural de Évora, onde nasceu na Travessa do Cavaco a 3 de Março de 1918, trabalhou até aos 22 anos de idade com o pai em tarefas do campo, foi ainda aprendiz de sapateiro, trabalhou nas pedreiras a partir pedra com um marrão, etc.. Finalmente, aos 22 anos empregou-se como cantoneiro na J.A.E., onde permaneceu até atingir a idade da reforma.
Desde a sua meninice que gostou de fazer versos: quadras e décimas, principalmente. Foi com 12 ou 13 anos que compôs o primeiro fundamento, intitulado Branca de Neve e os Sete Anões, em quadras rimadas a 4 pontos.
Era à luz do candeeiro a petróleo que o Mestre Raimundo compunha os seus fundamentos, rabiscando nos seus papéis até altas horas da madrugada, pois enquanto os rapazes das quintas esperavam o fundamento para começarem os ensaios das suas brincas. E, há cinquenta anos atrás, eram muitas as quintas do termo de Évora que representavam os seus fundamentos durante os dias do Entrudo.
Eis os nomes de alguns dos fundamentos passados para o papel pelo Mestre Raimundo, uns imaginados totalmente por ele, outros inspirados em algum livro, conto popular, filme ou peça de teatro:

Branca de Neve e os Sete Anões
O Bocage
A Fugitiva
A Princesa Helena
O Camões
A Princesa Sanguinária
D. Pedro I - O Justiceiro
Os Alcoólicos
A Rosa do Adro
Pedro Cem
O Corsário
O Grupo Sagrado
O Grupo das Aves Reais
João de Calais
O Grupo da Escravidão
As Encantadas
Giraldo Sem Pavor
O Lavrador
A Namoradeira
O Grupo Real
João Soldado
D. Inês de Castro
O Príncipe com Orelhas de Burro
(...)

O Sr. Raimundo tem grande importância para a compreensão e para a história das Brincas e do Carnaval de Évora, por um lado pela abundância de material produzido – dezenas e dezenas de fundamentos –, por outro, porque a sua intervenção poética veio re-caracterizar a própria estrutura das Brincas e dos fundamentos, conferindo-lhes um enredo baseado em histórias ou na História, complexificando o conjunto formado também pelas contradanças e pelas canções e décimas de apresentação e de despedida.
A principal dificuldade do investigador destas matérias é o facto dos fundamentos, que existiram anteriormente à actividade de escrita e de registo do Sr. Raimundo, pertencerem a uma tradição eminentemente oral, não havendo, portanto, memórias escritas para que eventualmente servissem de comparação.
Contudo, é importante frisar a importância da tradição oral na produção dos enredos dos fundamentos. O Sr. Raimundo foi muito influenciado pelos contos populares tradicionais, sendo esta uma realidade instalada na sua maneira de ser e na vivência que faz deste mundo do maravilhoso nos poetas populares. Referia ele a certa altura, quando se encontrava a explicar um fundamento: «Antigamente, em remotas eras, os reis fadavam os filhos...».

No dia 31 de Dezembro de 2003, na noite em que tradicionalmente, durante o Baile de Ano Novo, os rapazes combinavam o compromisso de saírem com uma Brincadeira pelo Entrudo, deixou-nos o Mestre Raimundo.

Com a sua morte, virou-se mais uma importante página no livro da cultura eborense. Estas são páginas que possuem uma particularidade muito própria: não poderão ser passadas novamente! Uma vez passadas, ficarão irremediavelmente a pertencer a um tempo que já não é o nosso. Hoje as Brincas ainda existem, ainda saem à rua durante o Entrudo, mas por quanto tempo mais poderemos ainda ter o privilégio de as ver praticamente como elas actuavam há quarenta ou cinquenta anos?!

Fica desde já formulado um apelo aos actuais e antigos Mestres de Brincas para que façam reviver o espírito folião de Mestre Raimundo através da sua criação poética, pois ele perdurará e estará connosco enquanto as sua obras, os seus fundamentos, as suas décimas, não forem votadas ao esquecimento.

Com o desaparecimento do Mestre Raimundo, justifica-se plenamente aquele dito popular de que “Cada vez que um velho morre/ É uma biblioteca que se encerra”, pois que ele foi o criador e o depositário dos fundamentos, das décimas que serviram de enredo às Brincas de Carnaval de Évora, que, de um modo ininterrupto, vêm alegrando, vêm dando profundidade e consistência poética e humana ao nosso Entrudo desde o mais longínquo das nossas memórias escritas e
orais.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

As "Brincas" de Évora em 2009

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AS BRINCAS DO ENTRUDO EM ÉVORA - IV

O ESPAÇO CÉNICO

O espaço cénico da brinca é, digamos assim, tratado em três tempos diferentes mas complementares: em primeiro lugar, temos o tempo em que se inicia com a formação no local de representação até ao início do fundamento; o segundo tempo consiste na dramatização do próprio fundamento; o terceiro é constituído com os restantes elementos (contradanças, formações, rodas, etc.) até ao fim da brinca propriamente dita.
No entanto esta divisão agora proposta é artificial, pois que no decorrer da brinca as divisões existentes, marcadas fortemente pela bateria, são mais factores dinamizadores da acção do que marcações para “mudança de acto”.
O fundamento propriamente dito, isto é, a dramatização, inicia-se depois de todos os elementos da brinca se colocarem em círculo, excepto os palhaços, que não possuem lugar fixo. Os personagens só saem do seu lugar do círculo aquando da sua deixa, dirigindo-se então em direcção ao seu ou aos seus interlocutores. Ao terminar o fundamento dispõem-se novamente em círculo.
As diferentes coreografias geometrizam o espaço com círculos, quadrados, sinos-saimão, estrelas, meias-luas, etc., desenhos estes conotados com certos elementos tradicionais de cariz eventualmente mágicos e propiciatórios. A geometrização é principalmente elaborada durante as contradanças, sua formação e desformação.
É importante insistirmos aqui no espaço circular de representação do fundamento. Estaremos perante reminiscências de ritos solares de épocas remotas? Segundo autores como Mircea Eliade, o espaço circular da representação é o espaço de festa por excelência, onde acontece, cada vez que é provocada, a recriação de um espaço sagrado, onde tem lugar a renovação cíclica da própria vida, nas suas vertentes natural e cultural.
O exemplo que vamos descrever de seguida, o da estruturação do espaço cénico de uma brinca, não poderá, como é óbvio, ser extensivo, na sua forma, a representação de outras brincas nos seus pormenores, mas sim nos seus aspectos mais gerais de estruturação dos conteúdos e de veiculação de uma mensagem simbólica subjacente à própria dramaturgia.

I

[Chegada ao local]
Formação
bateria
Pedido de autorização ao dono do lugar, pelo Mestre
Contradança
Roda com o Mestre ao centro
Apresentação e breve explicação do fundamento
bateria
Apresentação dos personagens
bateria

II

Desenvolvimento do Fundamento
Fim do Fundamento

III

Roda com o Mestre ao centro
Décima de agradecimento aos presentes
Peditório de auxílio para as despesas efectuadas
Brincadeira dos Palhaços
bateria
Valsa
bateria
Décima à Bandeira
Canção em coro (sinopse do Fundamento)
Agradecimento de despedida
Formação
Contradança de despedida
Despedida e agradecimento ao dono do lugar

Finaliza a função em casa do dono do lugar, tomando todos os participantes da Brinca uma bebida oferecida por este e convivendo todos durante uns momentos. Como o local de representação escolhido é quase sempre junto de uma venda ou taberna, normalmente é o proprietário deste estabelecimento que desempenha o papel prestigiante de dono do lugar.
É claro que, de brinca para brinca, existem muitas variantes, não sendo rígida a estruturação de todo o conjunto cénico.

Existindo, à partida, um fundamento, a Brinca organiza-se e fica pronta a sair à rua num mês e meio (em média).
Iniciam-se os contactos preliminares na noite do baile do Ano Novo, congregando-se o grupo à volta do Mestre. Termina a função, desfazendo-se a brinca, na Quarta-Feira de Cinzas, com o tradicional Enterro do Entrudo, para voltarem a reunir-se no ano seguinte, demonstrando deste modo o carácter cíclico bastante bem demarcado e calendarizado.
O dinheiro conseguido nos peditórios é principalmente usado para cobrir as despesas com os adereços e, se for caso disso, com o acordeonista. Se sobrar alguma importância é organizado um convívio entre todos os elementos.
Por norma ensaiam dois a três dias por semana, chegando a ensaiar todos os dias na semana imediatamente anterior ao Carnaval. Estes ensaios são normalmente - segundo a tradição - envolvidos no maior, digamos assim, secretismo, pois o despique entre as diferentes Brincas é enorme - não só no que diz respeito ao fundamento a apresentar, mas igualmente em relação aos fatos usados, bandeira e sua decoração, etc. O ensaio geral é tradicional que se realize no local de origem da brinca, durante o baile de Sábado de Carnaval, fazendo-se a sua primeira representação em público sob os olhares críticos mas construtivos dos velhos das brincas de outros tempos.
Resta dizer que, durante os meses de ensaios para levantarem a brinca, esta funciona como um importantíssimo factor de coesão social de grupo, uma forma de animação cultural comunitária por excelência.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Ritmo, movimento, concentração


O Mestre da "Brinca"

AS BRINCAS DO ENTRUDO EM ÉVORA - III

OS ELEMENTOS-FORÇA CONSTITUINTES

A. O Palhaço
«A alma da brinca, para quem a representa, é o fundamento; e para quem a presencia são os palhaços», segundo depoimento de Mestre de Brinca.

É o Faz-Tudo. Serve de ponto, serve igualmente para tapar os enganos dos companheiros. A sua fala é de improviso.
Tem uma função essencialmente desorganizadora e anomista na ordem dramática decorrente durante a representação. É um provocador de situações absurdas, irracionais, cómicas...
É, por outro lado, o elemento dinâmico que intervém ao longo de todo o tempo da representação. É o grande elo de ligação entre o círculo onde decorre aquela representação e o próprio povo que assiste e que, subitamente, se encontra envolvido no processo dramático, é obrigado a isso pelas brincadeiras dos palhaços, transferindo para o referido espaço cénico os seus sentimentos mais profundos e as suas reacções mais primárias, mais espontâneas.
Inserido e simultaneamente elemento exógeno de toda a dramaturgia, o palhaço intervém para quebrar as tensões e as próprias mensagens veiculadas pelos personagens ao longo da narração e, especialmente, nos momentos críticos de grande tragédia vivencial.

«Os palhaços fazem tudo ao contrário e quanto mais ao contrário mais graça têm.»

O palhaço é o elemento, digamos assim, que retira o eventual excesso de densidade dramática da acção, conferindo-lhe uma frescura e um à vontade frequentemente excessivo, por vezes obsceno para a moralidade e o sistema de regras em vigor, o senso comum, mas, é Carnaval...

B. O Mestre

Tradicionalmente, é visto como uma autoridade assumida e reconhecida enquanto tal pelos restantes companheiros. Em princípio, terá recebido o testemunho de um mestre mais antigo.
É, regra geral, o ensaiador. A sua função é mandar a música, orientar a brinca, explicar, apresentar e agradecer ao dono do lugar durante a estadia e representação do seu grupo nesse local. É o que responde ao despique - em décimas -, com outro mestre, se outra brinca se cruzar com a dele, se não chegarem a bom termo as necessárias negociações para esclarecer e definir de qual brinca actuará em primeiro lugar em dado local.
Possui gestos estereotipados que marcam o ritmo da música, através de movimentos mais os menos bruscos, mas ritmados e cadenciados, das mãos, segurando por vezes fitas coloridas.
Ao som de um apito, manda executar as várias marcações das contradanças e das outras movimentações coreográficas.

C. A Bandeira

A brinca reúne-se [por vezes] em redor de uma bandeira, mastro ou estandarte, por vezes ostentando a bandeira nacional e o nome da brinca, enfeitado artisticamente com armações diversas, papéis coloridos, fitas de seda, etc., dependendo a decoração, em última análise, do gosto e das possibilidades dos elementos constituintes do grupo.
A bandeira é um factor de factor de coesão do grupo e emblema da Brinca, eixo-força do círculo da dramatização do fundamento.
Poderemos considerá-la enquanto manifestação simbólica do axis mundi, ainda existente em termos residuais na nossa contemporaneidade; e representação de reminiscências paradigmáticas do centro do mundo, num espaço tradicionalmente sagrado onde se observa, se faz reviver o drama da criação/recriação na natureza e no mundo; da passagem cíclica do Caos para o Cosmos... do Inverno para a Primavera.
Este conceito sagrado está antropologicamente conotado com o sentido de primordial, puro, pertencente às origens fabulosas do paraíso perdido de todos os grandes sistemas de Mitos Cósmicos. Este conceito subentende, por sua vez, e necessariamente, um centro que, em todas as actualidades, em todas as épocas, faça a ligação simbólica, transportando os participantes do rito para aquele tempo sem história em que os homens eram deuses.

D. Ornamentos tradicionais

Os chapéus possuem uma armação de arame que suporta os ornamentos, que vão das rosas de papel colorido às fitas de seda de várias cores, e que se cruzam sobre o peito dos vários intervenientes da brinca.
É claro que os palhaços possuem as vestimentas desregradas costumeiras. Por vezes até com adereços obscenos, que utilizam durante as brincadeiras. Eventualmente poderá a brinca sair com um guarda-roupa completo, de acordo com cada um dos personagens do fundamento.

E. Instrumentos musicais

Os instrumentos tradicionalmente utilizados pelas brincas são o bombo, a caixa, o acordeão e a concertina, a pandeireta, a guitarra, a ronca, os ferrinhos e as castanholas, variando de grupo para grupo, consoante os meios humanos que cada mestre consegue mobilizar para a sua brinca.
Papel de grande importância tiveram as Associações com vocações artísticas e musicais, como era o caso da Escola dos Amadores de Música Eborense e da Sociedade Recreativa e Dramática Eborense, que há cinquenta anos atrás estavam sediadas, respectivamente, na Rua do Raimundo e no Pátio de S. Miguel. Estas Associações forneciam aos músicos populares participantes nas Brincas, mediante o pagamento de pequena taxa de aluguer, instrumentos musicais diversos.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

"Brinca" perfilada para a fotografia...




"Brinca" dos Canaviais - Anos 80 em Valverde

AS BRINCAS DO ENTRUDO EM ÉVORA - II

AS ORIGENS
É difícil definir-se historicamente a origem deste tipo de manifestação cultural tradicional. Alguns autores apontam o século XVIII, outros fazem remontar a sua origem à época e aos autos de Gil Vicente, no século XVI, outros ainda há que não arriscam quaisquer datas para a sua origem, devido ao simbolismo subjacente na sua coreografia e à sua estruturação espacial, fazendo-as remontar a tradições mítico-religiosas ancestrais, nomeadamente inseridas em contextos de culturas e vivências de forte conotação agrária.
O problema está em saber destrinçar a forma do conteúdo. Pois que, se formalmente estas brincas por nós hoje conhecidas, podem ser eventualmente recentes no tempo, os seus conteúdos poderão sem dúvida alguma ser encontrados entre as grandes representações míticas universais.

As Brincas, hoje

A sua proveniência continua a ser os bairros periféricos e as freguesias rurais de Évora. São, pois, caracterizadas por uma marcada ruralidade original.
As freguesias de N.ª S.ª de Machede, N.ª S.ª da Tourega, Graça do Divôr e Canaviais; os actuais bairros como o Degebe, a Garraia, Almeirim, S.to António, Peramanca, são alguns exemplos de que as Brincas chegaram aos dias de hoje. No ano de 1994, estavam ainda todas em actividade.
Luís de Matos, em trabalho publicado no I Congresso sobre o Alentejo (Semeando Novos Rumos, III Volume, Évora, Outubro de 1985, pp.1261-62), refere, baseado em investigações de campo, que há umas dezenas de anos os locais de representação das Brincas eram as quintas, nomeadamente: dos Apóstolos, do Ourives, do Chéu-Chéu, dos Meninos Órfãos, da Rafaela, das Pimentas, das Torcidas, o lugar da Machoca, etc.. Com o desaparecimento da importância das quintas e de toda a sua lógica vivencial, os locais de representação foram mais recentemente localizados nalguns bairros. Nos anos 80, e ainda segundo o mesmo estudo de Luís de Matos, esses bairros eram: Canaviais, Frei Aleixo, Almeirim, S.ta Maria, S.to António, Senhor dos Aflitos, S.to Antonico, Degebe (Machado), Louredo (Venda do Pascoal e do Alface), Barraca de Pau.
O seu público privilegiado são os habitantes das próprias zonas de origem, simultaneamente de pertença e de referência, ou de outras zonas com características semelhantes.
O local de representação é a rua, ao ar livre, ou em casão agrícola cedido para o efeito.
Tradicionalmente, as Brincas eram constituídas somente por homens, travestindo-se, se necessário, para o desenrolar do fundamento, numa média de quinze a vinte: um mestre, dois ou três palhaços (os faz-tudos), meia dúzia de músicos, onde a bateria (bombo e caixa) e a concertina têm um papel fundamental, um porta-estandarte e os restantes figurantes para a execução/representação do fundamento.
Convém clarificar que se denomina brinca o grupo de homens ou rapazes que se organizam anualmente (ciclicamente) para a construção e execução de uma dramatização popular durante a época festiva do Carnaval. No entanto, poderá igualmente entender-se por brinca toda a acção dramatizada (o fundamento), musicada (a contradança, a valsa, a canção, etc.) e coreografada (as diferentes formações que têm lugar ao longo de toda a acção: as rodas, etc.). que esse grupo assume nas várias representações que realiza.
No que diz respeito ao fundamento, em termos formais é constituído por décimas de versos rimados. É a alma da brinca.
Um autor de fundamentos - importante pela quantidade e qualidade de fundamentos escritos - o Sr. Raimundo José Lopes, é sobejamente conhecido nos meios do Carnaval tradicional da região de Évora, chegando um só fundamento dos seus a reunir mais de dois mil versos, estes, por sua vez, organizados em décimas.
O fundamento, na perspectiva do citado autor popular, apresenta um enredo, com princípio, meio e fim, podendo este focar diferentes realidades sócio-culturais e históricas. Diversificada poderá ser a temática desse enredo: episódios da Bíblia, da História de Portugal, da realidade social alentejana, da guerra, contos populares tradicionais, do comum quotidiano, entre outros.

«Os antigos é que prestavam atenção às brincas e as compreendiam. Os da cidade não as percebem e chamam-nos pategos.»

Com este depoimento de um mestre de brinca, põe-se-nos a questão: poderá o homem citadino apreender o sentido mais profundo destas manifestações culturais da tradição oral?
De facto, trata-se de uma forma muito rica e complexa de cultura popular, com as manifestações artísticas dos seus componentes: poetas, músicos, encenadores, coreógrafos, artistas plásticos de cariz popular, criando ou recriando eles próprios os versos do fundamento e as músicas executadas.

As mensagens da brinca abalam de facto as estruturas sociais mais sólidas: a família, a autoridade, a igreja, o poder instituído, a moralidade e os bons costumes.
Se o fundamento, na brinca, representa a narração de uma situação normal (normalizada) que caracteriza toda uma ordem quotidiana, a principal figura da brinca - o Palhaço/o Faz-Tudo - personifica a desordem, o caos, o diabo, a loucura, em suma, a ausência de ordem, de lei, de respeito, realizando ele, no decorrer de toda a dramatização, a inversão total dos valores veiculados pelos seus restantes companheiros, que fazem os possíveis e os impossíveis para o ignorar - ele, para eles, não existe...
Deste modo, será legítimo afirmar que o Faz-tudo põe em causa tudo, inclusive a própria brinca e o seu fundamento.
É exactamente por este emaranhado de situações, mais ou menos complexas, que só faz verdadeiro sentido nós encararmos a brinca no contexto mais amplo do próprio Carnaval, inserido este no calendário das principais Festas Cíclicas (Agrárias) Anuais. Não o Carnaval domesticado, legitimado, vendido, bem educado, isto é, o Carnaval citadino e urbano, mas sim aquele tempo de festa, de jogo, onde a transgressão, a loucura, o imoral deveriam ter sido, em eras passadas, os únicos valores, ou melhor, anti-valores aceites num tempo e num espaço de renovação, de exaustão do velho e do gasto, para que o novo (ou renovado) pudesse emergir, ressuscitar, germinar com o aparecimento da Primavera. Daí o denominar-se, tradicionalmente, desde tempos imemoriais, de Entrudo (Entrada) esta época de caos e desordem que antecedia paradigmaticamente a génese da organização natural e humana.
Em tempo de Carnaval todos teriam, simultaneamente, de se constituir enquanto autores, actores e espectadores das brincadeiras das trupes - no nosso caso concreto das brincas - e demais grupos errantes. A censura oficial e policial existente era menosprezada. A participação era total e sincera, o riso era o advogado de acusação no julgamento da autoridade, da moral e da lei oficiais, reguladoras da vida social nos restantes períodos do calendário.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Mastro e Bandeira de Brinca


Brinca dos Canaviais

AS BRINCAS DO ENTRUDO EM ÉVORA - I

O TEMPO DO CARNAVAL OU DO ENTRUDO
Tempo de festa, de jogo, onde a «transgressão», a «loucura», o «imoral» e a «paródia» deveriam ter sido, em eras remotas, os únicos valores aceites de um tempo de renovação, de exaustão do «velho» e do «gasto» para que o «novo» pudesse ressuscitar, germinar com a Primavera. Talvez daí o facto de se chamar, desde tempos imemoriais, de Entrudo (Entrada) a esta época de caos e desordem que antecedia paradigmaticamente a génese cíclica da transformação natural e da organização social.
Entre os homens, em tempo de Carnaval ou de Entrudo todos teriam, simultaneamente, de ser autores, actores e espectadores das «brincadeiras» e das «mascaradas» das trupes errantes. A censura do povo não existia ou estava convenientemente recalcada durante estes dias de festa. A participação era total e sincera, o riso era o advogado de acusação no julgamento da Autoridade, da Moral e da Lei oficiais e vigentes, reguladoras da vida social e cultural nos restantes períodos do Calendário anual.
O Carnaval para ser verdadeiramente Carnaval teria de ser assumido por cada indivíduo, enquanto festa colectiva e enquanto festa possuidora de uma consciência de ruptura com o convenientemente «arrumado», «estereotipado», «normalizado», «catalogado», «convencionado», onde a espontaneidade e a alegria gratuitas reinassem e fizessem dos grupos humanos «unidades desorganizadas» onde a única regra aceite seria a da proibição de tirar a máscara ao parceiro e revelar a sua identidade; e ainda, paradoxalmente, não aceitar quaisquer regras anteriormente estabelecidas, aceitando o imprevisto e o desconhecido como a única realidade a ser vivida.

As Brincas de Évora
As Brincas são das manifestações tradicionais mais representativas do Carnaval de Évora. Consistem numa manifestação cultural tradicional, ainda hoje viva, sendo únicas pela forma e pelo conteúdo, pela originalidade e pela criatividade. São um subgénero da dramatização popular, musicadas e coreografadas, tendo por base um fundamento constituído por um “corpus” de décimas, tão características do Alentejo, e um dos pilares das oralidades da cultura popular alentejana.

A preservação desta manifestação tradicional, por parte dos responsáveis das instituições culturais autárquicas, tem consistido numa atenção redobrada aos dinamizadores das Brincas, dando-lhes o apoio necessário para a construção da coreografia da função. Nos últimos anos têm saído Brincas nos Bairros dos Canaviais e Almeirim e ainda na freguesias de Nossa Senhora de Machede e Graça do Divôr.

Por outro lado, há que reconhecer, tivemos a felicidade de ainda termos conhecido e contactado a pessoa que desde os anos 30 do século passado escreveu os fundamentos em décimas que são a “alma”, das Brincas: estamos a falar do Senhor Raimundo José Lopes, residente, durante largos anos, no Bairro de Almeirim, até à sua morte no ano de 2003. Voltaremos mais à frente a falar desta extraordinária personagem.
Não obstante, a melhor preservação destas tradições orais é o seu estudo e a sua compreensão, áreas de trabalho que nos encontramos há alguns anos a fomentar e a realizar, e que pensamos continuar, em prol da dignificação da cultura popular.

Poderemos desde já referir que encaramos as Brincas carnavalescas da região de Évora como reminiscências de antigos costumes comunitários, que uma cultura natural do povo rural das quintas dos arredores da cidade e dos grandes montes agrícolas circundantes manteve e preservou ao longo dos tempos.
Atrevendo-nos a teorizar um pouco, poderemos considerar a cultura natural como aquela manifestação sociocultural que permite, entre as pessoas e os grupos, o entendimento e a escuta de uns em relação aos outros, caracterizada pela espontaneidade e independência, além e aquém dos conhecimentos intelectuais e eruditos, dos conhecimentos técnicos e teóricos, etc.
A cultura natural terá mais que ver com as vivências e as experiências acumuladas por cada um; com as capacidades que cada indivíduo possui, em si próprio, para responder positivamente aos desafios da vida; com as necessidades de todos para a construção, juntamente com os seus semelhantes, de um mundo melhor, mais verdadeiro, mais belo e mais sensível...
Será esta cultura natural que se encontra, em última análise, na raiz da compreensão da própria natureza humana, em termos gerais, e no emergir consciente de uma identidade cultural determinada, com características idiossincráticas próprias – quintaneiros, rurais, alentejanos, eborenses, etc…