terça-feira, 7 de maio de 2013

Maria Beatriz Serpa Branco


EXAMES: AVALIAÇÃO OU BLOQUEAMENTO DO PROCESSO EDUCATIVO? - Maria Beatriz Serpa Branco


A questão de legitimidade dos exames põe em causa toda uma pedagogia.

Que pode realmente «medir-se» em educação? Que representam os exames em relação a um autêntico saber? Será que o desenvolvimento multidimensional implicado nem processo educativo poderá traduzir-se em termos de «aprovado» e «reprovado», na dimensão estreita e linear do sucesso e do fracasso? Que é, afinal, Educação?

O simples enunciado de toda esta problemática necessária contém já implícita a resposta sobre o valor e a legitimidade dos exames.

Desaconselhados por educadores e psicólogos, os exames são sinal de falhas profundas na educação dos nossos dias, e de graves carências de toda uma civilização em crise de autênticos valores.

A fome do êxito, a pressa, a ambição, são vícios do nosso tempo que se traduzem em valores falsos.

Quando se pretende o utilitarismo, o sucesso, a «rendibilidade», as percentagens, o ser humano deixa de ser olhado como um fim, e passa a instrumento da sua própria desumanização.

E assim se vicia todo um processo educativo.

A tal vício, nem os pais estão alertados. Antes, quando não esclarecidos, o cultivam, pedindo à escola, através de exames e diplomas, a garantia de uma rápida promoção económica, em vez de uma colaboração profunda e válida no processo de maturação de seus filhos.

Assim lhes estão criando condições de infelicidade e desencontro, substituindo os autênticos valores da vida, pelo desejo de sucesso pessoal, fonte de insegurança e de luta, numa civilização já saturada de competição e violência.

Nada mais desumanizante que sobrepor a ambição do êxito aos valores do coração, encorajar o egoísmo em prejuízo da cooperação e do amor.

E assim se vai tornando a vida numa corrida a uma competição, onde vence o mais forte ou o mais astucioso.

Os exames reflectem esta crise de valores. Tornam-se, para muitos, provas de astúcia e «esperteza» («Consegui enganar o professor»), e são, de facto, imperfeitíssima avaliação de um reduzido número de capacidades intelectuais (por vezes só da memória).

Não será isto diminuir o homem? Numa aprendizagem de convivência como é a escola, não deveriam as qualidades sociais (sentido da responsabilidade, compreensão e simpatia, entre-ajuda) ser  especialmente encorajadas, a para da inteligência, da acção e da sensibilidade?

E não é com todo um sistema de notas, classificações e exames, situações artificiais, que tais qualidades se estimulam e valorizam.

Apesar da recente e benéfica medida tendente a diminuir o número de examinandos, ainda só uma escassa minoria dela aproveita. E, tal como existem, os exames são contraproducentes. Focaremos, adiante as razões mais profundas. Por agora, apontamos:

a)      as provas, pela própria natureza dos exames, são necessariamente inadequadas;

b)      a inevitável e extrema subjectividade na sua apreciação;

c)      presença de factores que afectam a delicada função de julgar, como fadiga, saturação psicológica, número excessivo de provas em tempo insuficiente.

(Em relação a a) e b), Ersílio Cardoso, em «Diário de Lisboa», 11-12-70, apresenta dados e exemplificações criteriosos.

      Para citar apenas um desses exemplos, colhidos em inquéritos internacionais que detectaram a extrema subjectividade de critérios de classificação, repetiremos que, relativamente a 6 examinadores, as percentagens de  examinandos que obtiveram 10 valores, sobre 20, num tema de filosofia, variaram de 81% a 31%.

Em provas de História e Geografia, também a disparidade foi alertante.

Acrescentaremos ainda, sem mais comentários, que os 6 examinadores, eram «professores experimentados e habituados há muitos anos a trabalhar juntos». [Piéron, autor de um dos mais completos estudos sobre exames, Ciência e Técnica dos Exames, aconselha a «substituir, na medida do possível, a selecção por meio de exame, por uma orientação contínuas fundada no conhecimento profundo de cada personalidade, por meio de métodos objectivos» (pág. 207)].

 

Por todas estas razões, se introduzem factores de inexactidão e até de injustiça que, embora involuntária, afecta necessariamente o sentido de valores do adolescente.

Os exames mostram como nos acomodamos a falhas extremamente graves no sistema educativo. Uma, entre muitas outras, é a de uma educação que renunciou a si mesma.

Os exames não apelam parta uma Educação, mas para um «ensino», de feição utilitarista e excessivamente intelectualizante.

O ser real, com os seus interesses, tendências e necessidades, é esquecido, para ficar apenas um receptáculo vazio, onde enormes doses de informação serão acumuladas… para serem esquecidas, num processo espontâneo de saneamento mental.

O professor fica reduzido a mero informador e classificador, com a função de «cumprir o programa» e «preparar para exame», colaborando, como vítima também, neste bloqueamento do processo educativo.

O sistema de exames é assim fonte de tremendos erros pedagógicos:

- prejudica a relação educativa.

Em primeiro lugar, a relação professor-aluno, tão essencial ao processo pedagógico. A preocupação com o programa, quase sempre excessivo, com as notas e com o exame, rouba a disponibilidade e a atenção mútua e desinteressada. Insidiosa muralha que, com o número excessivo de alunos, mutuamente insensibiliza à compreensão e à amizade.

A relação dos alunos entre si também é atingida. A rivalidade é estimulada, gerando-se sentimentos de insegurança e frustração.

Também são prejudicadas as relações entre a família e o educando e entre a família e a escola. Muitas crianças e adolescentes ficam traumatizados, especialmente em relação à família, que nem sempre sabe aceitar e compreender uma «reprovação», ou uma nota menos de acordo com a ambição familiar.

No caso da relação escola-família, tão importante na obra educativa, a situação torna-se tensa quando o exame ocupa o primeiro plano das atenções familiares. Atitudes de desconfiança e até de animosidade são frequentes, para com o professor. E o clima transforma-se em autêntica psicose colectiva, fruto de uma pedagogia falsa, completamente alheada dos grandes valores humanos.

 

- encoraja a confusão generalizada entre instrução e Educação, de modo a pretender-se apenas um diploma. É tudo… e não é nada, para a realização do jovem, como ser humano e social. Introduz-se assim uma falsa perspectiva entre alunos e até professores, sobre o que é realmente essencial na obra educativa, que terá de atingir a profundidade do ser.

Tal falta de sentido de valores, estimulando a superficialidade só pode criar seres igualmente superficiais e infelizes.

            - não estimula à reflexão e à criatividade.

            - induz à passividade imitativa e à excessiva memorização. Este excessivo esforço torna-se tanto mais absurdo, quanto a informação é hoje extremamente acessível, por melhores meios. O problema educativo reside em orientar o jovem, para o tornar capaz de saber o que deve colher.

- afecta o equilíbrio psico-fisiológico do adolescente, roubando ainda energia e tempo para a maturação educativa.

- exerce forte constrangimento, porque a «aprendizagem» é imposta e não proposta.

Deste modo se atrofiam a espontaneidade e a curiosidade natural, que definha perante doses maciças de informação, para a qual falta uma estimulação adequada.

Substitui assim a alegria que deveria estar ligada à relação educativa e à aprendizagem verdadeira, pela ansiedade e pelo medo, que bloqueia a inteligência e a  compreensão.

- é contrário à verdadeira motivação, que estimula sem prender aos resultados. A educação autêntica é desinteressada, não procura o «êxito». Não leva à competição, nem a  pensar em termos de sucesso ou de fracasso, mas de realização humana.

            - contribui para o conhecimento compartimentado, deformador do sentido da vida e de uma visão interpretativa e unificadora do homem e do mundo.

Os exames apelam para uma falsa especialização, prematura e mutiladora da experiência vital do adolescente.

Que sentido faz, por exemplo, estudar, com todo o pormenor, o aparelho digestivo da minhoca, da lagosta, do caracol, se não fizermos nada para integrar o jovem no seu meio natural, sentindo-lhe a harmonia e a beleza?

As matérias das várias disciplinas deveriam ser olhadas como dimensões da vida, que levam o jovem a crescer, multidimensionando o seu horizonte, numa crescente expansão de consciência, a caminho de uma maturidade integrativa.

            - leva a substituir a experiência e o saber das coisas e dos seres por esquemas, fórmulas e definições, alheando da relação com a vida.

                        O adolescente precisa de observar, de estar atento à vida.

Mas substitui-se essa experiência insubstituível pela memorização, a abstração e o intelectualismo. E assim se priva o jovem de encontrar os seres, de lhes ser sensível, de os conhecer e amar.

            - distrai da reflexão essencial sobre o Eu, que leva ao auto-conhecimento, um dos valores mais altos de toda a Educação.

Autoconhecimento que nasce da relação com o mundo, e é fundamental à humanização do homem.

 

            - leva a subestimar o desenvolvimento da sensibilidade e das qualidades sociais indispensáveis ao equilíbrio do adolescente e à vida de relação.

A afectividade é, no jovem, o centro de toda a evolução da personalidade. A cultura, orientação e aproveitamento da sensibilidade impõem-se, pois, simultaneamente, como um instrumento e um fim do processo educativo.

 

Uma sugestão

É urgente, portanto, considerar todos estes problemas. Compreender bem um problema é já estar a resolvê-lo.

E não podemos continuar a aceitar os exames, sob pretexto de que são apenas um meio indispensável. Sabemos como, em qualidade, os meios importam tanto como os fins, porque os condicionam e modelam.

Educadores e psicólogos conscientes propõem a substituição dos exames por outros meios, como os chamados processos de avaliação contínua, para que o adolescente (ou a criança) seja olhado como um caso humano.

Assim todo o sistema de notas e classificações, que enferma de males semelhantes aos dos exames, seria igualmente substituído. Termos como «aprovado» e «reprovado» desapareceriam do vocabulário escolar.

Se a função de julgar o aproveitamento educativo se estender por todo o tempo de vida na escola, então será possível uma observação aprofundada. Se tal observação for distribuída por equipas, constituídas por professores realmente ligados ao jovem, pelo psicólogo  , o médico e o assistente social que possam olhar conjugadamente acriança ou o adolescente sob os aspectos bio-psíquico e sócio-pedagógico, teremos então algo que se aproxime de uma verdadeira acção educativa.

Se, além disso, a família for chamada a colaborar efectivamente, e se, aos alunos mais velhos forem também pedidas informações responsáveis sobre as suas próprias dificuldades e desenvolvimento estaremos no início de um caminho em que a orientação do adolescente poderá de facto realizar-se não só ao nível humano, como vocacional.

Só assim se não bloqueará o processo educativo, roubando-lhe o carácter desinteressado, e o tempo para uma natural maturação, privando professor e aluno de disponibilidade para uma relação que vale por si, e afastando da vida e dos seus problemas essenciais, para a vacuidade da mentalização estéril.

Vicia-se toda s obra educativa quando há preocupação quase exclusiva com o treino intelectual e técnico, a avaliar em exames, sem o mesmo cuidado e insistência em relação a uma cultura sistemática da sensibilidade e das qualidades sociais.

Só desenvolvendo no jovem o poder de estar atento à vida e de compreender, e também a capacidade de ser sensível, à beleza, ao sofrimento, o poder de compadecer-se com o que se passa à sua volta, e o desejo de ajudar, o educaremos realmente.

Só assim se não alienará a escola da vida. Alienação tanto mais grave quanto o homem precisa urgentemente de um sentido da vida que o estimule a uma maturidade interactiva. Esta o empenhará num processo espontâneo de desenvolvimento, individual e social, que o ajude à necessária transformação do mundo, pela transformação de si.

 

OBS.: Comunicação apresentada pela Autora no VI CONGRESSO DO ENSINO LICEAL, Aveiro, 1971.

segunda-feira, 11 de março de 2013

o menino


"Aquele menino cercado
tinha um destino de pássaro
em ter casa nas árvores
em ver de cima os telhados

aquele menino só de ave
nunca ergueu seu vôo ao largo
nunca lhe abriram janelas
e a cidade lhe roubou
o seu espaço de estrelas

aquele menino tão pobre
de saberes acumulados
aquele menino tão sábio
tão rico de madrugadas

deserdado
e mal amado
aquele menino de pássaro
tem um destino cercado"

poema inédito de
maria Beatriz Serpa Branco

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Projecto Europeu ORALITIES / ORALIDADES


II CONFERÊNCIA INTERNACIONAL DA TRADIÇÃO ORAL DE ÉVORA - BALANÇO FINAL

Évora, 10 de Novembro de 2012.

 Prezados Parceiros, Caríssimos Amigos:
 
Chegámos ao final da II Conferência Internacional da Tradição Oral no âmbito do Projecto ORALITIES.
 
Significa este evento um virar de página do Projecto e um tempo de pensar e de reflexão sobre no que se poderá transformar o Oralidades após a sua conclusão oficial no próximo mês de Maio de 2013.
 
A I Conferência Internacional da Tradição Oral tinha sido realizada em Ourense em Novembro de 2010, de que resultaram três dias de apresentação de propostas e discussão técnica e científica da problemática das Oralidades. Tivemos naquela altura a participação de dezenas de Técnicos e de especialistas não só das cidades parceiras mas também e principalmente da Região da Galiza e de Portugal. Dois volumes de Actas foram editados e distribuídos., além das mesmas terem sido publicadas igualmente no site do Projecto – www.oralities.eu.

Preparou-se entretanto a II Conferência Internacional que foi marcada para Évora durante os dias 8, 9 e 10 de Novembro de 2012. As espectativas eram muitas e as inscrições não se fizeram esperar. O resultado está à vista – realização de 7 Conferências Plenárias e cerca de 40 comunicações presenciais, de grande qualidade técnica e científica, distribuídas por seis Painéis, prenderam-nos a atenção durante três dias das 9:30 da manhã até cerca das 18:00, todos os dias. É obra!

 Durante estes três dias debruçámo-nos sobre a problemática das Tradições Orais e dos Saberes Tradicionais, nomeadamente preocupando-nos a sua recolha, a sua preservação, a sua sistematização e a sua difusão e divulgação. Reflexões, experiências e metodologias foram partilhadas e discutidas, na medida do possível.

Foi um diálogo construtivo entre os parceiros do Projecto e entre as dezenas de investigadores presentes e que irá enriquecer a consolidação do Centro de Recursos do projecto Oralidades, proposto desde o início da construção do Projecto com o objectivo de trabalharmos em continuidade temporal e espacial esta área de intervenção sociocultural. Isto é, será o Centro de Recursos da Tradição Oral a vingar após o término oficial do Projecto Oralidades no próximo mês de Maio de 2013.
 
Os materiais e a massa crítica resultantes das duas Conferências Internacionais serão o suporte para que este Centro de Recursos possa ter a sua continuidade não só em Évora mas igualmente nas cidades dos diferentes parceiros se para isso disponibilizarem localmente alguns recursos logísticos e financeiros.

O papel das Autarquias na prossecução do projecto Oralidades foi o de enquadrar os artistas e os técnicos para partilharem experiências com os seus parceiros. Após o término do Projecto e não havendo nas actuais conjunturas, nacional e europeia,  condições para a construção de uma proposta de continuidade, poderemos no entanto, cada parceiros e em cada uma das cidades, continuar a trabalhar e a desenvolver pequenos projectos nestas áreas tão aliciantes que são as do Património Cultural Imaterial / Tradição Oral / Oralidades.

Muitas riquezas imateriais estão ainda por recordar, recolher e sistematizar junto dos residentes mais idosos, junto das Bibliotecas e dos Arquivos, junto das Associações muitas vezes centenárias e que enquadram projectos que pelas suas características poderão vir a associar-se numa recolha e estudo comuns e enriquecer um Centro de Recursos regional que contínua e dinamicamente se encontrará em construção. Não esquecendo evidentemente o papel importantíssimo das Universidades e dos seus Centros de Investigação nas áreas das Ciências Sociais e Humanas (Antropologia, Sociologia, História e Literatura) que são fundamentais para darem o seu imprescindível contributo e enquadramento científicos.

Para o aprofundamento de práticas e técnicas auxiliámo-nos de ferramentas que nos foram indicadas e facultadas pela UNESCO, nomeadamente através do texto da Convenção para a salvaguarda do património cultural imaterial, publicada em Paris a 17 de Outubro de 2003.

Refere o texto desta Convenção que o Património Cultural Imaterial é constituído pelas “práticas, representações e expressões, as consonâncias e o saber-fazer que as comunidades e os grupos e, em certos casos, os indivíduos, reconhecem como parte integrante do seu património cultural.”
 
Recordo ainda que, e citando a mesma Convenção, “O referido património, denominado por vezes “património cultural vivo”, concerne os seguintes domínios:

·         as tradições e expressões orais,  aqui incluindo a língua enquanto veículo para o património cultural imaterial;

·         as artes do espectáculo;

·         as práticas sociais, rituais e eventos festivos;

·         os conhecimentos e as práticas que concernem a natureza e o universo;

·         o saber-fazer ligado ao artesanato tradicional.
 
Transmitido de geração em geração, o património cultural imaterial, é recriado de modo permanente pelas comunidades e pelos grupos em função do meio no qual vivem, as relações que estabelecem com a natureza e da sua história.

O património cultural imaterial confere às populações e aos grupos um sentimento de identidade e de continuidade; a salvaguarda deste património promove, nutre e favoriza o desenvolvimento da diversidade cultural e da criatividade.”

Ora, os objectivos do Projecto Oralidades inseriram-se dentro dos pressupostos desta Convenção da Unesco, conforme passamos a referir:

·         valorização da Cultura Tradicional num quadro de inovação;

·         promoção da cooperação cultural entre territórios, comunidades e agentes culturais e artísticos;

·         intervenção sociocultural, tendo como base a promoção do diálogo entre culturas.

Por sua vez, estes objectivos culturais que promovemos e desenvolvemos durante a duração do Projecto ORALITIES foram e são ambiciosos, desafiando a nossa criatividade.

Mais se refere que a intervenção sociocultural que acima referimos propôs-se agir sobre a realidade específica de cada uma das cidades parceiras tendo como base três conceitos operativos fundamentais: Memória, Identidade e Partilha.

Só a partir daqui compreenderemos de facto o que queremos com a criação de um Centro de Recursos da Tradição Oral, objectivo estruturante do próprio Projecto.
 
É este um projecto e um desafio exigente e ambicioso, exigente porque não é inédito e ambicioso porque estamos a encarar o seu desenvolvimento à luz de uma intervenção autárquica e não de acordo com regras estritamente académicas e universitárias. Embora neste último aspecto tivéssemos tido na construção destas II Conferências a grande competência do Presidente do Comité Científico, Professor José Rodrigues dos Santos, assim como a das instituições co-organizadoras – o CIDHEUS, a Universidade de Évora e a FCT.

Temos consciência de que o projecto ORALIDADES é, de facto, um projecto complexo. Sendo um Projecto que privilegia a utilização da palavra, a primeira barreira que tivemos foi a da diferenciação das línguas dos parceiros – português, galego, italiano, maltês e búlgaro. Daí que a língua comum escolhida tenha sido a língua inglesa o que de certa maneira condicionou o verdadeiro e profundo entendimento das especificidades culturais de cada região cultural envolvida.

Ao longo dos quatro anos de duração do Projecto Oralidades houve visitas e contactos de parte a parte e o diálogo começou, no prosseguimento do projecto, a surgir mais fluentemente, independentemente do condicionalismo sempre presente das línguas. Contudo, neste quarto ano de duração do Projecto sentimos uma aproximação e um carinho cada vez maior entre todos.

E será este conhecimento / reconhecimento dos parceiros que nos permitirá uma construção equilibrada de um Centro de Recursos simultaneamente comum e diverso.

Só agora, ao fim destes anos de trabalho conjunto é que começamos a conhecer e a chamar pelos seus nomes próprios a Mónica, a Svetlana, a Christine, o John, a Bárbara, o Paulo, a Maria, o Matteo, o Anxo, o Santiago e muitos outros novos amigos e amigas que connosco partilharam o espaço e o tempo europeu do ORALIDADES.

Só agora começamos a saber da riqueza cultural e etnológica de Malta, a especificidade da língua maltesa, pois estivemos lá a ouvi-la ao vivo e a interagir com o povo de Malta. Sabemos que os investigadores de Malta se têm preocupado com a evolução e o desenvolvimento cultural da sua língua materna; sabemos que existem outros investigadores que têm trabalhado os contos tradicionais, as baladas, e as narrações folclóricas. Há que trazer para o Centro de Recursos comum toda essa riqueza, toda essa diferença cultural mas também todas as semelhanças que possamos encontrar entre as nossas culturas e as nossas línguas.

Sliven foi outra surpresa que a pouco e pouco fomos desvendando, nomeadamente através da total disponibilidade dos nossos parceiros no contacto pessoal, no resolver os problemas, etc. Com as visitas a Sliven ficámos a perceber da riqueza imensa e das potencialidades deste parceiro para a qualificação do próprio projecto. Apercebemo-nos dos interessantíssimos institutos culturais que possuem – National Museum of Têxtil Industry, “Stefan Kirov” Dramatic Theatre, State Puppet Theatre, The Historical Museum of Sliven, etc. Contactámos com a realidade das Carnival Mascarades (os Kukeri) tão semelhantes às nossas Brincas de Évora e aos nossos Caretos de Trás-os-Montes. Qual poderá ser a sua participação pragmática no projecto ORALIDADES? De que maneira estes saberes poderão ser partilhados por todos?

Estes são dois exemplos do porquê da importância destes projectos Europeus. O facto de técnicos, artistas, músicos e investigadores terem a possibilidade real de se visitar e a partilhar realidades culturais diversificadas (e não “diferentes”), fornecendo uma mais valia extraordinária para a construção de uma Identidade Europeia, esta sim constituída por uma miríade de aspectos que vão constituir um fundo comum onde cada um de nós encontrará um pequena mas importante e única contribuição para a constituição de um luminoso espectro europeu.

Poderia igualmente falar de Ourense e de Ravenna e de Mértola e de Idanha-a-Nova e da importância de conhecermos mais minuciosamente as suas particularidades culturais que com toda a certeza irão contribuir para a consolidação do desenvolvimento futuro do projecto.
 
A Tradição como Comunicação é no fundo o principal leit-motiv deste nosso projecto. Estamos a partilhar tradições ancestrais, mas estamos principalmente a comunicar, a pôr em comum, as nossas jóias e riquezas culturais que brilharão a duplicar de cada vez que forem partilhadas, que forem oferecidas, porque retornarão a nós com um brilho mais refulgente e muitas vezes mais límpido e mais rico do que aquele que um dia saiu desinteressadamente das nossas mãos para as mãos dos nossos parceiros de projecto.

O Centro de Recursos afinal assemelhar-se-á ao cadinho do alquimista onde os diferentes metais serão misturados a frio e aquecidos ao rubro a fim de que o Ouro possa surgir no final da Obra.

Em momentos de profunda crise económica e financeira com que Portugal e a generalidade dos países do Sul da Europa se debatem, – mas também crise de valores e de sentimentos construtivos tais como os da Liberdade, da Igualdade e da Fraternidade, bases conceptuais da construção/invenção da Europa Moderna post Revolução Francesa – o papel destes projectos culturais é fundamental.

Projectos em comum de homens e de mulheres preocupados com a participação e com a assumpção da palavra, é cada vez mais importante. Um sentimento forte começa a nascer quando refletimos em conjunto nestas áreas das Ciências Humanas – o facto de sentirmos que o poder da palavra (do diálogo) cada vez mais terá de se impor perante a palavra do poder…

Não podemos permitir, no fundo de nós próprios e na práxis dos nossos saberes e das nossas intervenções, que regresse uma cultura do silêncio, inquisitorial, ditatorial e castradora das nossas liberdades enquanto seres humanos dotados de palavra, livre e libertadora. A Democracia, a Liberdade de expressão, de pensamento e de participação cívica, sabemos nós, e por experiência própria, que não têm lugar neste tipo de propostas políticas retrógradas…

A palavra, se bem utilizada, compreendia e partilhada é verdadeiramente libertadora.

Não queria terminar sem deixar os sinceros e emotivos agradecimentos a todos quanto viabilizaram a realização desta II Conferência Internacional da Tradição Oral.

Em primeiro lugar à Senhora Vereadora do Pelouro e também conferencista, a Prof.ª Cláudia Sousa Pereira pelo seu empenho junto da Câmara para que o Projecto Oralidades organizasse sem grandes constrangimentos este evento.

Ao Professor José Rodrigues dos Santos, que desde a primeira hora assumiu a Direcção Científica do Projecto e estabeleceu as pontes necessárias e importantíssimas com a Universidade de Évora e o CIDEHUS/FCT. Incansável e disponível na sua participação em toda a complexidade de construção da Conferência.

Uma agradecimento a todo o Comité Científico que permitiu o reconhecimento perante os seus pares e a Academia do mérito do projecto.

Um reconhecimento às cidades parceiras pela sua participação activa através dos seus representantes nas Conferências.

Não poderia deixar de efectuar um reconhecimento sentido à Fundação Eugénio de Almeida através da sua interlocutora Dr.ª Ana Cristina Baptista e ao restante pessoal do staff técnico do Fórum, incansável e permanentemente disponível no acompanhamento nestes três dias de duração das Conferências: à Dr.ª Fátima Murteira e ao Técnico de Audiovisuais Hugo uma palavra sentida de agradecimento.

Queria também agradecer a todos os moderadores dos Painéis que permitiram o dinâmico desenvolver dos trabalhos, por vezes assumindo a doloroso papel de recordar o pouco tempo necessário para a total apresentação das ideias e dos saberes transmitidos nas comunicações.

Não queria deixar de agradecer ao António Roque pelo layout dos materiais impressos da Conferência, assim como das traduções a eles inerentes.

Aos incansáveis tradutores da Sintraweb – Informática e Serviços, L.da (Departamento de Tradução) que viabilizaram o entendimento entre todos os participantes.

Finalmente, mas não menos importante ao pessoal da Divisão de Assuntos Culturais, nomeadamente a colega Cidolina Amaro, espinha dorsal de toda a complexa logística da produção da Conferência; e às colegas Fátima Cabecinha, Margarida Branco e Rosa Paes pelo trabalho de acolhimento aos participantes nos três de dias de duração das Conferências.

Um último agradecimento à Agência Executiva Educação, Audiovisual e Cultura do Programa Europeu Cultura (2007-2013), sedeada em Bruxelas, que através do financiamento efectuado permitiu a existência e o funcionamento do projecto Oralities tal como foi concebido e implementado.

Até à próxima.

Évora, 10 de Novembro de 2012.

O Responsável Técnico pelo projecto Oralidades

Rui Arimateia

sexta-feira, 14 de setembro de 2012