Partiu sábado passado, dia 21 de Agosto do ano de 2010, um Mestre um Irmão, um Ser verdadeiramente luminoso e inspirador. Soube-o somente há pouco. Até breve porque breve é este instante efémero de vida terrena e material. Até sempre porque nunca verdadeiramente nos separaremos do Mestre… Dói fundo a ausência física mas permanece a Presença vigorosa, ladina e inspiradora de António Telmo.
Deixo aqui um texto que há uns anos li na apresentação do livro “Contos” publicado pela Editora Aríon, do também recentemente desaparecido do nosso convívio físico, José Manuel Capelo. Foi o texto posteriomente publicado em livro de homenagem dos 80 anos de António Telmo, o que muito honrou.
ANTÓNIO TELMO CARVALHO VITORINO nasceu em Almeida, Distrito da Guarda nos idos anos de 1927, a 2 de Maio, chegou com as Maias, poder-se-á dizer.
Andarilho por meio mundo privou com grandes da Cultura, da Filosofia, do Pensamento Português. Desde Agostinho da Silva a Eudoro de Sousa, de Álvaro Ribeiro a José Marinho, entre muitos outros que com ele privaram e com eles António Telmo ajudou a re-construir a Pátria da Língua Portuguesa, parafraseando o poeta Fernando Pessoa.
Refere José Marinho na sua obra "Verdade Condição e Destino no Pensamento Português Contemporâneo"(1):
Nos pensadores que contamos entre os responsáveis no próximo futuro pelo destino da filosofia entre nós, quatro se nos impõem: Alberto Ferreira, António Telmo, Eduardo Lourenço e Orlando Vitorino. Em todos eles despertou o sentido d'«o que mais importa», pois nos aparecem intimamente atentos com diversa explicitação ao imperativo dizer de Plotino.
É realmente este sentido d'«o que mais importa» que vemos continuamente a ser alvo das preocupações literárias – e a Literatura é aqui usada enquanto veículo de transmissão de mensagens – de António Telmo. E é interessante o facto dele próprio se considerar um esoterista. E encaremos este termo sem cairmos em pré-conceitos, e se lhe dermos a dimensão de Schwaller de Lubicz penso que entenderemos um pouco melhor a obra de António Telmo.
Sobre o significado de Esoterismo refere então Schwaller de Lubicz:
O Esoterismo não possui nada em comum com uma vontade de segredo, isto é, de um segredo convencional.
(...).
(...). A criptografia e o enigma, na composição de um texto sagrado, não têm senão por objectivo, o de acordar a atenção do leitor, acentuar um ou outro aspecto do texto, enfim, guiar na direcção do carácter esotérico. (...).
O esoterismo não pode ser escrito, nem dito, nem, por consequência, ser traído. É preciso estar preparado para o compreender, o ver, o entender – como o escolherdes. Esta preparação não é um Saber, mas um Poder, e não poderá senão adquirir-se pelo esforço da própria pessoa, por um combate contra os seus obstáculos e uma vitória sobre a sua natureza animal-humana.
Existe uma Ciência Sagrada, e após milénios, inumeráveis curiosos em vão tentaram procurar penetrar-lhe os "segredos". Era como se, com uma picareta, eles quisessem cavar um buraco no mar. A ferramenta deverá ser da mesma natureza da coisa em que se quer trabalhar. Só se encontra o Espírito através do Espírito, e o Esoterismo é o aspecto espiritual do Mundo, inacessível à inteligência cerebral.
(...).
O Iniciado verdadeiro poderá guiar um aluno dotado para lhe fazer percorrer o caminho da Consciência mais rapidamente, e o aluno, chegado às etapas da Iluminação pela sua própria Luz interior, lerá directamente o esoterismo de tal ensinamento. Ninguém o poderá fazer por ele.(2)
É uma obra complexa a sua – A Arte Poética (1964), História Secreta de Portugal (1977), Gramática Secreta da Língua Portuguesa (1981), Desembarque dos Maniqueus na Ilha de Camões (1982), Filosofia e Kabbalah (1989), O Bateleur (1992), Horóscopo de Portugal e agora estes Contos – para só referenciar os livros publicados e passando por cima dos muitos artigos espalhados por importantes Revistas principalmente ligadas com a Cultura e a Língua Portuguesa, tais como as Revistas "57", "Leonardo", "Cultura Portuguesa", para só citar algumas.
Diz-nos Pinharanda Gomes no seu "Dicionário de Filosofia Portuguesa"(3)que:
O centenário do nascimento de Sampaio Bruno (1957) ficaria assinalado pelo aparecimento do jornal 57 que dimensionava a problemática da filosofia portuguesa em termos de movimento de intervenção social e cultural. O 57 reivindica uma genealogia espiritual (Aristóteles, a Bíblia, Dante, Conimbricenses, Hegel, Bruno, Leonardo Coimbra...) e congrega jovens pensadores todos eles, cada um a seu modo, destinados a uma presença consistente. Mencionando apenas os discípulos [de Álvaro Ribeiro ou José Marinho] da primeira geração, entre eles (...) António Telmo (filologia e simbologia) (...). O 57 tem um vector polemizante: quer suscitar o debate das ideias, e este debate provocará algum radicalismo, mas sem ele o movimento teria ficado fechado em si mesmo. (...).
É interessante referir que este jornal se insere num movimento de cultura portuguesa, cujos mentores e impulsionadores foram Álvaro Ribeiro, José Marinho, António Quadros, Afonso Botelho e Orlando Vitorino. Vejamos um pequeno excerto do «Manifesto de 57» publicado no seu primeiro número:
Nós somos solidários desses milhares de jovens indiferentes à cultura, que enchem os estádios, os cinemas e os cafés. Nós somos solidários dos que viraram as costas a esses brilhantes aparatos racionais e abstractos, os sistemas metafísicos; que viraram as costas às grandes promessas utópicas, brilhantes na sua argumentação falaciosa e desligadas das condições humanas e naturais quando não trans-naturais da realidade; que viraram as costas ao fogo de artifício lírico; que viraram as costas a todos os dogmatismos, contrários à simples prova de reflexão individual e buscando coarctá-la na sua liberdade interior; que viraram as costas a todas as formas da mentira, mesmo quando esta se reveste das aliciantes da beleza ou do bem comum.
Não nos podemos esquecer de que quando este «Manifesto» é escrito estamos em pleno Estado Novo e concerteza não seria fácil a qualquer movimento de libertação - cultural, filosófico, ou outro – transmitir e fazer valer a sua mensagem de "ruptura"...
Afinal toda a busca do Homem em geral e neste caso concreto, em particular, a busca de António Telmo, penso ser a da VERDADE. Agora: como procurar essa Verdade? como a descobrir e a desocultar? e como saber se a Verdade que encontrámos é a VERDADE que pensamos adivinhar no Arquétipo? Lembro-me continuamente aquela deliciosa história narrada por Almada Negreiros sobre a Verdade, escrito em 1921:
Eu tinha chegado tarde à escola. O mestre quis, por força, saber porquê. E eu tive que dizer: Mestre! quando saí de casa tomei um carro para vir mais depressa, mas, por infelicidade, diante do carro caiu um cavalo com um ataque que durou muito tempo.
O mestre zangou-se comigo: Não minta! diga a verdade!
E eu tive de dizer: Mestre! quando saí de casa... minha mãe tinha um irmão no estrangeiro e, por infelicidade, morreu ontem de repente e nós ficámos de luto carregado.
O mestre ainda se zangou mais comigo: Não minta! diga a verdade !!
E eu tive de dizer: Mestre! quando saí de casa... estava a pensar no irmão de minha mãe que está no estrangeiro há tantos anos, sem escrever. Ora isto ainda é pior do que se ele tivesse morrido de repente porque nós não sabemos se estamos de luto carregado ou não.
Então o mestre perdeu a cabeça comigo: Não minta, ouviu? Diga a verdade, já lho disse!
Fiquei muito tempo calado. De repente, não sei o que me passou pela cabeça que acreditei que o mestre queria efectivamente que lhe dissesse a verdade. E, criança como eu era, pus todo o peso do corpo em cima das pontas dos pés, e com o coração à solta confessei a verdade: Mestre! antes de chegar à Escola há uma casa que vende bonecas. Na montra estava uma boneca vestida de cor-de-rosa! Mestre! a boneca estava vestida de cor-de-rosa! A boneca tinha a pele de cera. Como as meninas! A boneca tinha tranças caídas. Como as meninas! A boneca tinha os dedos finos. Como as meninas! Mestre! A boneca tinha os dedos finos...(4)
A uma pergunta feita pela jornalista Antónia de Sousa(5): Qual a génese das ideias? Como nascem as ideias? Responde António Telmo muito simplesmente: «As ideias são comunicadas pelos anjos! Só que há quem as pense e quem as não pense. O pensamento é que é nosso.»
Já Agostinho da Silva se "queixava" que uns lhe chamavam heterodoxo, outros lhe chamavam ortodoxo, contudo o que ele realmente reivindicava era o estatuto de ser paradoxo, de viver no paradoxo...
Atentemos mais uma vez ao pensamento de António Telmo, desta feita através de uma entrevista à jornalista Antónia de Sousa:
(...).
António Telmo faz uma afirmação surpreendente: «Eu acho que os meus livros sabem mais do que eu. Muitas vezes, ao ler alguma coisa que escrevi, fico surpreendido perante o anúncio de um conhecimento e de uma sabedoria que eu não possuo e que tenho que aprofundar como qualquer outro leitor.»
Telmo não nos diz como é isso possível. Mas afirma-nos: «O Universo não é racionalista, nós é que o devemos ser. Aquilo porque me esforço sempre nos meus escritos é por pensar o irracional. Tornar racional o irracional. Na minha opinião, isto é o que me caracteriza e me distingue e julgo também que é o que suscita o interesse das pessoas. É uma vivência pessoal, mas é também o esforço de não perder a razão perante aquele mundo misterioso. Estou convencido de que toda a gente tem a experiência deste irracional, mas resolvem os conflitos de vários modos, Ou negando esse irracional, ficando preso aos limites de uma razão estreita, ou aceitando esse irracional e perdendo a razão.» Há porém, outra alternativa que é, segundo diz, a de «construir o Todo Completo, que é a verdadeira imagem do Real». E acrescenta: «No fundo, é por onde eu ando.»
(...).(6)
Penso ser isso que António Telmo realiza através da sua obra: trabalhar o paradoxo, trabalhar nos limiares da língua, do pensamento, das ideias, fornecendo-nos de certo modo a chave para entrarmos noutra dimensão que não a dimensão meramente analítica, normalizada, feita a esquadro. Desafia-nos a dar um passo em frente, a pegar no compasso e desta vez sair da rectilinearidade para nos embrenharmos numa circularidade de uma compreensão e de um pensamento mais abarcante, mais totalizante – «construir o Todo Completo, que é a verdadeira imagem do Real... no fundo é por onde eu ando.»(7)
Finalmente, gostaria de mais uma vez agradecer a António Telmo o facto de ter feito o favor de reencarnar nesta época, dando-nos o privilégio de com ele convivermos, conversarmos e partilharmos estas coisas tão extraordinárias que são as palavras e os pensamentos, complicadas in extremis por esta tramada idiossincrasia portuguesa.
Rui Arimateia
NOTAS:
1) Lello & Irmão Editores, Porto, 1976. Referência no Capítulo III –"Conceito de razão e formas da filosofia", na página 218.
2) R.A. Schwaller de Lubicz – PROPOS SUR ÉSOTÉRISME ET SYMBOLE, Col. 'Mystiques & Religions, Dervy-Livres, Paris, 1989 (págs. 9,11 e 12).
3) Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1987, página 109, artigo sobre a 'Filosofia Portuguesa'.
4) José de Almada Negreiros – POESIA, Col. 'Obras Completas', n.º4, Editorial Estampa, Lisboa, 1971 (pág. 179).
5) "DN magazine", 25 de Agosto de 1991, pág. 27.
6) Entrevista a Antónia de Sousa in "DN magazine", n.º 256, de 25 de Agosto de 1991 (pág.27).
7) Idem
quarta-feira, 25 de agosto de 2010
domingo, 2 de maio de 2010
SOBRE A RELIGIOSIDADE NO ALENTEJO
O livro de J. A. David de Morais RELIGIOSIDADE POPULAR NO ALENTEJO, das Edições Colibri, foi apresentado no Forum Cultural Municipal de Alandroal no passado dia 1 de Maio com a presença do Senhor Presidente da Câmara Municipal, Dr. João Grilo; da Senhora Vice-Presidente da Câmara, Dr.ª Fátima Ferreira; do Autor do livro, o Prof. Doutor João David de Morais; e do Editor, o Dr. Fernando Mão de Ferro.
O mesmo livro foi apresentado igualmente na Biblioteca Pública de Évora, no dia 26 de Maio de 2010, com a presença do autor, do Director da Biblioteca, Dr. José António Calixto e do Editor, Dr. Fernando Mão-de-Ferro. O texto foi acrescentado e melhorado em relação à primeira sessão.
Foi uma honra enorme e uma ainda maior responsabilidade ter aceite o convite do Professor Doutor João David Morais, e permita-me acrescentar, amigo de longa data e atrevo-me a até a dizer, companheiro nestas lides de estudar e tentar compreender o Alentejo e os Alentejanos, inseridos nesta terra lúcida que penso ser ainda Portugal.
O convite para realizar a leitura do livro RELIGIOSIDADE POPULAR NO ALENTEJO – A FESTA DA SANTA CRUZ DA ALDEIA DA VENDA E A SUA DIALÉCTICA COM O SAGRADO e tentar uma sua aproximação e apresentação para um conjunto diversificado de espectadores não foi e não é tarefa fácil, contudo aceitei o desafio, tal como o Senhor Professor João David Morais há mais de três dezenas de anos aceitou o desafio de enveredar pela pesquisa desta problemática da Festa da Santa Cruz e finalmente, decidir-se pela publicação do seu trabalho e das suas reflexões.
Quanto ao Autor, apresento uma rápida fotografia: Médico, Professor Universitário, Investigador, produziu ao longo da sua carreira significativa bibliografia não só sobre temas ligados à sua área profissional, de que é reconhecido nacional e internacionalmente e convidado para seminários, mestrados e conferências…
Possui no seu curriculum a publicação de mais de uma centena de trabalhos científicos e de divulgação – ligados principalmente às áreas da Ecologia Humana e da Antropologia Aplicada, mas passando também pela História, pela Sociologia, Psicologia e Psicanálise. Estes trabalhos científicos referidos são dedicados sobretudo às gentes que habitam o Alentejo. Cito, a título de exemplo e porque são obras que ainda não se encontram esgotadas nas livrarias: “A Transumância de Gados Serranos e o Alentejo”, editado pela Câmara Municipal de Évora, em 1998; “Senhores e Servas – Um estudo de Antropologia Social no Alentejo da primeira metade do século XX”, pelas Edições Afrontamento, em 2003; “Ditos e Apodos Colectivos – Estudo de Antropologia Social no Distrito de Évora”, das Edições Colibri, em 2006.
Quanto ao livro que nos reúne hoje aqui, “Religiosidade Popular no Alentejo”, editado também pelas Edições Colibri, começo por dizer que não é um livro fácil, pelo facto do Prof. João David Morais não se ficar tão só pela descrição etnográfica da Festa da Santa Cruz da Aldeia da Venda. O rigor e o espírito científico aplicados na realização desta obra levaram o Autor a exigir de si próprio uma metodologia multidisciplinar para a compreensão da Festa em si e para nos dar a conhecer a complexidade deste evento religioso que nos legaram as gerações anteriores à nossa.
As grandes temáticas abordadas pelo Autor são, no fundo, o Alentejo e a Religião Popular.
No Alentejo a perspectiva sempre presente, quando abordamos etnologicamente ou antropologicamente estas problemáticas, é a da relação do homem alentejano com a terra. Mais concretamente do homem que habita e labuta arduamente este território e organiza esta Festa da Santa Cruz do Alentejo Profundo…como o Prof. João David Morais a certo ponto começa a designar a Aldeia da Venda e toda esta região do interior do Alentejo Central, encostada à raia espanhola.
No início do seu trabalho, apresenta informação preciosa sobre a relação dos alentejanos com o Sagrado, desde a Pré-História, passando pela Romanização, pela Idade Média até à contemporaneidade dos nossos dias.
Num estudo por mim efectuado em 1992 “A Festa de São Marcos e a Religiosidade Popular”, e publicado na revista “Ibn Marúan”, N.º 2, de Marvão, a certa altura refiro que: “Nos primórdios do Cristianismo a maioria das comunidades subsistia através da Agricultura, consequentemente foi encontrado um Deus que se interessasse pela fertilidade da terra e dos animais, servindo, em última análise, o próprio homem…
O Papa Gregório I, no século VII, reconhecendo esta maneira de sentir das populações rurais e aldeãs, instruiu o clero no sentido de, se se encontrasse entre aquelas populações simples, crenças pagãs profundamente enraizadas as quais não pudessem ser eliminadas facilmente, as transformassem em práticas cristãs:
“…e como eles têm um costume que consiste em sacrificar muitos bois ao Diabo, substituam-no por qualquer outra solenidade, como um dia de Consagração ou dos Festivais dos santos mártires… Nessas ocasiões podem construir abrigos de ramos para si próprios à volta das igrejas que dantes foram templos, e celebrar a solenidade com festividades devotas. Não devem sacrificar mais animais ao Diabo, mas podem matá-los para comer em louvor de Deus, e agradecer ao que concede todas as dádivas a abundância de quem gozam.”
Esta Festa poderá perfeitamente ser actualmente a reminiscência de outras Festa ancestrais e situadas temporalmente para além da memória dos homens e das mulheres dos nossos dias.
Contudo, ao Autor não interessa tanto o estudo da relação do homem com Deus, mas sim do homem com o Sagrado, com o Mistério, sendo referido na Introdução, e passo a citar:
«Ora, o Sagrado (o Mistério, o Transcendente, o Além, o Absoluto, o Ultra-Terreno, o Sobre-Humano, etc.) é algo constitutivo do psiquismo humano, daí a sua perenidade – pelo menos enquanto a espécie humana subsistir. (…). O Homo sapiens gerou-se no líquido primacial do Sagrado e, não o tendo o Cosmos dotado de um “manual de instruções teológicas”, cada povo elaborou as suas representações próprias de Deus (ou de deuses).»
Os Mistérios desta Festa da Santa Cruz da Aldeia da Venda estão relacionados com o Mistério dos Martírios do Senhor, é uma festa de celebração imbuída simultaneamente com o espírito da Quaresma e da Primavera… E é uma festa que conseguiu sobreviver com uma frescura e com uma mensagem impolutas, por enquanto, das folclorizações globalizantes que outras regiões e outras festas do género sofreram ao longo dos últimos anos. O facto de nos encontrarmos no interior do Alentejo poderá ter ajudado a esta impermeabilização de influências exteriores desestruturadoras da mensagem inicial.
Assim, a própria Festa da Santa Cruz insere-se na construção e na valorização, ao longo de tempos imemoriais, de uma Identidade Cultural mais alargada que é a do Alentejo e a do homem alentejano.
Esta temática da Identidade Cultural, pela sua própria natureza, é complexa, e por isso mesmo extraordinariamente rica em hipóteses de abordagem e de intervenção.
No nosso caso, a Identidade Cultural prende-se fundamentalmente com o “ser alentejano”, pois que é caracterizada essencialmente pela língua, pelas tradições, pelos costumes, por toda uma idiossincrasia que só damos pela sua existência quando nos afastamos fisicamente da terra de origem…
Se o Património Cultural se pode caracterizar fisicamente, a Identidade Cultural pertence mais ao domínio do imaterial, do psicológico e do espiritual, que nasce da relação profunda e inefável entre o Homem e a Terra. É importante reflectir em conceitos tais como: Pátria/Mátria, Religião (na perspectiva etimológica de re-ligare) e Mitologia (os mitos de origem, o eterno presente, a Saudade, a Mãe, a Terra, a Tellus-Mater).
De facto, a Identidade Cultural não possui existência física palpável. Poderão identificar-se pontes culturais e vivenciais comuns, de comportamento de “estar” e de “ser”, entre indivíduos que vivem a mesma terra, os mesmos ritmos e por vezes os mesmos ritos. É importante considerarmos os Ritos/Ritmos humanos na construção harmoniosa de um viver em comum.
Alguns daqueles “pontos em comum” que tradicionalmente nos auxiliam a ver o alentejano enquanto alentejano – a cal, os grandes espaços, o silêncio, o cante colectivo, a contemplação e a solidão do homem perante a Natureza; os gestos e as linguagens seculares das Artes e dos Ofícios… e neste caso concreto, os gestos e as linguagens, imbuídos de mistério, da Religião Popular e das Festas Cíclicas Religiosas que teimam ainda em continuar a enriquecer cultural e espiritualmente o Alentejo.
Contudo, temos consciência de que o Alentejo já não é só isso!... O que caracteriza o Alentejo e o “ser alentejano” transformou-se hoje num conceito muito mais alargado, muito mais rico, devido fundamentalmente à sociedade aberta em que vivemos, que estamos ainda a aprender a construir, nomeadamente após o 25 de Abril de 1974.
Constatemos, por outro lado as “situações-problema” que negativamente poderão contribuir para a destruição da Identidade Cultural de uma dada População: excessiva mecanização/ automatização do trabalho, nomeadamente nos trabalhos da terra, o excesso de televisão/comunicação, o consumismo exagerado, toda uma deseducação da sensibilidade através de uma reprodução de saberes e de gostos e de gestos monolíticos e que provocam em última análise uma estranha e perigosa obesidade mental…
Tudo isto vai acabar por formatar negativamente as mentalidades dos homens e das mulheres que, de modo passivo e inconsciente se vão a pouco e pouco entregando sem resistência…e vão esquecendo os gestos e a poesia e o cante que ainda estão presentes e são o suporte anímico da sua comunidade identitária de vizinhos.
Assim, os ritos e os mitos, transmitidos através dos gestos e das palavras, das mensagens vivenciais que a tradição, a identidade, o sentimento colectivo, o legado da família, etc., estão em risco de já não lhe compreendermos o seu sentido mais profundo… tal como os versos do Cântico à Ordem das Oliveiras vai sendo cada vez mais encurtado e cada vez menos compreendido pelas cantadoras, correndo o risco de se perder, a partir de certa altura, o seu significado mais íntimo, mais essencial e tornando-se necessariamente a dramatização menos sentida e mais superficial.
Não queria deixar de referir os diferentes enfoques pelos quais o Prof. João David de Morais nos convida na abordagem a esta problemática.
Desde o enfoque etnográfico, com as recolhas efectuadas na Aldeia da Venda e no Concelho de Alandroal e não só, sobre esta Festa ou festas semelhantes.
O enfoque antropológico que lhe vai permitir uma interpretação e uma sistematização dos materiais, das fichas elaboradas durante mais de trinta anos.
Complementarmente, vai auxiliar-se de outros instrumentos, outras disciplinas científicas que lhe permitem aprofundar ainda mais as manifestações culturais e religiosas estudadas, que foram a Psicologia e a Psicanálise, através de autores como Mélanie Klein, Sigmund Freud e Georges Devereux.
Finalmente gostaria de referir a obra científica de um outro autor, transversal a todo o estudo agora apresentado, que é Mircea Eliade, o grande erudito da História das Religiões.
Todo este conjunto de autores, vão apetrechar por sua vez David Morais, por um lado a compreender a problemática estudada, por outro a ficar habilitado a recusar o assim denominado pseudocientifismo de alguns autores modernos, principalmente no que concerne ao estudo da figura de Santa Maria Madalena, nomeadamente quando a figura e a sua problemática é popularizada nos recentes livros de Dan Brown, nomeadamente no best-seller de “O Código da Vinci”, que aborda vários aspectos de eventual relacionamento entre Jesus e Maria Madalena e a existência de um tenebroso “Priorado do Sião”… livro este repleto de falsos documentos e de inverdades históricas…
De realçar a Bibliografia citada no final do livro e consultada pelo Autor, que poderá auxiliar para quem deseje aprofundar as temáticas, num conjunto de cerca de quatrocentos títulos.
Festa, simbologia, iniciação, catarse, rito de passagem, mito, rito, mistérios, religião, drama, mulher, cântico, Cristo, Maria Madalena, Madanela, Mordoma, Mestra, Cruz e Santa Cruz, Sudário, prata, ouro, lágrimas e risos, Sol e Lua… são algumas palavras-chave para nos ajudarem a compreender e a desmontar toda a complexa trama deste Cântico à Ordem das Oliveiras! Festa esta que tem o poder de re-sacralizar o espaço onde é ciclicamente organizada e dramatizada.
Poderemos abordá-la, e o Prof. David Morais o sugere, por duas vias.
A primeira tentando olhar de frente e compreender qual o papel do “psiquismo humano” na construção deste fenómeno religioso. Estamos no fundo a propor um método de autoconhecimento do próprio homem enquanto inventor do rito. Perceber qual o papel do indivíduo na construção e na manutenção do mundo que o rodeia.
Como diziam os antigos “Eu sou o que sou”…
A outra via é a tentativa de compreensão do próprio indivíduo perante o Cosmos, aqui representado pelo Sagrado, pelo Mistério. Só poderá ser adivinhado, sentido e nunca encarado directamente.
Mistério e Verdade - a mesma problemática!?
Nos nossos tempos modernos, da escrita e do registo, existe abundante literatura sobre a Iniciação e as iniciações... muita investigação e muito “faz de conta” sobre o assunto, dos mais sérios, desde que o homem iniciou a transmissão de experiências e de vivências da Religião [re-ligação] e as sussurrava de boca a ouvido, para que as mesmas, ou não se perdessem ou não caíssem em mentes e corações menos puros porque ávidos de poder e de ter e indiferentes ao sofrimento e ao bem estar de outrem.
A Iniciação é a porta de entrada, é o limiar para um novo mundo e uma nova experiência de vida, contudo desconhecida…
Recordemos Victor Hugo quando afirma que:
«É no interior de nós próprios que é preciso olhar o exterior. O profundo espelho sombrio encontra-se dentro do homem. É lá que está o claro-escuro terrível... [sem sombra] Ao debruçar-nos sobre este poço, nós aí apercebemos a uma distância abismal, num círculo estreito, o mundo imenso...».
Desde tempos imemoriais que os Antigos Mistérios, detentores da Sageza das Idades, têm tido como fim último da sua Demanda, a cabal compreensão da Verdade. Contudo, esta parece ser inatingível, para o homem comum, o qual, para ultrapassar a frustração de incapacidade que lhe (a)parece inata, vem transformando e espartilhando o que julga entender por Verdade em miríades de dogmas, de leis, de convenções, de teorias, que o ajudam a dominar a Realidade e a Vida... segundo os seus próprios juízos e critérios.
Sempre o homem comum olha para o exterior de si próprio quando quer compreender qualquer mistério vital, sempre ele tem julgado que aquela Verdade intransponível e inacessível se encontra encerrada algures, em algum país longínquo, em algum livro dito sagrado, em qualquer local ou pessoa investida de autoridade. Porém, e fazendo jus ao aforismo antigo que reza: «Não me procuraríeis se não me tivésseis encontrado já...», resta-nos a possibilidade de (re)encontrar algo, e esse algo estará encerrado no nosso próprio corpo, nos nossos genes, no nosso Ser... ou, se quiserem, mais misticamente dito, oculto no nosso Coração...
Por outro lado, o investigador moderno da Sabedoria Sagrada e dos Mistérios do Antigo Egipto, Schwaller de Lubickz numa das suas obras refere que «não é preciso imaginar nada: é preciso calar... e escutar... É preciso olhar no silêncio, sem querer ver e aceitar o Nada, porque ao que o homem denomina por “nada” isso é a Realidade».
Voltando à problemática da Festa da Santa Cruz na Aldeia da Venda:
No fundo, só conseguimos olhar o fenómeno e nunca chegar à Causa que o produziu. Tal como Maria Madalena chegou até Jesus, mas terá chegado até Cristo?
Porque a personagem Cristo foi criada a partir da dramatização Crucificação / Ressurreição. O homem Jesus transmutou-se no Cristo Cósmico, intangível para os restantes humanos pois que quando Madalena O reconhece Ele lhe estende a mão e diz “Noli me tangere!”…”Não me toques!”…
Jesus é o homem físico, Cristo o paradigma espiritual e salvífico…
A relação entre uma perspectiva micro, a do homem e a sua pequenez, e uma outra perspectiva macro, a do Cosmos e da imensidão, está continuamente em jogo, num dinamismo umas vezes tão evidente mas outras completamente oculta.
Referem alguns autores, e refiro de memória, que a origem etimológica da palavra “sagrado”, de origem semita, SCR, quererá dizer “reprodução”… No fundo a procura do sagrado por parte do ser humano ao longo de milénios de existência e de evolução é a tentativa de sobrevivência física (pelo menos) num mundo que à partida lhe é adverso e que tem tentado dominar.
Reflectindo, a ritualização de um mito, de uma parábola, de um episódio genésico dos nossos antepassados, significará por um lado a sacralização cíclica de um espaço e de um tempo para, de seguida se criar as condições de continuidade física e espiritual da própria comunidade, regularizando as relações entre os seus membros e provocando uma coesão do próprio grupo.
As dicotomias Sol / Lua, homem / mulher, terra / céu… são relações que apontam para este jogo de contrários mas que, fazendo jus à máxima de Hermes Trismegistos, no seu texto “A Tábua de Esmeralda”, percebemos a mensagem que tem sido transmitida pelos Sages, pelos Mestres e Mestras ao longo de eras:
«É verdadeiro, completo e certo. O que está embaixo é como o que está em cima e o que está em cima é igual ao que está embaixo, para realizar os milagres de uma única coisa.
Ao mesmo tempo, as coisas foram e vieram do Um, desse modo as coisas nasceram dessa coisa única por adopção.
O Sol é o pai, a Lua a mãe, o vento o embalou em seu ventre, a Terra é sua ama; o Telesma do Mundo está aqui. (…).»
Nos passados dias 7 e 8 de Maio de 2010 os habitantes da Aldeia da Venda representaram mais uma vez o drama da Madanela e da Santa Cruz no Horto das Oliveiras…Faço votos para que não deixem cair o testemunho desta tradição e que continuem a praticá-la e a vivê-la para regozijo dos muitos forasteiros que lá se deslocaram nesse dia a fim de beberem aquela tradição, fazendo com que as suas vidas quotidianas ficassem mais ricas e com mais sentido após terem assistido e participado num rito acontecido num espaço sagrado.
O centro do mundo naquele dia terá sido de facto o largo da Aldeia da Venda.
Rui Arimateia
Biblioteca Pública de Évora
26 de Maio de 2010
O mesmo livro foi apresentado igualmente na Biblioteca Pública de Évora, no dia 26 de Maio de 2010, com a presença do autor, do Director da Biblioteca, Dr. José António Calixto e do Editor, Dr. Fernando Mão-de-Ferro. O texto foi acrescentado e melhorado em relação à primeira sessão.
Foi uma honra enorme e uma ainda maior responsabilidade ter aceite o convite do Professor Doutor João David Morais, e permita-me acrescentar, amigo de longa data e atrevo-me a até a dizer, companheiro nestas lides de estudar e tentar compreender o Alentejo e os Alentejanos, inseridos nesta terra lúcida que penso ser ainda Portugal.
O convite para realizar a leitura do livro RELIGIOSIDADE POPULAR NO ALENTEJO – A FESTA DA SANTA CRUZ DA ALDEIA DA VENDA E A SUA DIALÉCTICA COM O SAGRADO e tentar uma sua aproximação e apresentação para um conjunto diversificado de espectadores não foi e não é tarefa fácil, contudo aceitei o desafio, tal como o Senhor Professor João David Morais há mais de três dezenas de anos aceitou o desafio de enveredar pela pesquisa desta problemática da Festa da Santa Cruz e finalmente, decidir-se pela publicação do seu trabalho e das suas reflexões.
Quanto ao Autor, apresento uma rápida fotografia: Médico, Professor Universitário, Investigador, produziu ao longo da sua carreira significativa bibliografia não só sobre temas ligados à sua área profissional, de que é reconhecido nacional e internacionalmente e convidado para seminários, mestrados e conferências…
Possui no seu curriculum a publicação de mais de uma centena de trabalhos científicos e de divulgação – ligados principalmente às áreas da Ecologia Humana e da Antropologia Aplicada, mas passando também pela História, pela Sociologia, Psicologia e Psicanálise. Estes trabalhos científicos referidos são dedicados sobretudo às gentes que habitam o Alentejo. Cito, a título de exemplo e porque são obras que ainda não se encontram esgotadas nas livrarias: “A Transumância de Gados Serranos e o Alentejo”, editado pela Câmara Municipal de Évora, em 1998; “Senhores e Servas – Um estudo de Antropologia Social no Alentejo da primeira metade do século XX”, pelas Edições Afrontamento, em 2003; “Ditos e Apodos Colectivos – Estudo de Antropologia Social no Distrito de Évora”, das Edições Colibri, em 2006.
Quanto ao livro que nos reúne hoje aqui, “Religiosidade Popular no Alentejo”, editado também pelas Edições Colibri, começo por dizer que não é um livro fácil, pelo facto do Prof. João David Morais não se ficar tão só pela descrição etnográfica da Festa da Santa Cruz da Aldeia da Venda. O rigor e o espírito científico aplicados na realização desta obra levaram o Autor a exigir de si próprio uma metodologia multidisciplinar para a compreensão da Festa em si e para nos dar a conhecer a complexidade deste evento religioso que nos legaram as gerações anteriores à nossa.
As grandes temáticas abordadas pelo Autor são, no fundo, o Alentejo e a Religião Popular.
No Alentejo a perspectiva sempre presente, quando abordamos etnologicamente ou antropologicamente estas problemáticas, é a da relação do homem alentejano com a terra. Mais concretamente do homem que habita e labuta arduamente este território e organiza esta Festa da Santa Cruz do Alentejo Profundo…como o Prof. João David Morais a certo ponto começa a designar a Aldeia da Venda e toda esta região do interior do Alentejo Central, encostada à raia espanhola.
No início do seu trabalho, apresenta informação preciosa sobre a relação dos alentejanos com o Sagrado, desde a Pré-História, passando pela Romanização, pela Idade Média até à contemporaneidade dos nossos dias.
Num estudo por mim efectuado em 1992 “A Festa de São Marcos e a Religiosidade Popular”, e publicado na revista “Ibn Marúan”, N.º 2, de Marvão, a certa altura refiro que: “Nos primórdios do Cristianismo a maioria das comunidades subsistia através da Agricultura, consequentemente foi encontrado um Deus que se interessasse pela fertilidade da terra e dos animais, servindo, em última análise, o próprio homem…
O Papa Gregório I, no século VII, reconhecendo esta maneira de sentir das populações rurais e aldeãs, instruiu o clero no sentido de, se se encontrasse entre aquelas populações simples, crenças pagãs profundamente enraizadas as quais não pudessem ser eliminadas facilmente, as transformassem em práticas cristãs:
“…e como eles têm um costume que consiste em sacrificar muitos bois ao Diabo, substituam-no por qualquer outra solenidade, como um dia de Consagração ou dos Festivais dos santos mártires… Nessas ocasiões podem construir abrigos de ramos para si próprios à volta das igrejas que dantes foram templos, e celebrar a solenidade com festividades devotas. Não devem sacrificar mais animais ao Diabo, mas podem matá-los para comer em louvor de Deus, e agradecer ao que concede todas as dádivas a abundância de quem gozam.”
Esta Festa poderá perfeitamente ser actualmente a reminiscência de outras Festa ancestrais e situadas temporalmente para além da memória dos homens e das mulheres dos nossos dias.
Contudo, ao Autor não interessa tanto o estudo da relação do homem com Deus, mas sim do homem com o Sagrado, com o Mistério, sendo referido na Introdução, e passo a citar:
«Ora, o Sagrado (o Mistério, o Transcendente, o Além, o Absoluto, o Ultra-Terreno, o Sobre-Humano, etc.) é algo constitutivo do psiquismo humano, daí a sua perenidade – pelo menos enquanto a espécie humana subsistir. (…). O Homo sapiens gerou-se no líquido primacial do Sagrado e, não o tendo o Cosmos dotado de um “manual de instruções teológicas”, cada povo elaborou as suas representações próprias de Deus (ou de deuses).»
Os Mistérios desta Festa da Santa Cruz da Aldeia da Venda estão relacionados com o Mistério dos Martírios do Senhor, é uma festa de celebração imbuída simultaneamente com o espírito da Quaresma e da Primavera… E é uma festa que conseguiu sobreviver com uma frescura e com uma mensagem impolutas, por enquanto, das folclorizações globalizantes que outras regiões e outras festas do género sofreram ao longo dos últimos anos. O facto de nos encontrarmos no interior do Alentejo poderá ter ajudado a esta impermeabilização de influências exteriores desestruturadoras da mensagem inicial.
Assim, a própria Festa da Santa Cruz insere-se na construção e na valorização, ao longo de tempos imemoriais, de uma Identidade Cultural mais alargada que é a do Alentejo e a do homem alentejano.
Esta temática da Identidade Cultural, pela sua própria natureza, é complexa, e por isso mesmo extraordinariamente rica em hipóteses de abordagem e de intervenção.
No nosso caso, a Identidade Cultural prende-se fundamentalmente com o “ser alentejano”, pois que é caracterizada essencialmente pela língua, pelas tradições, pelos costumes, por toda uma idiossincrasia que só damos pela sua existência quando nos afastamos fisicamente da terra de origem…
Se o Património Cultural se pode caracterizar fisicamente, a Identidade Cultural pertence mais ao domínio do imaterial, do psicológico e do espiritual, que nasce da relação profunda e inefável entre o Homem e a Terra. É importante reflectir em conceitos tais como: Pátria/Mátria, Religião (na perspectiva etimológica de re-ligare) e Mitologia (os mitos de origem, o eterno presente, a Saudade, a Mãe, a Terra, a Tellus-Mater).
De facto, a Identidade Cultural não possui existência física palpável. Poderão identificar-se pontes culturais e vivenciais comuns, de comportamento de “estar” e de “ser”, entre indivíduos que vivem a mesma terra, os mesmos ritmos e por vezes os mesmos ritos. É importante considerarmos os Ritos/Ritmos humanos na construção harmoniosa de um viver em comum.
Alguns daqueles “pontos em comum” que tradicionalmente nos auxiliam a ver o alentejano enquanto alentejano – a cal, os grandes espaços, o silêncio, o cante colectivo, a contemplação e a solidão do homem perante a Natureza; os gestos e as linguagens seculares das Artes e dos Ofícios… e neste caso concreto, os gestos e as linguagens, imbuídos de mistério, da Religião Popular e das Festas Cíclicas Religiosas que teimam ainda em continuar a enriquecer cultural e espiritualmente o Alentejo.
Contudo, temos consciência de que o Alentejo já não é só isso!... O que caracteriza o Alentejo e o “ser alentejano” transformou-se hoje num conceito muito mais alargado, muito mais rico, devido fundamentalmente à sociedade aberta em que vivemos, que estamos ainda a aprender a construir, nomeadamente após o 25 de Abril de 1974.
Constatemos, por outro lado as “situações-problema” que negativamente poderão contribuir para a destruição da Identidade Cultural de uma dada População: excessiva mecanização/ automatização do trabalho, nomeadamente nos trabalhos da terra, o excesso de televisão/comunicação, o consumismo exagerado, toda uma deseducação da sensibilidade através de uma reprodução de saberes e de gostos e de gestos monolíticos e que provocam em última análise uma estranha e perigosa obesidade mental…
Tudo isto vai acabar por formatar negativamente as mentalidades dos homens e das mulheres que, de modo passivo e inconsciente se vão a pouco e pouco entregando sem resistência…e vão esquecendo os gestos e a poesia e o cante que ainda estão presentes e são o suporte anímico da sua comunidade identitária de vizinhos.
Assim, os ritos e os mitos, transmitidos através dos gestos e das palavras, das mensagens vivenciais que a tradição, a identidade, o sentimento colectivo, o legado da família, etc., estão em risco de já não lhe compreendermos o seu sentido mais profundo… tal como os versos do Cântico à Ordem das Oliveiras vai sendo cada vez mais encurtado e cada vez menos compreendido pelas cantadoras, correndo o risco de se perder, a partir de certa altura, o seu significado mais íntimo, mais essencial e tornando-se necessariamente a dramatização menos sentida e mais superficial.
Não queria deixar de referir os diferentes enfoques pelos quais o Prof. João David de Morais nos convida na abordagem a esta problemática.
Desde o enfoque etnográfico, com as recolhas efectuadas na Aldeia da Venda e no Concelho de Alandroal e não só, sobre esta Festa ou festas semelhantes.
O enfoque antropológico que lhe vai permitir uma interpretação e uma sistematização dos materiais, das fichas elaboradas durante mais de trinta anos.
Complementarmente, vai auxiliar-se de outros instrumentos, outras disciplinas científicas que lhe permitem aprofundar ainda mais as manifestações culturais e religiosas estudadas, que foram a Psicologia e a Psicanálise, através de autores como Mélanie Klein, Sigmund Freud e Georges Devereux.
Finalmente gostaria de referir a obra científica de um outro autor, transversal a todo o estudo agora apresentado, que é Mircea Eliade, o grande erudito da História das Religiões.
Todo este conjunto de autores, vão apetrechar por sua vez David Morais, por um lado a compreender a problemática estudada, por outro a ficar habilitado a recusar o assim denominado pseudocientifismo de alguns autores modernos, principalmente no que concerne ao estudo da figura de Santa Maria Madalena, nomeadamente quando a figura e a sua problemática é popularizada nos recentes livros de Dan Brown, nomeadamente no best-seller de “O Código da Vinci”, que aborda vários aspectos de eventual relacionamento entre Jesus e Maria Madalena e a existência de um tenebroso “Priorado do Sião”… livro este repleto de falsos documentos e de inverdades históricas…
De realçar a Bibliografia citada no final do livro e consultada pelo Autor, que poderá auxiliar para quem deseje aprofundar as temáticas, num conjunto de cerca de quatrocentos títulos.
Festa, simbologia, iniciação, catarse, rito de passagem, mito, rito, mistérios, religião, drama, mulher, cântico, Cristo, Maria Madalena, Madanela, Mordoma, Mestra, Cruz e Santa Cruz, Sudário, prata, ouro, lágrimas e risos, Sol e Lua… são algumas palavras-chave para nos ajudarem a compreender e a desmontar toda a complexa trama deste Cântico à Ordem das Oliveiras! Festa esta que tem o poder de re-sacralizar o espaço onde é ciclicamente organizada e dramatizada.
Poderemos abordá-la, e o Prof. David Morais o sugere, por duas vias.
A primeira tentando olhar de frente e compreender qual o papel do “psiquismo humano” na construção deste fenómeno religioso. Estamos no fundo a propor um método de autoconhecimento do próprio homem enquanto inventor do rito. Perceber qual o papel do indivíduo na construção e na manutenção do mundo que o rodeia.
Como diziam os antigos “Eu sou o que sou”…
A outra via é a tentativa de compreensão do próprio indivíduo perante o Cosmos, aqui representado pelo Sagrado, pelo Mistério. Só poderá ser adivinhado, sentido e nunca encarado directamente.
Mistério e Verdade - a mesma problemática!?
Nos nossos tempos modernos, da escrita e do registo, existe abundante literatura sobre a Iniciação e as iniciações... muita investigação e muito “faz de conta” sobre o assunto, dos mais sérios, desde que o homem iniciou a transmissão de experiências e de vivências da Religião [re-ligação] e as sussurrava de boca a ouvido, para que as mesmas, ou não se perdessem ou não caíssem em mentes e corações menos puros porque ávidos de poder e de ter e indiferentes ao sofrimento e ao bem estar de outrem.
A Iniciação é a porta de entrada, é o limiar para um novo mundo e uma nova experiência de vida, contudo desconhecida…
Recordemos Victor Hugo quando afirma que:
«É no interior de nós próprios que é preciso olhar o exterior. O profundo espelho sombrio encontra-se dentro do homem. É lá que está o claro-escuro terrível... [sem sombra] Ao debruçar-nos sobre este poço, nós aí apercebemos a uma distância abismal, num círculo estreito, o mundo imenso...».
Desde tempos imemoriais que os Antigos Mistérios, detentores da Sageza das Idades, têm tido como fim último da sua Demanda, a cabal compreensão da Verdade. Contudo, esta parece ser inatingível, para o homem comum, o qual, para ultrapassar a frustração de incapacidade que lhe (a)parece inata, vem transformando e espartilhando o que julga entender por Verdade em miríades de dogmas, de leis, de convenções, de teorias, que o ajudam a dominar a Realidade e a Vida... segundo os seus próprios juízos e critérios.
Sempre o homem comum olha para o exterior de si próprio quando quer compreender qualquer mistério vital, sempre ele tem julgado que aquela Verdade intransponível e inacessível se encontra encerrada algures, em algum país longínquo, em algum livro dito sagrado, em qualquer local ou pessoa investida de autoridade. Porém, e fazendo jus ao aforismo antigo que reza: «Não me procuraríeis se não me tivésseis encontrado já...», resta-nos a possibilidade de (re)encontrar algo, e esse algo estará encerrado no nosso próprio corpo, nos nossos genes, no nosso Ser... ou, se quiserem, mais misticamente dito, oculto no nosso Coração...
Por outro lado, o investigador moderno da Sabedoria Sagrada e dos Mistérios do Antigo Egipto, Schwaller de Lubickz numa das suas obras refere que «não é preciso imaginar nada: é preciso calar... e escutar... É preciso olhar no silêncio, sem querer ver e aceitar o Nada, porque ao que o homem denomina por “nada” isso é a Realidade».
Voltando à problemática da Festa da Santa Cruz na Aldeia da Venda:
No fundo, só conseguimos olhar o fenómeno e nunca chegar à Causa que o produziu. Tal como Maria Madalena chegou até Jesus, mas terá chegado até Cristo?
Porque a personagem Cristo foi criada a partir da dramatização Crucificação / Ressurreição. O homem Jesus transmutou-se no Cristo Cósmico, intangível para os restantes humanos pois que quando Madalena O reconhece Ele lhe estende a mão e diz “Noli me tangere!”…”Não me toques!”…
Jesus é o homem físico, Cristo o paradigma espiritual e salvífico…
A relação entre uma perspectiva micro, a do homem e a sua pequenez, e uma outra perspectiva macro, a do Cosmos e da imensidão, está continuamente em jogo, num dinamismo umas vezes tão evidente mas outras completamente oculta.
Referem alguns autores, e refiro de memória, que a origem etimológica da palavra “sagrado”, de origem semita, SCR, quererá dizer “reprodução”… No fundo a procura do sagrado por parte do ser humano ao longo de milénios de existência e de evolução é a tentativa de sobrevivência física (pelo menos) num mundo que à partida lhe é adverso e que tem tentado dominar.
Reflectindo, a ritualização de um mito, de uma parábola, de um episódio genésico dos nossos antepassados, significará por um lado a sacralização cíclica de um espaço e de um tempo para, de seguida se criar as condições de continuidade física e espiritual da própria comunidade, regularizando as relações entre os seus membros e provocando uma coesão do próprio grupo.
As dicotomias Sol / Lua, homem / mulher, terra / céu… são relações que apontam para este jogo de contrários mas que, fazendo jus à máxima de Hermes Trismegistos, no seu texto “A Tábua de Esmeralda”, percebemos a mensagem que tem sido transmitida pelos Sages, pelos Mestres e Mestras ao longo de eras:
«É verdadeiro, completo e certo. O que está embaixo é como o que está em cima e o que está em cima é igual ao que está embaixo, para realizar os milagres de uma única coisa.
Ao mesmo tempo, as coisas foram e vieram do Um, desse modo as coisas nasceram dessa coisa única por adopção.
O Sol é o pai, a Lua a mãe, o vento o embalou em seu ventre, a Terra é sua ama; o Telesma do Mundo está aqui. (…).»
Nos passados dias 7 e 8 de Maio de 2010 os habitantes da Aldeia da Venda representaram mais uma vez o drama da Madanela e da Santa Cruz no Horto das Oliveiras…Faço votos para que não deixem cair o testemunho desta tradição e que continuem a praticá-la e a vivê-la para regozijo dos muitos forasteiros que lá se deslocaram nesse dia a fim de beberem aquela tradição, fazendo com que as suas vidas quotidianas ficassem mais ricas e com mais sentido após terem assistido e participado num rito acontecido num espaço sagrado.
O centro do mundo naquele dia terá sido de facto o largo da Aldeia da Venda.
Rui Arimateia
Biblioteca Pública de Évora
26 de Maio de 2010
domingo, 25 de abril de 2010
É TEMPO DE REFORÇAR OS VALORES DO 25 DE ABRIL
Ontem viveram-se na Praça do Giraldo, como tem vindo a ser um hábito saudável desde há muitos anos, as Comemorações do 25 de Abril.
Já lá vão 36 anos!... Curioso o número teosófico daqui resultante... o zero! A mensagem que nos chegou da Associação 25 de Abril para isso nos alerta - o de voltar a fazer um 25 de Abril, é preciso um novo 25 de Abril! Sem chaimites e sem espingardas mas, num esforço conjunto de reforço e simultaneamente de mudança de valores que de facto não têm sido suficientemente vividos e defendidos por aqueles que possuem os instrumenos legais e institucionais para o fazer! É tempo de todos os que acreditam na autenticidade de valores como justiça, como solidariedade, como democracia, gritarem alto, tal como aconteceu no tempo dos alvores da República: Liberdade! Igualdade! Fraternidade!
ASSOCIAÇÃO 25 DE ABRIL
MENSAGEM
Cada ano que passa, renova-se o ritual de lembrar o Portugal de antes de Abril, a luta contra a ditadura, a libertação e os dias de esperança e de construção de um país novo.
Fazemo-lo, orgulhosos da luta desenvolvida contra os opressores, da acção libertadora que essa luta proporcionou e das jornadas cívicas, onde todos participaram activamente.
Fazemo-lo também no ano em que se evocam os cem anos da implantação da República. Lembrando que o 25 de Abril fez renascer os valores republicanos, que havia 48 anos estavam amordaçados.
E, num tempo em que parecem vacilar os valores republicanos do serviço público desinteressado, do culto do bem comum e da escrupulosa gestão dos valores patrimoniais comuns, no momento em que muitos inimigos da República, da Liberdade, da Justiça Social e do 25 de Abril se aproveitam das fraquezas dos maus republicanos para as darem como inerentes e contaminadoras do próprio ideal democrático, há que afirmar orgulhosamente os princípios por que se bateram os combatentes da Rotunda, dizendo que o 25 de Abril de 1974 prolongou e aprofundou o 5 de Outubro de 1910, a bem de Portugal e dos Portugueses.
Mas passados 36 anos, olhando a situação a que se chegou, impõe-se perguntar “Se foi para isto que se fez o 25 de Abril?”
É uma questão que se coloca muitas vezes, juntamente com a de “Valeu a pena?”, acrescida da afirmação “É preciso fazer outro 25 de Abril!”
Perante o ponto a que se chegou, confessamos ser difícil responder a essas questões.
Os sentimentos são contraditórios, parecem impossíveis de conviver entre si.
Isto porque por um lado, foi para isto que se fez o 25 de Abril!
Sim, porque foi para terminar com a ditadura que se fez o 25 de Abril! E, em consequência, a democracia aí está, possibilitando a todos e a cada um que, usando a liberdade conquistada, participe na escolha dos seus diversos dirigentes.
Sim, porque foi para terminar com a guerra que se fez o 25 de Abril! E a guerra terminou, ajudando ao nascimento de novos países, que, com muitas dificuldades é certo, vêm caminhando, fazendo o seu próprio caminho de países independentes, construindo a sua própria história.
Sim, porque foi para terminar o isolamento internacional em que Portugal vivia que se fez o 25 de Abril. E aí estamos nós, inseridos na União Europeia, com relações amigáveis com todos os países do mundo!
De facto tudo isto é verdade, mesmo que tenhamos de concordar que a Democracia tem enormes defeitos, não sendo perfeita só porque ainda não se conhece sistema menos mau. Sendo que o maior deles é permitir que se continue a assumir estar-se em democracia, quando apenas subsistem alguns dos seus aspectos formais.
Como temos de concordar que a Liberdade sofre demasiadas condicionantes, fruto do poder dos mais poderosos, que encontram sempre fórmula de pressionar os mais desfavorecidos.
Como teremos de reconhecer que, apesar de não estarmos envolvidos directamente em qualquer guerra, nos deixámos levar à participação em guerras alheias, fortemente injustas e condenáveis, dando cobertura a acções de agressão a povos com os quais devíamos ser solidários.
Mas, apesar de todas estas insuficiências da nossa democracia, continuamos a considerar que valeu a pena!
A Liberdade, a Democracia e a Paz são valores sem preço, pelos quais vale a pena lutar e tudo arriscar!
Por outro lado, o 25 de Abril também foi feito para alcançar a Justiça Social, nas suas várias vertentes!
O 25 de Abril também foi feito para terminar com as enormes desigualdades de que a sociedade portuguesa padecia, também foi feito para fazer com que as classes mais desfavorecidas passassem a ser menos desfavorecidas.
E também foi feito para se construir uma sociedade mais justa, mais igualitária, mais democrática.
E, perante a situação que atingimos, perante a situação que vivemos, há que dizer clara e inequivocamente que “não foi para isto que se fez o 25 de Abril!”
Não foi para cavar um fosso cada vez maior entre os mais ricos e os mais pobres, com situações aberrantes, onde o leque salarial atinge valores de várias centenas, que se fez o 25 de Abril!
Não foi para aumentar a distorção da distribuição do rendimento do trabalho, onde o capital vem abocanhando cada vez mais uma parte de leão, que se fez o 25 de Abril!
Não foi para criar gritantes e escandalosas anomalias na distribuição da parte que cabe aos trabalhadores, que se fez o 25 de Abril!
Como é possível que, enquanto o trabalhador médio português ganha pouco mais de metade do que se ganha na Zona Euro, o gestor português suplante os valores ganhos pelos homónimos americanos, franceses, finlandeses, suecos e outros.
Não foi para isto que se fez o 25 de Abril!
Como também não foi para criar uma sociedade corrupta, de total impunidade e compadrio, que se fez o 25 de Abril!
Não foi para ver os máximos dirigentes do país desacreditados e sem autoridade moral, para pedirem sacrifícios à generalidade da população, que se fez o 25 de Abril!
Como foi possível termos chegado a isto?
Como é possível ter-se enfrentado a crise, de forma a que os únicos que ganharam com isso tenham sido os próprios responsáveis por ela? O facto é que, passado o susto, salvos pelo dinheiro dos contribuintes, refinaram os seus métodos, aumentaram os seus privilégios e aí estão, prontos a continuar a exploração de todos, em benefício pessoal! Nada aprenderam com o susto, mantêm uma inconcebível falta de regras éticas e continuam a levar-nos para o abismo.
E, enquanto os gestores continuam a receber vencimentos milionários, os banqueiros a ver aumentados os rendimentos do passado, o desemprego continua a aumentar, os trabalhadores precários são cada vez mais, os pobres aumentam em número absoluto e relativo e as desigualdades sociais são cada vez maiores. A maioria da população vê o seu cinto cada vez mais apertado e não vislumbra uma réstia de luz, ao fundo do túnel!
Como foi possível permitir o enfraquecimento e a ineficiência do Estado, prisioneiro dos pequenos e grandes grupos de interesses que campeiam no país? Grupos que conseguiram transformar partidos políticos em agentes desses mesmos interesses particulares? Assim se chegando a uma situação de degradação inaceitável do Estado, por via da sua subordinação a interesses avulsos e ilegítimos.
Temos de ser capazes de romper essa tenebrosa teia de interesses. A vida colectiva dos Portugueses não pode continuar à mercê de um permanente e sistemático entorpecimento do funcionamento da Justiça!
Temos de ser capazes de acabar com o nexo directo entre o não funcionamento dos serviços judiciários, a corrupção e a fraude! Só assim acabaremos com o clima de mal-estar que se instalou na nossa sociedade – o maldizer, o derrotismo, o pessimismo!
Temos de ser capazes de acabar com a impunidade dos responsáveis, por mais arbitrariedades e erros que cometam!
Sim, não foi para isto que se fez o 25 de Abril!
Por isso, como responsáveis maiores do acto libertador de 1974, aqui deixamos o nosso grito de revolta: Não estamos arrependidos, continuamos a considerar que, apesar de tudo, valeu a pena, mas chegou a altura de, também nós, gritarmos que é necessário um outro 25 de Abril!
Mas um 25 de Abril com outras armas!
Não com as G3 e as Chaimites, pois não vivemos em ditadura, mas com as armas que a Democracia nos faculta!
A nossa acção cívica tem de conseguir parar a degradação da nossa sociedade, tem de conseguir devolver-nos a esperança de um novo país, com justiça e solidariedade. Um país mais livre, democrático, justo e fraterno.
E isso só será possível se, todos e cada um, nos imbuirmos do espírito de Abril, se impusermos os seus valores a quem nos dirige. Usando os instrumentos que a Democracia nos fornece, não tendo medo de assumir uma atitude cívica, em defesa e na luta pelos nossos valores, pelos nossos ideais.
Vamos voltar a dizer não! Vamos vencer o medo, não esperando que outros resolvam os problemas! É preciso voltar a avisar toda a gente!
É difícil? Certamente, mas Abril não foi nada fácil. Acreditem que, apesar de ter parecido fácil, porque tudo correu bem, não foi nada fácil.
A responsabilidade na construção de um Portugal verdadeiramente democrático é de todos nós, sem excepção.
Acreditemos todos que é novamente possível!
Viva o 25 de Abril
Viva Portugal
Abril de 2010
Já lá vão 36 anos!... Curioso o número teosófico daqui resultante... o zero! A mensagem que nos chegou da Associação 25 de Abril para isso nos alerta - o de voltar a fazer um 25 de Abril, é preciso um novo 25 de Abril! Sem chaimites e sem espingardas mas, num esforço conjunto de reforço e simultaneamente de mudança de valores que de facto não têm sido suficientemente vividos e defendidos por aqueles que possuem os instrumenos legais e institucionais para o fazer! É tempo de todos os que acreditam na autenticidade de valores como justiça, como solidariedade, como democracia, gritarem alto, tal como aconteceu no tempo dos alvores da República: Liberdade! Igualdade! Fraternidade!
ASSOCIAÇÃO 25 DE ABRIL
MENSAGEM
Cada ano que passa, renova-se o ritual de lembrar o Portugal de antes de Abril, a luta contra a ditadura, a libertação e os dias de esperança e de construção de um país novo.
Fazemo-lo, orgulhosos da luta desenvolvida contra os opressores, da acção libertadora que essa luta proporcionou e das jornadas cívicas, onde todos participaram activamente.
Fazemo-lo também no ano em que se evocam os cem anos da implantação da República. Lembrando que o 25 de Abril fez renascer os valores republicanos, que havia 48 anos estavam amordaçados.
E, num tempo em que parecem vacilar os valores republicanos do serviço público desinteressado, do culto do bem comum e da escrupulosa gestão dos valores patrimoniais comuns, no momento em que muitos inimigos da República, da Liberdade, da Justiça Social e do 25 de Abril se aproveitam das fraquezas dos maus republicanos para as darem como inerentes e contaminadoras do próprio ideal democrático, há que afirmar orgulhosamente os princípios por que se bateram os combatentes da Rotunda, dizendo que o 25 de Abril de 1974 prolongou e aprofundou o 5 de Outubro de 1910, a bem de Portugal e dos Portugueses.
Mas passados 36 anos, olhando a situação a que se chegou, impõe-se perguntar “Se foi para isto que se fez o 25 de Abril?”
É uma questão que se coloca muitas vezes, juntamente com a de “Valeu a pena?”, acrescida da afirmação “É preciso fazer outro 25 de Abril!”
Perante o ponto a que se chegou, confessamos ser difícil responder a essas questões.
Os sentimentos são contraditórios, parecem impossíveis de conviver entre si.
Isto porque por um lado, foi para isto que se fez o 25 de Abril!
Sim, porque foi para terminar com a ditadura que se fez o 25 de Abril! E, em consequência, a democracia aí está, possibilitando a todos e a cada um que, usando a liberdade conquistada, participe na escolha dos seus diversos dirigentes.
Sim, porque foi para terminar com a guerra que se fez o 25 de Abril! E a guerra terminou, ajudando ao nascimento de novos países, que, com muitas dificuldades é certo, vêm caminhando, fazendo o seu próprio caminho de países independentes, construindo a sua própria história.
Sim, porque foi para terminar o isolamento internacional em que Portugal vivia que se fez o 25 de Abril. E aí estamos nós, inseridos na União Europeia, com relações amigáveis com todos os países do mundo!
De facto tudo isto é verdade, mesmo que tenhamos de concordar que a Democracia tem enormes defeitos, não sendo perfeita só porque ainda não se conhece sistema menos mau. Sendo que o maior deles é permitir que se continue a assumir estar-se em democracia, quando apenas subsistem alguns dos seus aspectos formais.
Como temos de concordar que a Liberdade sofre demasiadas condicionantes, fruto do poder dos mais poderosos, que encontram sempre fórmula de pressionar os mais desfavorecidos.
Como teremos de reconhecer que, apesar de não estarmos envolvidos directamente em qualquer guerra, nos deixámos levar à participação em guerras alheias, fortemente injustas e condenáveis, dando cobertura a acções de agressão a povos com os quais devíamos ser solidários.
Mas, apesar de todas estas insuficiências da nossa democracia, continuamos a considerar que valeu a pena!
A Liberdade, a Democracia e a Paz são valores sem preço, pelos quais vale a pena lutar e tudo arriscar!
Por outro lado, o 25 de Abril também foi feito para alcançar a Justiça Social, nas suas várias vertentes!
O 25 de Abril também foi feito para terminar com as enormes desigualdades de que a sociedade portuguesa padecia, também foi feito para fazer com que as classes mais desfavorecidas passassem a ser menos desfavorecidas.
E também foi feito para se construir uma sociedade mais justa, mais igualitária, mais democrática.
E, perante a situação que atingimos, perante a situação que vivemos, há que dizer clara e inequivocamente que “não foi para isto que se fez o 25 de Abril!”
Não foi para cavar um fosso cada vez maior entre os mais ricos e os mais pobres, com situações aberrantes, onde o leque salarial atinge valores de várias centenas, que se fez o 25 de Abril!
Não foi para aumentar a distorção da distribuição do rendimento do trabalho, onde o capital vem abocanhando cada vez mais uma parte de leão, que se fez o 25 de Abril!
Não foi para criar gritantes e escandalosas anomalias na distribuição da parte que cabe aos trabalhadores, que se fez o 25 de Abril!
Como é possível que, enquanto o trabalhador médio português ganha pouco mais de metade do que se ganha na Zona Euro, o gestor português suplante os valores ganhos pelos homónimos americanos, franceses, finlandeses, suecos e outros.
Não foi para isto que se fez o 25 de Abril!
Como também não foi para criar uma sociedade corrupta, de total impunidade e compadrio, que se fez o 25 de Abril!
Não foi para ver os máximos dirigentes do país desacreditados e sem autoridade moral, para pedirem sacrifícios à generalidade da população, que se fez o 25 de Abril!
Como foi possível termos chegado a isto?
Como é possível ter-se enfrentado a crise, de forma a que os únicos que ganharam com isso tenham sido os próprios responsáveis por ela? O facto é que, passado o susto, salvos pelo dinheiro dos contribuintes, refinaram os seus métodos, aumentaram os seus privilégios e aí estão, prontos a continuar a exploração de todos, em benefício pessoal! Nada aprenderam com o susto, mantêm uma inconcebível falta de regras éticas e continuam a levar-nos para o abismo.
E, enquanto os gestores continuam a receber vencimentos milionários, os banqueiros a ver aumentados os rendimentos do passado, o desemprego continua a aumentar, os trabalhadores precários são cada vez mais, os pobres aumentam em número absoluto e relativo e as desigualdades sociais são cada vez maiores. A maioria da população vê o seu cinto cada vez mais apertado e não vislumbra uma réstia de luz, ao fundo do túnel!
Como foi possível permitir o enfraquecimento e a ineficiência do Estado, prisioneiro dos pequenos e grandes grupos de interesses que campeiam no país? Grupos que conseguiram transformar partidos políticos em agentes desses mesmos interesses particulares? Assim se chegando a uma situação de degradação inaceitável do Estado, por via da sua subordinação a interesses avulsos e ilegítimos.
Temos de ser capazes de romper essa tenebrosa teia de interesses. A vida colectiva dos Portugueses não pode continuar à mercê de um permanente e sistemático entorpecimento do funcionamento da Justiça!
Temos de ser capazes de acabar com o nexo directo entre o não funcionamento dos serviços judiciários, a corrupção e a fraude! Só assim acabaremos com o clima de mal-estar que se instalou na nossa sociedade – o maldizer, o derrotismo, o pessimismo!
Temos de ser capazes de acabar com a impunidade dos responsáveis, por mais arbitrariedades e erros que cometam!
Sim, não foi para isto que se fez o 25 de Abril!
Por isso, como responsáveis maiores do acto libertador de 1974, aqui deixamos o nosso grito de revolta: Não estamos arrependidos, continuamos a considerar que, apesar de tudo, valeu a pena, mas chegou a altura de, também nós, gritarmos que é necessário um outro 25 de Abril!
Mas um 25 de Abril com outras armas!
Não com as G3 e as Chaimites, pois não vivemos em ditadura, mas com as armas que a Democracia nos faculta!
A nossa acção cívica tem de conseguir parar a degradação da nossa sociedade, tem de conseguir devolver-nos a esperança de um novo país, com justiça e solidariedade. Um país mais livre, democrático, justo e fraterno.
E isso só será possível se, todos e cada um, nos imbuirmos do espírito de Abril, se impusermos os seus valores a quem nos dirige. Usando os instrumentos que a Democracia nos fornece, não tendo medo de assumir uma atitude cívica, em defesa e na luta pelos nossos valores, pelos nossos ideais.
Vamos voltar a dizer não! Vamos vencer o medo, não esperando que outros resolvam os problemas! É preciso voltar a avisar toda a gente!
É difícil? Certamente, mas Abril não foi nada fácil. Acreditem que, apesar de ter parecido fácil, porque tudo correu bem, não foi nada fácil.
A responsabilidade na construção de um Portugal verdadeiramente democrático é de todos nós, sem excepção.
Acreditemos todos que é novamente possível!
Viva o 25 de Abril
Viva Portugal
Abril de 2010
quarta-feira, 17 de março de 2010
PORTUGAL TEMPLÁRIO
[Ao José Capêlo]
Em primeiro lugar gostaria de expressar o agradecimento sincero ao José Manuel Capêlo pelo facto de me ter lançado este desafio de apresentar o livro de sua autoria «Portugal Templário», projecto que há já vários anos anda a perseguir. Desafio maior concerteza foi para ele o dar à estampa este livro que, pela complexidade da matéria, adivinhamos uma persistência, um trabalho e uma força de vontade, que poderemos dizer, de verdadeiro Templário. Foi um projecto que sabíamos ele encontrar-se a realizar mas que não o pressentíamos tão cedo e tão completo.
Falar hoje da Ordem do Templo em Portugal é uma aventura arriscada devido à abundância de fontes, de livros e artigos existentes. Contudo José Manuel Capêlo soube ser original, soube ser exaustivo e exigente na matéria trabalhada. Este livro servirá de referência obrigatória a quem quiser trabalhar e investigar historicamente um pouco mais a Ordem do Templo e o seu desenvolvimento em Portugal.
Apresenta-nos uma cronologia baseada em fontes fidedignas, auxilia-nos a obter uma percepção global da História desta Ordem Militar tendo em conta o próprio desenvolvimento histórico do País e a sua relação com o resto da Europa e do Médio Oriente. É importante esta visão global, já existente no Século XII e levada ao extremo no decorrer dos Séculos XIII e XIV pelo crescimento e desenvolvimento da Ordem do Templo por toda a Cristandade, desde a Alemanha até à Península Ibérica e desde a Grã-Bretanha até aos confins da Terra Santa.
Hoje, devido à imensa literatura mais ou menos fantástica ao nosso dispor em qualquer escaparate das livrarias, falar da Ordem do Templo ou dos Templários, remete-nos para épocas e para realidades mais ou menos fictícias, onde brilha uma vivida auréola de mistério, de lenda e de enigma.
Gostaria de re-lembrar que muitos foram os autores, filósofos e historiadores em Portugal que se debruçaram sobre a realidade Templária. Desde Alexandre Herculano e Abade Correia da Serra a Sampaio Bruno, passando por António Quadros e Agostinho da Silva.
Também Fernando Pessoa foi beber à tradição Templária, utilizando esse saber na sua Poesia e na sua Prosa, como poderemos ler o pequeno trecho retirado “Do Ritual do Grau de Mestre do Átrio na Ordem Templária de Portugal”, que diz: “... E assim vêdes, meu Irmão, que as verdades que vos foram dadas no Grau de Neófito, e aquelas que vos foram dadas no Grau de Adepto Menor, são, ainda que opostas, a mesma verdade.” E segue com o lindíssimo poema de “Eros e Psique”, autêntico conto de fadas, onde muitos crêem ver descrita de forma poética a iniciação à Sabedoria das Idades.
Mais modernamente temos ainda as incontornáveis obras de Manuel J. Gandra e de Paulo Alexandre Loução, sem falar deste título agora disponível que nos oferece José Capêlo.
Não irei focar directamente a obra em questão, pois outros muito mais habilitados do que eu nas andanças da investigação histórica concerteza o farão. Contudo gostaria de abordar a extraordinária actualidade de algumas passagens da “Regra Primitiva da Cavalaria Pobre do Templo”, publicada em 1998 pelo Centro Ernesto Soares de Iconografia e Simbólica, em Mafra, sendo a responsabilidade da tradução do investigador Manuel J. Gandra.
Para analisarmos e tentarmos compreender a prática de um Cavaleiro da Ordem do Templo nada melhor do que estudarmos a Regra pela qual a vida monástica se regia hierarquicamente. Por outro lado teremos de usar com ponderação e bom senso a ferramenta da analogia, assim como o método, atrevo-me eu a chamar, da imaginação criadora.
Quase setecentos anos nos separam da data da extinção da Ordem, assim, que outros utensílios poderemos ter ao nosso dispor para compreendermos e para conseguirmos fazer reviver o espírito templário? Em termos de mentalidade, se arriscarmos a fazer a comparação, somente vislumbraremos um imenso fosso entre nós e aqueles longínquos tempos medievais. Poderemos tentar, isso sim, descobrir um fio condutor que eventualmente tenha acompanhado a evolução dos tempos e das épocas. Pensemos que os Templários talvez tenham sido os primeiros a antever e a tentar a criação de uma Europa Unida... em termos políticos... em termos económicos...em termos culturais...
Gostaria agora de chamar a vossa atenção para duas ou três notas sobre a Regra Primitiva atrás referida.
A vida de um cavaleiro templário era regida por três votos a que consagravam a vida, perante o Mestre, Jesus Cristo: Obediência, Pobreza e Castidade. O Silêncio e a Oração era-lhes caro, durante a sua vida quotidiana, fosse no refeitório, fosse no Capítulo, fosse a cavalgar em direcção ao campo de batalha.
Interessante o que a Regra 26, inserida no Capítulo “Da vida em comunidade” diz:
“Na Sagrada Escritura lê-se: A cada um segundo as suas necessidades. Por isso mandamos que não haja privilegiados, apenas exame das necessidades. O que de menos tiver necessidade dê graças a Deus e não se entristeça pelo que derem ao outro. O que precisar de mais humilhe-se pela sua fraqueza e não se ensoberbeça pela misericórdia que têm para com ele. Desta forma todos os membros viverão em paz. Proibimos a todos a singularidade nas abstinências e mandamos guardem a vida em Comunidade.”
Faço notar a importância da partilha e da não competição de um em relação ao outro, mas sim orientando as suas práticas quotidianas em direcção à ajuda mútua.
Da Regra 27, no capítulo “Dos mantos brancos dos irmãos”, sobressai o facto da cor branca aparecer como símbolo de pureza: “Sede puros porque eu o Sou”, podemos ler em “Levítico”, XIX-2. Contudo, existe subentendido que não só a pureza exterior é importante mas igualmente e principalmente a pureza do carácter do cavaleiro..
Já na Regra 35, “Do comportamento dos irmãos”, refere o texto a dado ponto: “... Como diz Jesus Cristo pela boca de David e é verdade: “Em me ouvindo logo me obedece.”, “Salmos”, XVII-45, numa referência directa ao Voto de Obediência. E mais à frente refere o texto: “Não vim fazer o meu gosto, mas o de quem me mandou.”, referência a S. João, VI-38,39.
Na Regra 55, “Da forma de receber os irmãos”, lemos: “Quando um cavaleiro ou qualquer outro secular quiser deixar o mundo e as suas vaidades e escolher a vida em comunidade no Templo, não se defira logo a sua petição, mas, como diz São Paulo: “Examine-se o espírito, se é de Deus.” [S. João, I Epístola, V-8].
Finalmente uma última referência, à Regra 65, “Das faltas leves”, que diz: “O Mestre, que tem o báculo para sustentar os fracos e a vara para castigar com zelo santo os delitos, não se resolva a castigar senão com o parecer do Patriarca e havendo-se encomendado a Deus...”.
Ao escolher este conjunto de Regras, cujo total é de 76, estou a fazer uma escolha, uma opção, estou a enquadrar-me dentro de uma mentalidade místico-religiosa que tão grata foi aos Templários. Interessa-me neste momento muito menos o seu aspecto de conquista e de guerra exterior na defesa dos caminhos da Terra Santa e do Santo Sepulcro, mas sim o seu aspecto de conquista e de evolução espiritual interior, através da imitação de Cristo, fazendo jus à sua divisa: “Non nobis, Domine, sed nomini tuo da gloriam”.
Ser Templário naquela altura, e ainda hoje – e partindo da hipótese que hoje em dia haverá ainda uma Ordem Templária autêntica, isto é, justificada pela Sucessão Apostólica de iniciações que remontem pelo menos à altura em que o último Mestre Templário instruiu e iniciou continuadores – era e é viver para o serviço da Humanidade. O Templário – e a partir daqui con-fundo propositadamente os Templários dos Séculos XII-XIV com a possibilidade do homem de hoje poder encarnar aquela responsabilidade e aquele compromisso, não obstante as diferenças de mentalidades – é um peregrino que vive para tornar o mundo melhor, dedicando-se totalmente à reparação do errado, protegendo o fraco e suprimindo o mal onde quer que se depare com ele. Contudo é-nos avisado constantemente, de forma velada ou desvelada: “Somente os puros têm sucesso”... os impuros não são verdadeiros Cavaleiros. Competirá a cada um de nós, no seu interior, saber o que é puro e o que é impuro, partindo do princípio de que poderemos todos nós ser Cavaleiros. A actividade exterior terá de ser a expressão da pureza interior.
Por isso a Cruz aparece no Caminho.
A Cruz simbolizará a purificação da própria natureza do Cavaleiro. Aponta em direcção ao sacrifício total, da entrega do eu ao não-eu, do ser ao não ser. Pelo sacrifício e pela purificação, o campo tornou-se preparado para a sementeira, só então poderá acontecer o desabrochar, o florescer.
Vários conceitos considero serem importantes para a compreensão da Ordem do Templo e que importa reflectir. Serão eles eventualmente susceptíveis de serem postos em prática nos dias de hoje, tal como o foram há séculos atrás:
1. o conceito de Comunidade, de entre-ajuda, em redor de um objectivo comum: o da reconstrução do Templo de Salomão;
2. o conceito de Iniciação [aos Mistérios] tendo em conta a já referida Sucessão Apostólica, nomeadamente da Igreja de João;
3. o conceito da Demanda e da Peregrinação, em que a busca do Santo Graal e a construção de uma rede estabelecendo ligações perenes entre os múltiplos Espíritos do Lugar, isto é, na reconstrução, por todas as zonas de influência da Ordem, de réplicas do Templo de Salomão, por exemplo: Charola do Convento de Cristo em Tomar ou, mais perto de nós, a Ermida de Santa Catarina de Monsaraz.
A Ordem do Templo, guardiã dos Caminhos e Lugares Santos, foi um anel na imensa corrente conciliadora do passado e do futuro. A Palestina, primeiro espaço em que se movimentou, constituía o pólo místico, ou charneira ideal entre dois mundos: o Oriental e o Ocidental. A sua missão visava a constituição de um Templo digno da Divindade: o mundo interior, condição dos homens livres e virtuosos, que se simbolizava pela imagem do templo de Salomão.
Para compreendermos a filosofia Templária ligada aos aspectos da iniciação e da regeneração humana, tenhamos em conta que:
1. “Não se é iniciado pelos outros; iniciamo-nos nós mesmos”.
2. “O iniciado está só ou, mais exactamente, é único, pois nenhum homem evolui em lugar de outro.”
A partir deste momento da minha reflexão, parto do princípio hipotético, mas não menos real, de que cada um de nós é um potencial cavaleiro Templário, isto é, está dentro das nossas possibilidades enquanto seres humanos de assumirmos os desafios, a procura, as batalhas travadas e a travar, com o objectivo de melhorar, fazer evoluir espiritualmente a Humanidade como um Todo Indivisível.
A Busca, no fundo, está em nós, o Caminho passa realmente pela nossa auto-compreensão. Desde os tempos imemoriais da História do Homem, em que este conseguiu, por direito, ter acesso ao Castelo do Graal. Aqui, onde brilha a Lanterna da Intuição poder-se-á completar a Aventura da Demanda quando, ao beber-se do Cálix Sagrado, a transmutação espiritual acontecerá e o homem-em-demanda, finalmente, se transformará, se transmutará, em Homem-Crístico, o Senhor Universal da Compaixão. Então, o microcosmos e o Macrocosmos voltam a identificar-se conscientemente, então, como o afirmou o Poeta, o homem
“Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.”
Mas, quando se inicia a Busca? Poderemos nós decidir conscientemente do início da Demanda? Poderemos nós querer iniciar o Caminho? Haverá métodos de procura? Haverá Iniciação porque tão só queremos ser iniciados? Contudo, sempre coube ao Cavaleiro ousar conquistar e dominar o Mundo...
Questões importantíssimas colocam-se-nos, tanto mais importantes quanto nós sabermos e estarmos conscientes da ilusão que nos domina a todos os níveis – físico, psicológico, espiritual...
É necessário sentir e viver o apelo interior, mais profundo, e para além de quaisquer definições ou justificações que possamos apontar aquando do seu aparecimento. Afinal as nossas mais autênticas aspirações são a conquista da felicidade, a compreensão global da Verdade, o conseguirmos vivenciar o Deus-em-nós, dependendo muito da idiossincrasia de cada um e do seu projecto de Vida, a qualidade do apelo e do impulso sentido, buscado e vivido.
A Via ou Busca Espiritual é a total disponibilidade, é a faculdade mais profunda do Ser que se predispõe a efectuar a recepção de energias espirituais no próprio momento em que se implementa e se desenvolve o estado de dádiva absoluta, inclusive da própria vida... tal como H. P. Blavatsky na sua obra “A Voz do Silêncio”: “Renuncia à vida se queres viver.”
A Busca começa em nós. O Deus tão procurado, tão aspirado, reside em nós. Como é afirmado no Chandogya Upanishad[1] (III-14): “Este Atman que reside no coração, é menor que um grão de arroz, menor que um grão de cevada, menor que um grão de alpista; este Atman, que reside no coração, é ao mesmo tempo, maior que a Terra, maior que a atmosfera, maior que o céu, maior que todos os mundos reunidos.”
Gostaria ainda de citar Paracelso que disse numa das suas obras: “Trazemos em nós o centro da natureza.”
Cada um de nós é realmente um centro que efectua a ligação do Céu à Terra, mais ou menos conscientemente, com mais ou menos intensidade, mas em contínua evolução, em permanente busca, onde impera o sofrimento ou a felicidade, a paz ou a guerra, o amor ou o ódio, ou então achamo-nos subitamente num estado onde não é possível encontrar quaisquer referências para se compararem os complementares, para se olharem as contradições, para se apontarem os conceitos antagónicos. É através desse estado, que acontece a autêntica percepção da Totalidade, no sentido da autêntica consciencialização da Unidade, da Vida e da Morte. Quando acontece, não a identificação do eu com o Caminho (auto-valorizando-se egoisticamente aquele), mas sim quando transparece uma autêntica Libertação, Transmutação Espiritual, do indivíduo em relação à Lei de Causa e Efeito que rege o desejo de viver. Lei desencadeadora de forças, de espectativas, de tensões, num espaço e num tempo limitados e limitadores em que o Desconhecido, o Atemporal, o Ilimitado e a Demanda (desinteressada dos prazeres comuns do quotidiano) não fazem sentido...
A Busca, a Demanda, autênticas, são Solidão... mas são igualmente estados de União e Comunhão. Ao nível da relação humana e da relação do Homem com o Universo, nos estados de consciência atrás referidos, não existem um sujeito e um objecto separados e isolados um do outro, não existe a separatividade ilusória, mas onde a cada um é conferido (implícita e objectivamente) um Estatuto de Ser e de Ser dotado de Palavra simultaneamente Criadora e Libertadora...
A Lei das Complementaridades e a ilusória Lei das dualidades, mais não são do que a manifestação de uma Unidade Inefável.
Não esqueçamos o famoso selo templário: dois cavaleiros montados num mesmo cavalo... empunhando a Espada, símbolo de acção enobrecedora e transformadora, a sua acção é justificada pela Razão e pelo Coração.
Finalmente termino recordando os Salmos (XXIV-3,4):
“Quem subirá na montanha do Senhor?
Quem há-de permanecer no seu lugar santo?
O que tem as mãos inocentes e o coração puro, o que não dirige os seus desejos à mentira, nem jura com engano.”
R.A. – Évora, 29 de Maio de 2003
[1] Os Upanishads, livros de carácter sagrado que, na Índia, são comentários explicativos dos Vedas.
Em primeiro lugar gostaria de expressar o agradecimento sincero ao José Manuel Capêlo pelo facto de me ter lançado este desafio de apresentar o livro de sua autoria «Portugal Templário», projecto que há já vários anos anda a perseguir. Desafio maior concerteza foi para ele o dar à estampa este livro que, pela complexidade da matéria, adivinhamos uma persistência, um trabalho e uma força de vontade, que poderemos dizer, de verdadeiro Templário. Foi um projecto que sabíamos ele encontrar-se a realizar mas que não o pressentíamos tão cedo e tão completo.
Falar hoje da Ordem do Templo em Portugal é uma aventura arriscada devido à abundância de fontes, de livros e artigos existentes. Contudo José Manuel Capêlo soube ser original, soube ser exaustivo e exigente na matéria trabalhada. Este livro servirá de referência obrigatória a quem quiser trabalhar e investigar historicamente um pouco mais a Ordem do Templo e o seu desenvolvimento em Portugal.
Apresenta-nos uma cronologia baseada em fontes fidedignas, auxilia-nos a obter uma percepção global da História desta Ordem Militar tendo em conta o próprio desenvolvimento histórico do País e a sua relação com o resto da Europa e do Médio Oriente. É importante esta visão global, já existente no Século XII e levada ao extremo no decorrer dos Séculos XIII e XIV pelo crescimento e desenvolvimento da Ordem do Templo por toda a Cristandade, desde a Alemanha até à Península Ibérica e desde a Grã-Bretanha até aos confins da Terra Santa.
Hoje, devido à imensa literatura mais ou menos fantástica ao nosso dispor em qualquer escaparate das livrarias, falar da Ordem do Templo ou dos Templários, remete-nos para épocas e para realidades mais ou menos fictícias, onde brilha uma vivida auréola de mistério, de lenda e de enigma.
Gostaria de re-lembrar que muitos foram os autores, filósofos e historiadores em Portugal que se debruçaram sobre a realidade Templária. Desde Alexandre Herculano e Abade Correia da Serra a Sampaio Bruno, passando por António Quadros e Agostinho da Silva.
Também Fernando Pessoa foi beber à tradição Templária, utilizando esse saber na sua Poesia e na sua Prosa, como poderemos ler o pequeno trecho retirado “Do Ritual do Grau de Mestre do Átrio na Ordem Templária de Portugal”, que diz: “... E assim vêdes, meu Irmão, que as verdades que vos foram dadas no Grau de Neófito, e aquelas que vos foram dadas no Grau de Adepto Menor, são, ainda que opostas, a mesma verdade.” E segue com o lindíssimo poema de “Eros e Psique”, autêntico conto de fadas, onde muitos crêem ver descrita de forma poética a iniciação à Sabedoria das Idades.
Mais modernamente temos ainda as incontornáveis obras de Manuel J. Gandra e de Paulo Alexandre Loução, sem falar deste título agora disponível que nos oferece José Capêlo.
Não irei focar directamente a obra em questão, pois outros muito mais habilitados do que eu nas andanças da investigação histórica concerteza o farão. Contudo gostaria de abordar a extraordinária actualidade de algumas passagens da “Regra Primitiva da Cavalaria Pobre do Templo”, publicada em 1998 pelo Centro Ernesto Soares de Iconografia e Simbólica, em Mafra, sendo a responsabilidade da tradução do investigador Manuel J. Gandra.
Para analisarmos e tentarmos compreender a prática de um Cavaleiro da Ordem do Templo nada melhor do que estudarmos a Regra pela qual a vida monástica se regia hierarquicamente. Por outro lado teremos de usar com ponderação e bom senso a ferramenta da analogia, assim como o método, atrevo-me eu a chamar, da imaginação criadora.
Quase setecentos anos nos separam da data da extinção da Ordem, assim, que outros utensílios poderemos ter ao nosso dispor para compreendermos e para conseguirmos fazer reviver o espírito templário? Em termos de mentalidade, se arriscarmos a fazer a comparação, somente vislumbraremos um imenso fosso entre nós e aqueles longínquos tempos medievais. Poderemos tentar, isso sim, descobrir um fio condutor que eventualmente tenha acompanhado a evolução dos tempos e das épocas. Pensemos que os Templários talvez tenham sido os primeiros a antever e a tentar a criação de uma Europa Unida... em termos políticos... em termos económicos...em termos culturais...
Gostaria agora de chamar a vossa atenção para duas ou três notas sobre a Regra Primitiva atrás referida.
A vida de um cavaleiro templário era regida por três votos a que consagravam a vida, perante o Mestre, Jesus Cristo: Obediência, Pobreza e Castidade. O Silêncio e a Oração era-lhes caro, durante a sua vida quotidiana, fosse no refeitório, fosse no Capítulo, fosse a cavalgar em direcção ao campo de batalha.
Interessante o que a Regra 26, inserida no Capítulo “Da vida em comunidade” diz:
“Na Sagrada Escritura lê-se: A cada um segundo as suas necessidades. Por isso mandamos que não haja privilegiados, apenas exame das necessidades. O que de menos tiver necessidade dê graças a Deus e não se entristeça pelo que derem ao outro. O que precisar de mais humilhe-se pela sua fraqueza e não se ensoberbeça pela misericórdia que têm para com ele. Desta forma todos os membros viverão em paz. Proibimos a todos a singularidade nas abstinências e mandamos guardem a vida em Comunidade.”
Faço notar a importância da partilha e da não competição de um em relação ao outro, mas sim orientando as suas práticas quotidianas em direcção à ajuda mútua.
Da Regra 27, no capítulo “Dos mantos brancos dos irmãos”, sobressai o facto da cor branca aparecer como símbolo de pureza: “Sede puros porque eu o Sou”, podemos ler em “Levítico”, XIX-2. Contudo, existe subentendido que não só a pureza exterior é importante mas igualmente e principalmente a pureza do carácter do cavaleiro..
Já na Regra 35, “Do comportamento dos irmãos”, refere o texto a dado ponto: “... Como diz Jesus Cristo pela boca de David e é verdade: “Em me ouvindo logo me obedece.”, “Salmos”, XVII-45, numa referência directa ao Voto de Obediência. E mais à frente refere o texto: “Não vim fazer o meu gosto, mas o de quem me mandou.”, referência a S. João, VI-38,39.
Na Regra 55, “Da forma de receber os irmãos”, lemos: “Quando um cavaleiro ou qualquer outro secular quiser deixar o mundo e as suas vaidades e escolher a vida em comunidade no Templo, não se defira logo a sua petição, mas, como diz São Paulo: “Examine-se o espírito, se é de Deus.” [S. João, I Epístola, V-8].
Finalmente uma última referência, à Regra 65, “Das faltas leves”, que diz: “O Mestre, que tem o báculo para sustentar os fracos e a vara para castigar com zelo santo os delitos, não se resolva a castigar senão com o parecer do Patriarca e havendo-se encomendado a Deus...”.
Ao escolher este conjunto de Regras, cujo total é de 76, estou a fazer uma escolha, uma opção, estou a enquadrar-me dentro de uma mentalidade místico-religiosa que tão grata foi aos Templários. Interessa-me neste momento muito menos o seu aspecto de conquista e de guerra exterior na defesa dos caminhos da Terra Santa e do Santo Sepulcro, mas sim o seu aspecto de conquista e de evolução espiritual interior, através da imitação de Cristo, fazendo jus à sua divisa: “Non nobis, Domine, sed nomini tuo da gloriam”.
Ser Templário naquela altura, e ainda hoje – e partindo da hipótese que hoje em dia haverá ainda uma Ordem Templária autêntica, isto é, justificada pela Sucessão Apostólica de iniciações que remontem pelo menos à altura em que o último Mestre Templário instruiu e iniciou continuadores – era e é viver para o serviço da Humanidade. O Templário – e a partir daqui con-fundo propositadamente os Templários dos Séculos XII-XIV com a possibilidade do homem de hoje poder encarnar aquela responsabilidade e aquele compromisso, não obstante as diferenças de mentalidades – é um peregrino que vive para tornar o mundo melhor, dedicando-se totalmente à reparação do errado, protegendo o fraco e suprimindo o mal onde quer que se depare com ele. Contudo é-nos avisado constantemente, de forma velada ou desvelada: “Somente os puros têm sucesso”... os impuros não são verdadeiros Cavaleiros. Competirá a cada um de nós, no seu interior, saber o que é puro e o que é impuro, partindo do princípio de que poderemos todos nós ser Cavaleiros. A actividade exterior terá de ser a expressão da pureza interior.
Por isso a Cruz aparece no Caminho.
A Cruz simbolizará a purificação da própria natureza do Cavaleiro. Aponta em direcção ao sacrifício total, da entrega do eu ao não-eu, do ser ao não ser. Pelo sacrifício e pela purificação, o campo tornou-se preparado para a sementeira, só então poderá acontecer o desabrochar, o florescer.
Vários conceitos considero serem importantes para a compreensão da Ordem do Templo e que importa reflectir. Serão eles eventualmente susceptíveis de serem postos em prática nos dias de hoje, tal como o foram há séculos atrás:
1. o conceito de Comunidade, de entre-ajuda, em redor de um objectivo comum: o da reconstrução do Templo de Salomão;
2. o conceito de Iniciação [aos Mistérios] tendo em conta a já referida Sucessão Apostólica, nomeadamente da Igreja de João;
3. o conceito da Demanda e da Peregrinação, em que a busca do Santo Graal e a construção de uma rede estabelecendo ligações perenes entre os múltiplos Espíritos do Lugar, isto é, na reconstrução, por todas as zonas de influência da Ordem, de réplicas do Templo de Salomão, por exemplo: Charola do Convento de Cristo em Tomar ou, mais perto de nós, a Ermida de Santa Catarina de Monsaraz.
A Ordem do Templo, guardiã dos Caminhos e Lugares Santos, foi um anel na imensa corrente conciliadora do passado e do futuro. A Palestina, primeiro espaço em que se movimentou, constituía o pólo místico, ou charneira ideal entre dois mundos: o Oriental e o Ocidental. A sua missão visava a constituição de um Templo digno da Divindade: o mundo interior, condição dos homens livres e virtuosos, que se simbolizava pela imagem do templo de Salomão.
Para compreendermos a filosofia Templária ligada aos aspectos da iniciação e da regeneração humana, tenhamos em conta que:
1. “Não se é iniciado pelos outros; iniciamo-nos nós mesmos”.
2. “O iniciado está só ou, mais exactamente, é único, pois nenhum homem evolui em lugar de outro.”
A partir deste momento da minha reflexão, parto do princípio hipotético, mas não menos real, de que cada um de nós é um potencial cavaleiro Templário, isto é, está dentro das nossas possibilidades enquanto seres humanos de assumirmos os desafios, a procura, as batalhas travadas e a travar, com o objectivo de melhorar, fazer evoluir espiritualmente a Humanidade como um Todo Indivisível.
A Busca, no fundo, está em nós, o Caminho passa realmente pela nossa auto-compreensão. Desde os tempos imemoriais da História do Homem, em que este conseguiu, por direito, ter acesso ao Castelo do Graal. Aqui, onde brilha a Lanterna da Intuição poder-se-á completar a Aventura da Demanda quando, ao beber-se do Cálix Sagrado, a transmutação espiritual acontecerá e o homem-em-demanda, finalmente, se transformará, se transmutará, em Homem-Crístico, o Senhor Universal da Compaixão. Então, o microcosmos e o Macrocosmos voltam a identificar-se conscientemente, então, como o afirmou o Poeta, o homem
“Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.”
Mas, quando se inicia a Busca? Poderemos nós decidir conscientemente do início da Demanda? Poderemos nós querer iniciar o Caminho? Haverá métodos de procura? Haverá Iniciação porque tão só queremos ser iniciados? Contudo, sempre coube ao Cavaleiro ousar conquistar e dominar o Mundo...
Questões importantíssimas colocam-se-nos, tanto mais importantes quanto nós sabermos e estarmos conscientes da ilusão que nos domina a todos os níveis – físico, psicológico, espiritual...
É necessário sentir e viver o apelo interior, mais profundo, e para além de quaisquer definições ou justificações que possamos apontar aquando do seu aparecimento. Afinal as nossas mais autênticas aspirações são a conquista da felicidade, a compreensão global da Verdade, o conseguirmos vivenciar o Deus-em-nós, dependendo muito da idiossincrasia de cada um e do seu projecto de Vida, a qualidade do apelo e do impulso sentido, buscado e vivido.
A Via ou Busca Espiritual é a total disponibilidade, é a faculdade mais profunda do Ser que se predispõe a efectuar a recepção de energias espirituais no próprio momento em que se implementa e se desenvolve o estado de dádiva absoluta, inclusive da própria vida... tal como H. P. Blavatsky na sua obra “A Voz do Silêncio”: “Renuncia à vida se queres viver.”
A Busca começa em nós. O Deus tão procurado, tão aspirado, reside em nós. Como é afirmado no Chandogya Upanishad[1] (III-14): “Este Atman que reside no coração, é menor que um grão de arroz, menor que um grão de cevada, menor que um grão de alpista; este Atman, que reside no coração, é ao mesmo tempo, maior que a Terra, maior que a atmosfera, maior que o céu, maior que todos os mundos reunidos.”
Gostaria ainda de citar Paracelso que disse numa das suas obras: “Trazemos em nós o centro da natureza.”
Cada um de nós é realmente um centro que efectua a ligação do Céu à Terra, mais ou menos conscientemente, com mais ou menos intensidade, mas em contínua evolução, em permanente busca, onde impera o sofrimento ou a felicidade, a paz ou a guerra, o amor ou o ódio, ou então achamo-nos subitamente num estado onde não é possível encontrar quaisquer referências para se compararem os complementares, para se olharem as contradições, para se apontarem os conceitos antagónicos. É através desse estado, que acontece a autêntica percepção da Totalidade, no sentido da autêntica consciencialização da Unidade, da Vida e da Morte. Quando acontece, não a identificação do eu com o Caminho (auto-valorizando-se egoisticamente aquele), mas sim quando transparece uma autêntica Libertação, Transmutação Espiritual, do indivíduo em relação à Lei de Causa e Efeito que rege o desejo de viver. Lei desencadeadora de forças, de espectativas, de tensões, num espaço e num tempo limitados e limitadores em que o Desconhecido, o Atemporal, o Ilimitado e a Demanda (desinteressada dos prazeres comuns do quotidiano) não fazem sentido...
A Busca, a Demanda, autênticas, são Solidão... mas são igualmente estados de União e Comunhão. Ao nível da relação humana e da relação do Homem com o Universo, nos estados de consciência atrás referidos, não existem um sujeito e um objecto separados e isolados um do outro, não existe a separatividade ilusória, mas onde a cada um é conferido (implícita e objectivamente) um Estatuto de Ser e de Ser dotado de Palavra simultaneamente Criadora e Libertadora...
A Lei das Complementaridades e a ilusória Lei das dualidades, mais não são do que a manifestação de uma Unidade Inefável.
Não esqueçamos o famoso selo templário: dois cavaleiros montados num mesmo cavalo... empunhando a Espada, símbolo de acção enobrecedora e transformadora, a sua acção é justificada pela Razão e pelo Coração.
Finalmente termino recordando os Salmos (XXIV-3,4):
“Quem subirá na montanha do Senhor?
Quem há-de permanecer no seu lugar santo?
O que tem as mãos inocentes e o coração puro, o que não dirige os seus desejos à mentira, nem jura com engano.”
R.A. – Évora, 29 de Maio de 2003
[1] Os Upanishads, livros de carácter sagrado que, na Índia, são comentários explicativos dos Vedas.
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