sábado, 19 de dezembro de 2009

O SIMBOLISMO DO PRESÉPIO

Um dos mais ternos símbolos do Natal, celebramo-lo tradicionalmente no nosso País, na cidade ou nos campos, nas vilas ou nas aldeias: o Presépio. Apresenta-se-nos como uma dramatização simbólica de grande significado humano e espiritual.
Denominamos vulgarmente por Presépio (palavra de origem latina que significa "local onde se recolhe o gado") aquela representação lúdica da cena do nascimento do Menino Jesus, com todo um enquadramento poético e bucólico. Nomeadamente descrevendo a Presença do Menino, entre dois animais (vaca e burro) acompanhado de Sua Mãe e por José e, perante eles, pastores, anjos e Reis (Magos) a adorá-Lo e a oferecer-Lhe presentes.
Porém, mais do que um simples passatempo anualmente organizado, é esta uma representação de cariz espiritual, que vai tocar no mais fundo de quem ousar jogar, brincar aos Presépios, vai tocar o Símbolo do Natal - o Nascimento do Cristo em-devir. E para além de todo o aspecto lúdico de construir o Presépio (autêntica cosmologia), tal como num Jogo de Xadrez, movimentando nós as peças no tabuleiro branco-negro - que afinal poderá significar a vida do ser humano em todas as suas dicotomias e vicissitudes tais como o amor/ódio, o positivo/negativo, a vida/morte, o bem/mal... -, existem Realidades transformadoras e transformantes que nos têm sido transmitidas ao longo dos séculos.
O Presépio... eis-nos perante uma manifestação popular religiosa em que transparece uma ligação entre o homem e a terra... entre o oleiro (o barrista) e o barro.
O homem pegou num pedaço de barro e, paradigmaticamente, moldou-o à sua imagem e semelhança, deu-lhe as cores da Vida, transmitiu-lhe um significado simbólico.
Do barro animado foi gerada uma obra estética que, por sua vez, deu origem à representação do símbolo do Natal: o Nascimento de Jesus, o futuro Cristo, reformador de Religiões e Curador dos homens. O Mistério aconteceu... há dois mil anos, em finais de Dezembro, despontava o Sol na obscuridade do signo zodiacal do Capricórnio (de onde a Gruta, por analogia), nascendo no horizonte, no seio da Constelação da Virgem e encontrando-se no alto do firmamento a Constelação Orion com as três estrelas no centro - os Reis Magos... Eis a encenação astronómica do Natal que deu origem ao nascimento do Cristo Mítico, pois nos encontramos perante a dramatização de um Mito Solar.

Numa outra perspectiva, considerando como Cultura tudo aquilo que é susceptível de ligar os homens, então, o Presépio (o Mistério do Natal) é um acto, é uma manifestação cultural por excelência. Assim, todo o acto cultural é um acto criativo porque vai tocar o que de mais íntimo, o que de mais essencial permanece, quiçá inato, no homem. Através da Festa do Natal, através da dramatização multisecular do Presépio, esse íntimo, essa essência, é afinal a Criança que ultrapassa a realeza (pois reis lhe oferecem o Ouro), que está acima de qualquer sacerdote (pois é contemplada com incenso, por magos), e venceu a Morte (significando a oferta de Mirra, o conhecimento dos segredos da Imortalidade).
Por analogia, representando simbolicamente a tentativa do homem se renovar, se purificar, renascer anualmente, ciclicamente. Isto é, representando, festejando o nascimento do Homem Novo e, em última análise, a Renovação da Humanidade através do Nascimento de uma Criança, símbolo da Inocência, da Inofensividade, da Tolerância...
O Presépio é, afinal, a leitura e a interpretação popular, imbuídas de sentido estético particular, de um sentimento religioso emanado e veiculado através da evolução institucional (e por vezes ideológica) do Cristianismo. Constituem-no figuras com alma própria, aperfeiçoadas ao longo dos Séculos, permitindo uma apropriação vivida daqueles Mitos e Mistérios que, por sua vez teriam sido reintegrados pelo próprio Cristianismo. A sensibilidade espiritual dos Presépios conseguem transmitir ao longo de gerações toda uma Mística e toda uma Mitologia superiores que ainda hoje sobrevivem e são transmitidas.

Avancemos uma proposta de significação dos principais elementos simbólicos presentes no PRESÉPIO:

Presépio: palavra de origem latina que significa: "local onde se recolhe o gado". Na Tradição portuguesa: presépio ou lapinha (gruta).

Belém: significa literalmente a "Casa do Pão" [em hebraico, Beith-Lehem]; mas também poderá significar, através de uma interpretação simbólica baseada na Cabala judaica, a "Casa de Deus" [Beith-El].

Estábulo e manjedoura: símbolos da pobreza. Do corpo humano e do interior do corpo de onde Jesus nasceu. Os habitantes do Estábulo eram um boi e um burro. Símbolos da geração/fertilidade e da personalidade, respectivamente. Estábulo como símbolo do corpo humano, contendo dentro de si duas forças em permanente conflito: personalidade e sensualidade. Jesus, o Cristo, poderá todavia ser considerado um Iniciado nos Mistérios da Espiritualidade Universal, conseguindo transmutar em si próprio o boi e o burro, colocando-os ao seu serviço.

Estrela: este símbolo é reconhecido pelos Iniciados na Religião-Sabedoria dos Mistérios Antigos. É símbolo do Homem, feito á imagem e semelhança de Deus Criador (daí o aforismo Hermético: "O que está em cima é igual ao que está em baixo").

Os três Reis Magos: Melchior, Baltazar e Gaspar, segundo a Tradição, um Vermelho, um Branco e outro Preto, remetendo-nos eventualmente para interpretações alquímicas, de Construção da Obra... Conferiram/reconheceram no Menino Jesus um Salvador Espiritual da Humanidade, um Reformador dos Mistérios.

Ouro: significará simbolicamente que Jesus era Rei e possuía em si a luz dourada da Sabedoria.

Incenso: símbolo do Sacerdócio, da Verdadeira Religião (ou Religião da Verdade), do Coração e do Amor.

Mirra: Símbolo da Imortalidade. Era utilizada para embalsamar os corpos e preservá-los da corrupção e destruição.

Galo: símbolo solar por excelência. Anunciador da luz do dia.

Concluindo, o Presépio, com todo o seu sistema de símbolos, transmite, de forma poética e lúdica, realidades espirituais de suma importância, vivencial e humana. Talvez inventado por S. Francisco de Assis, para a mentalidade cristã medieva, por volta do século XIII, tem como figura central, como protagonista, o Menino, figura tão grata aos espirituais franciscanos ao longo dos tempos. A sua realidade fundamental é a da possibilidade, de facto, do Cristo vir-a-nascer na Humanidade em geral, no indivíduo em particular...

Rui Arimateia

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