quarta-feira, 17 de março de 2010

PORTUGAL TEMPLÁRIO

[Ao José Capêlo]

Em primeiro lugar gostaria de expressar o agradecimento sincero ao José Manuel Capêlo pelo facto de me ter lançado este desafio de apresentar o livro de sua autoria «Portugal Templário», projecto que há já vários anos anda a perseguir. Desafio maior concerteza foi para ele o dar à estampa este livro que, pela complexidade da matéria, adivinhamos uma persistência, um trabalho e uma força de vontade, que poderemos dizer, de verdadeiro Templário. Foi um projecto que sabíamos ele encontrar-se a realizar mas que não o pressentíamos tão cedo e tão completo.
Falar hoje da Ordem do Templo em Portugal é uma aventura arriscada devido à abundância de fontes, de livros e artigos existentes. Contudo José Manuel Capêlo soube ser original, soube ser exaustivo e exigente na matéria trabalhada. Este livro servirá de referência obrigatória a quem quiser trabalhar e investigar historicamente um pouco mais a Ordem do Templo e o seu desenvolvimento em Portugal.
Apresenta-nos uma cronologia baseada em fontes fidedignas, auxilia-nos a obter uma percepção global da História desta Ordem Militar tendo em conta o próprio desenvolvimento histórico do País e a sua relação com o resto da Europa e do Médio Oriente. É importante esta visão global, já existente no Século XII e levada ao extremo no decorrer dos Séculos XIII e XIV pelo crescimento e desenvolvimento da Ordem do Templo por toda a Cristandade, desde a Alemanha até à Península Ibérica e desde a Grã-Bretanha até aos confins da Terra Santa.
Hoje, devido à imensa literatura mais ou menos fantástica ao nosso dispor em qualquer escaparate das livrarias, falar da Ordem do Templo ou dos Templários, remete-nos para épocas e para realidades mais ou menos fictícias, onde brilha uma vivida auréola de mistério, de lenda e de enigma.
Gostaria de re-lembrar que muitos foram os autores, filósofos e historiadores em Portugal que se debruçaram sobre a realidade Templária. Desde Alexandre Herculano e Abade Correia da Serra a Sampaio Bruno, passando por António Quadros e Agostinho da Silva.
Também Fernando Pessoa foi beber à tradição Templária, utilizando esse saber na sua Poesia e na sua Prosa, como poderemos ler o pequeno trecho retirado “Do Ritual do Grau de Mestre do Átrio na Ordem Templária de Portugal”, que diz: “... E assim vêdes, meu Irmão, que as verdades que vos foram dadas no Grau de Neófito, e aquelas que vos foram dadas no Grau de Adepto Menor, são, ainda que opostas, a mesma verdade.” E segue com o lindíssimo poema de “Eros e Psique”, autêntico conto de fadas, onde muitos crêem ver descrita de forma poética a iniciação à Sabedoria das Idades.
Mais modernamente temos ainda as incontornáveis obras de Manuel J. Gandra e de Paulo Alexandre Loução, sem falar deste título agora disponível que nos oferece José Capêlo.
Não irei focar directamente a obra em questão, pois outros muito mais habilitados do que eu nas andanças da investigação histórica concerteza o farão. Contudo gostaria de abordar a extraordinária actualidade de algumas passagens da “Regra Primitiva da Cavalaria Pobre do Templo”, publicada em 1998 pelo Centro Ernesto Soares de Iconografia e Simbólica, em Mafra, sendo a responsabilidade da tradução do investigador Manuel J. Gandra.
Para analisarmos e tentarmos compreender a prática de um Cavaleiro da Ordem do Templo nada melhor do que estudarmos a Regra pela qual a vida monástica se regia hierarquicamente. Por outro lado teremos de usar com ponderação e bom senso a ferramenta da analogia, assim como o método, atrevo-me eu a chamar, da imaginação criadora.
Quase setecentos anos nos separam da data da extinção da Ordem, assim, que outros utensílios poderemos ter ao nosso dispor para compreendermos e para conseguirmos fazer reviver o espírito templário? Em termos de mentalidade, se arriscarmos a fazer a comparação, somente vislumbraremos um imenso fosso entre nós e aqueles longínquos tempos medievais. Poderemos tentar, isso sim, descobrir um fio condutor que eventualmente tenha acompanhado a evolução dos tempos e das épocas. Pensemos que os Templários talvez tenham sido os primeiros a antever e a tentar a criação de uma Europa Unida... em termos políticos... em termos económicos...em termos culturais...
Gostaria agora de chamar a vossa atenção para duas ou três notas sobre a Regra Primitiva atrás referida.
A vida de um cavaleiro templário era regida por três votos a que consagravam a vida, perante o Mestre, Jesus Cristo: Obediência, Pobreza e Castidade. O Silêncio e a Oração era-lhes caro, durante a sua vida quotidiana, fosse no refeitório, fosse no Capítulo, fosse a cavalgar em direcção ao campo de batalha.
Interessante o que a Regra 26, inserida no Capítulo “Da vida em comunidade” diz:
“Na Sagrada Escritura lê-se: A cada um segundo as suas necessidades. Por isso mandamos que não haja privilegiados, apenas exame das necessidades. O que de menos tiver necessidade dê graças a Deus e não se entristeça pelo que derem ao outro. O que precisar de mais humilhe-se pela sua fraqueza e não se ensoberbeça pela misericórdia que têm para com ele. Desta forma todos os membros viverão em paz. Proibimos a todos a singularidade nas abstinências e mandamos guardem a vida em Comunidade.”
Faço notar a importância da partilha e da não competição de um em relação ao outro, mas sim orientando as suas práticas quotidianas em direcção à ajuda mútua.
Da Regra 27, no capítulo “Dos mantos brancos dos irmãos”, sobressai o facto da cor branca aparecer como símbolo de pureza: “Sede puros porque eu o Sou”, podemos ler em “Levítico”, XIX-2. Contudo, existe subentendido que não só a pureza exterior é importante mas igualmente e principalmente a pureza do carácter do cavaleiro..
Já na Regra 35, “Do comportamento dos irmãos”, refere o texto a dado ponto: “... Como diz Jesus Cristo pela boca de David e é verdade: “Em me ouvindo logo me obedece.”, “Salmos”, XVII-45, numa referência directa ao Voto de Obediência. E mais à frente refere o texto: “Não vim fazer o meu gosto, mas o de quem me mandou.”, referência a S. João, VI-38,39.
Na Regra 55, “Da forma de receber os irmãos”, lemos: “Quando um cavaleiro ou qualquer outro secular quiser deixar o mundo e as suas vaidades e escolher a vida em comunidade no Templo, não se defira logo a sua petição, mas, como diz São Paulo: “Examine-se o espírito, se é de Deus.” [S. João, I Epístola, V-8].
Finalmente uma última referência, à Regra 65, “Das faltas leves”, que diz: “O Mestre, que tem o báculo para sustentar os fracos e a vara para castigar com zelo santo os delitos, não se resolva a castigar senão com o parecer do Patriarca e havendo-se encomendado a Deus...”.
Ao escolher este conjunto de Regras, cujo total é de 76, estou a fazer uma escolha, uma opção, estou a enquadrar-me dentro de uma mentalidade místico-religiosa que tão grata foi aos Templários. Interessa-me neste momento muito menos o seu aspecto de conquista e de guerra exterior na defesa dos caminhos da Terra Santa e do Santo Sepulcro, mas sim o seu aspecto de conquista e de evolução espiritual interior, através da imitação de Cristo, fazendo jus à sua divisa: “Non nobis, Domine, sed nomini tuo da gloriam”.
Ser Templário naquela altura, e ainda hoje – e partindo da hipótese que hoje em dia haverá ainda uma Ordem Templária autêntica, isto é, justificada pela Sucessão Apostólica de iniciações que remontem pelo menos à altura em que o último Mestre Templário instruiu e iniciou continuadores – era e é viver para o serviço da Humanidade. O Templário – e a partir daqui con-fundo propositadamente os Templários dos Séculos XII-XIV com a possibilidade do homem de hoje poder encarnar aquela responsabilidade e aquele compromisso, não obstante as diferenças de mentalidades – é um peregrino que vive para tornar o mundo melhor, dedicando-se totalmente à reparação do errado, protegendo o fraco e suprimindo o mal onde quer que se depare com ele. Contudo é-nos avisado constantemente, de forma velada ou desvelada: “Somente os puros têm sucesso”... os impuros não são verdadeiros Cavaleiros. Competirá a cada um de nós, no seu interior, saber o que é puro e o que é impuro, partindo do princípio de que poderemos todos nós ser Cavaleiros. A actividade exterior terá de ser a expressão da pureza interior.
Por isso a Cruz aparece no Caminho.
A Cruz simbolizará a purificação da própria natureza do Cavaleiro. Aponta em direcção ao sacrifício total, da entrega do eu ao não-eu, do ser ao não ser. Pelo sacrifício e pela purificação, o campo tornou-se preparado para a sementeira, só então poderá acontecer o desabrochar, o florescer.
Vários conceitos considero serem importantes para a compreensão da Ordem do Templo e que importa reflectir. Serão eles eventualmente susceptíveis de serem postos em prática nos dias de hoje, tal como o foram há séculos atrás:
1. o conceito de Comunidade, de entre-ajuda, em redor de um objectivo comum: o da reconstrução do Templo de Salomão;
2. o conceito de Iniciação [aos Mistérios] tendo em conta a já referida Sucessão Apostólica, nomeadamente da Igreja de João;
3. o conceito da Demanda e da Peregrinação, em que a busca do Santo Graal e a construção de uma rede estabelecendo ligações perenes entre os múltiplos Espíritos do Lugar, isto é, na reconstrução, por todas as zonas de influência da Ordem, de réplicas do Templo de Salomão, por exemplo: Charola do Convento de Cristo em Tomar ou, mais perto de nós, a Ermida de Santa Catarina de Monsaraz.

A Ordem do Templo, guardiã dos Caminhos e Lugares Santos, foi um anel na imensa corrente conciliadora do passado e do futuro. A Palestina, primeiro espaço em que se movimentou, constituía o pólo místico, ou charneira ideal entre dois mundos: o Oriental e o Ocidental. A sua missão visava a constituição de um Templo digno da Divindade: o mundo interior, condição dos homens livres e virtuosos, que se simbolizava pela imagem do templo de Salomão.

Para compreendermos a filosofia Templária ligada aos aspectos da iniciação e da regeneração humana, tenhamos em conta que:
1. “Não se é iniciado pelos outros; iniciamo-nos nós mesmos”.
2. “O iniciado está só ou, mais exactamente, é único, pois nenhum homem evolui em lugar de outro.”

A partir deste momento da minha reflexão, parto do princípio hipotético, mas não menos real, de que cada um de nós é um potencial cavaleiro Templário, isto é, está dentro das nossas possibilidades enquanto seres humanos de assumirmos os desafios, a procura, as batalhas travadas e a travar, com o objectivo de melhorar, fazer evoluir espiritualmente a Humanidade como um Todo Indivisível.

A Busca, no fundo, está em nós, o Caminho passa realmente pela nossa auto-compreensão. Desde os tempos imemoriais da História do Homem, em que este conseguiu, por direito, ter acesso ao Castelo do Graal. Aqui, onde brilha a Lanterna da Intuição poder-se-á completar a Aventura da Demanda quando, ao beber-se do Cálix Sagrado, a transmutação espiritual acontecerá e o homem-em-demanda, finalmente, se transformará, se transmutará, em Homem-Crístico, o Senhor Universal da Compaixão. Então, o microcosmos e o Macrocosmos voltam a identificar-se conscientemente, então, como o afirmou o Poeta, o homem

“Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.”

Mas, quando se inicia a Busca? Poderemos nós decidir conscientemente do início da Demanda? Poderemos nós querer iniciar o Caminho? Haverá métodos de procura? Haverá Iniciação porque tão só queremos ser iniciados? Contudo, sempre coube ao Cavaleiro ousar conquistar e dominar o Mundo...
Questões importantíssimas colocam-se-nos, tanto mais importantes quanto nós sabermos e estarmos conscientes da ilusão que nos domina a todos os níveis – físico, psicológico, espiritual...
É necessário sentir e viver o apelo interior, mais profundo, e para além de quaisquer definições ou justificações que possamos apontar aquando do seu aparecimento. Afinal as nossas mais autênticas aspirações são a conquista da felicidade, a compreensão global da Verdade, o conseguirmos vivenciar o Deus-em-nós, dependendo muito da idiossincrasia de cada um e do seu projecto de Vida, a qualidade do apelo e do impulso sentido, buscado e vivido.
A Via ou Busca Espiritual é a total disponibilidade, é a faculdade mais profunda do Ser que se predispõe a efectuar a recepção de energias espirituais no próprio momento em que se implementa e se desenvolve o estado de dádiva absoluta, inclusive da própria vida... tal como H. P. Blavatsky na sua obra “A Voz do Silêncio”: “Renuncia à vida se queres viver.”

A Busca começa em nós. O Deus tão procurado, tão aspirado, reside em nós. Como é afirmado no Chandogya Upanishad[1] (III-14): “Este Atman que reside no coração, é menor que um grão de arroz, menor que um grão de cevada, menor que um grão de alpista; este Atman, que reside no coração, é ao mesmo tempo, maior que a Terra, maior que a atmosfera, maior que o céu, maior que todos os mundos reunidos.”
Gostaria ainda de citar Paracelso que disse numa das suas obras: “Trazemos em nós o centro da natureza.”

Cada um de nós é realmente um centro que efectua a ligação do Céu à Terra, mais ou menos conscientemente, com mais ou menos intensidade, mas em contínua evolução, em permanente busca, onde impera o sofrimento ou a felicidade, a paz ou a guerra, o amor ou o ódio, ou então achamo-nos subitamente num estado onde não é possível encontrar quaisquer referências para se compararem os complementares, para se olharem as contradições, para se apontarem os conceitos antagónicos. É através desse estado, que acontece a autêntica percepção da Totalidade, no sentido da autêntica consciencialização da Unidade, da Vida e da Morte. Quando acontece, não a identificação do eu com o Caminho (auto-valorizando-se egoisticamente aquele), mas sim quando transparece uma autêntica Libertação, Transmutação Espiritual, do indivíduo em relação à Lei de Causa e Efeito que rege o desejo de viver. Lei desencadeadora de forças, de espectativas, de tensões, num espaço e num tempo limitados e limitadores em que o Desconhecido, o Atemporal, o Ilimitado e a Demanda (desinteressada dos prazeres comuns do quotidiano) não fazem sentido...
A Busca, a Demanda, autênticas, são Solidão... mas são igualmente estados de União e Comunhão. Ao nível da relação humana e da relação do Homem com o Universo, nos estados de consciência atrás referidos, não existem um sujeito e um objecto separados e isolados um do outro, não existe a separatividade ilusória, mas onde a cada um é conferido (implícita e objectivamente) um Estatuto de Ser e de Ser dotado de Palavra simultaneamente Criadora e Libertadora...

A Lei das Complementaridades e a ilusória Lei das dualidades, mais não são do que a manifestação de uma Unidade Inefável.
Não esqueçamos o famoso selo templário: dois cavaleiros montados num mesmo cavalo... empunhando a Espada, símbolo de acção enobrecedora e transformadora, a sua acção é justificada pela Razão e pelo Coração.
Finalmente termino recordando os Salmos (XXIV-3,4):
“Quem subirá na montanha do Senhor?
Quem há-de permanecer no seu lugar santo?
O que tem as mãos inocentes e o coração puro, o que não dirige os seus desejos à mentira, nem jura com engano.”

R.A. – Évora, 29 de Maio de 2003

[1] Os Upanishads, livros de carácter sagrado que, na Índia, são comentários explicativos dos Vedas.

2 comentários:

Criptex disse...

Difícil não comentar.
Gostei bastante.
Ensaio em sentir profundo, qual «flumen» etéreo que se transforma em palavras, fazendo brilhar os melhores ideais e o sentido de demanda próprio de quem se inquieta.
Ser Templário

Excelente
Ab

Maria disse...

Pesquisadores ilustres, como René Guenón e Julios Evola, omitiram nas suas obras o passado do Portugal Templário.
Há na Europa uma conspiração de silêncio.
Atienza, mesmo aqui ao lado, parece ignorar factos que não pode ignorar.
O tempo e a história iludem-nos. Por seis séculos, foi preciso guardar o segredo. Mas os ciclos começam, e acabam, sem que deles conheçamos a perfeita exactitude. Cumprem-se agora. Não nos mostra isso, o mundo? Pé ante pé, o Naros levanta a manta e, os segredos… espreitam. Cai a Grécia, cairá Roma, veremos de novo a Luz Citânea.

Em A ESTALAGEM DO QUINTO CAMINHO, a verdade começa a emergir, é preciso ter agora coragem para a defender.
O livro está publicado online e pode ser pesquisado no Google.