domingo, 2 de março de 2014

AS BRINCAS DE ENTRUDO DE ÉVORA EM 2014

NOTÍCIA SOBRE AS BRINCAS DE ÉVORA 

As Brincas do Entrudo de 2014
Neste Entrudo do ano de 2014 só irá sair para a rua uma Brinca de Carnaval – a do Bairro de Almeirim / Rancho Folclórico Flor do Alto Alentejo e irá apresentar-se por diversos locais do Concelho de Évora, principalmente nas freguesias rurais e quintas ao redor de Évora. Irá também apresentar-se no Centro Histórico (Praça do Giraldo e Praça de Sertório).
No Sábado, dia 1 de Março, participou no Festival Entrudanças, em Entradas / Castro Verde, evento cultural organizado pela Associação PédeXumbo.
Recordemos que...
As Brincas são das manifestações tradicionais mais representativas do Carnaval de Évora. Consistem numa manifestação cultural tradicional, ainda hoje viva, sendo únicas pela forma e pelo conteúdo, pela originalidade e pela criatividade. São um sub-género da dramatização popular, musicadas e coreografadas, tendo por base um fundamento constituído por um “corpus” de décimas, tão características do Alentejo, e um dos pilares das oralidades da cultura popular alentejana.

Excertos de um fundamento escrito por Mestre Raimundo, “As Encantadas”...

Foi assim apresentada a “fórmula” do Mestre iniciar o fundamento no “Grupo das Encantadas”:

MESTRE

1.ª

Senhor venho-o cumprimentar
Com a minha delicadeza
E pedir-lhe a fineza
Se nos deixa aqui apresentar
Nada podemos falar
Sem a sua autorização
O Senhor é o patrão
Eu cumpro o meu dever
Faz favor de me dizer
Se me á licença ou não

2.ª

Fico-lhe grato senhor
Que atenda o meu pedido
Eu fico-lhe agradecido
Muito obrigado pelo favor
Já tenho a rua ao dispor
Pois irei o sinal dar
O povo está a esperar
A nossa apresentação
Dou-lhe um aperto de mão
E vamos já iniciar.

3.ª

A todos muito boa tarde
A todos muita saúde
Que Deus os ajude
Com sua bondade
Esta mocidade
Vem aqui alegremente
Cumprimentar toda a gente
De dentro do coração
Peço-lhe muita atenção
E não cheguem muito para a frente

4.º

Isto é um divertimento
Que nós mandámos fazer
Mas devem de gostar de vir
Este nosso entretimento
Não é um fundamento
Com toda a perfeição
É a revolta de uma nação
É a vida que foi vencida
Com um filho anda fugida
E muitos assuntos se verão.

../...

Continuando a falar sobre as Brincas...
As mensagens da brinca abalam de facto as estruturas sociais mais sólidas: a família, a autoridade, a igreja, o poder instituído, a moralidade e os bons costumes.
Se o fundamento, na brinca, representa a narração de uma situação normal (normalizada) que caracteriza toda uma ordem quotidiana, a principal figura da brinca - o Palhaço/o Faz-Tudo - personifica a desordem, o caos, o diabo, a loucura, em suma, a ausência de ordem, de lei, de respeito, realizando ele, no decorrer de toda a dramatização, a inversão total dos valores veiculados pelos seus restantes companheiros, que fazem os possíveis e os impossíveis para o ignorar - ele, para eles, não existe...
Deste modo, será legítimo afirmar que o Faz-tudo põe em causa  tudo, inclusive a própria brinca e o seu fundamento.
É exactamente por este emaranhado de situações, mais ou menos complexas, que só faz verdadeiro sentido nós encararmos a brinca no contexto mais amplo do próprio Carnaval, inserido este no calendário das principais Festas Cíclicas (Agrárias) Anuais. Não o Carnaval domesticado, legitimado, vendido, bem educado, isto é, o Carnaval citadino e urbano, mas sim aquele tempo de festa, de jogo, onde a transgressão, a loucura, o imoral deveriam ter sido, em eras passadas, os únicos valores, ou melhor, anti-valores aceites num tempo e num espaço de renovação, de exaustão do velho e do gasto, para que o novo (ou renovado) pudesse emergir, ressuscitar, germinar com o aparecimento da Primavera. Daí o denominar-se, tradicionalmente, desde tempos imemoriais, de Entrudo (Entrada) esta época de caos e desordem que antecedia paradigmaticamente a génese da organização natural e humana.

Entrudo para uns e Carnaval para outros...
O tempo do Carnaval era tradicionalmente tempo de festa, de jogo, onde a «transgressão», a «loucura», o «imoral» e a «paródia» deveriam ter sido, em eras remotas, os únicos valores aceites de um tempo de renovação, de exaustão do «velho» e do «gasto» para que o «novo» pudesse ressuscitar, germinar com a Primavera. Talvez daí o facto de se chamar, desde tempos imemoriais, de Entrudo (Entrada) a esta época de caos e desordem que antecedia paradigmaticamente a génese cíclica da transformação natural e da organização social.

Notícias antigas sobre as Brincas de Carnaval de Évora...

O Carnaval
Acerca das festas e divertimentos carnavalescos, publicou hontem o governador civil do districto d’Évora, sr. dr. Domingos Rosado, um edital que contem as seguintes disposições:
(…).
3.ª – As danças, revistas, ou quaesquer grupos de mascaras nas ruas e logars públicos só podem ser consentidas quando vão munidas de licença da autoridade policial, e sempre de forma que não impeçam o transito e o socego publico.
(…).
Notícias de Évora, n.º 6951 de 28 de Fevereiro de 1924 (à pág. 2)

Ainda o Carnaval nas quintas do Louredo e Espinheiro

Com grande animação, realisaram ali as festas nos 3 dias de Carnaval, uma sociedade de rapazes, organizando umas danças, em que se apresentaram decentemente, sendo os promotores das danças, os srs. Jasuino Carrageta e Joaquim da Cândida e outras sociedades. Houve opiniões da maioria, que as danças mais aplaudidas foram as do sr. Jasuino Carrajeta.
Felicitamos as sociedades do Louredo e Espinheiro.

Notícias de Évora, n.º 6962 de 14 de Março de 1924 (à pág.1)

O que eram as Brincas...
Tradicionalmente, as Brincas eram constituídas somente por homens, travestindo-se, se necessário, para o desenrolar do fundamento, numa média de quinze a vinte: um mestre, dois ou três palhaços (os faz-tudos), meia dúzia de músicos, onde a bateria (bombo e caixa) e a concertina têm um papel fundamental, um porta-estandarte e os restantes figurantes para a execução/representação do fundamento.
Convém clarificar que se denomina brinca o grupo de homens ou rapazes que se organizam anualmente (ciclicamente) para a construção e execução de uma dramatização popular durante a época festiva do Carnaval. No entanto, poderá igualmente entender-se por brinca toda a acção dramatizada (o fundamento), musicada (a contradança, a valsa, a canção, etc.) e coreografada (as diferentes formações que têm lugar ao longo de toda a acção: as rodas, etc.). que esse grupo assume nas várias representações que realiza.
No que diz respeito ao fundamento, em termos formais é constituído por décimas de versos rimados. É a alma da brinca.
O fundamento, apresenta um enredo, com princípio, meio e fim, podendo este focar diferentes realidades sócio-culturais e históricas. Diversificada poderá ser a temática desse enredo: episódios da Bíblia, da História de Portugal, da realidade social alentejana, da guerra, contos populares tradicionais, do comum quotidiano, entre outros.

Évora, 2 de Março de 2014

1 comentário:

Associ'Arte - Ao Encontro de Todas as Artes disse...

Excelente! E durará o tempo que se quiser. Se existir um trabalho concertado entre a autarquia (cultura e educação, a Universidade (curso e artes e sociologia) e as zonas onde as "brincas" ainda tem raízes estas podem ser perpetuadas. No baixo Alentejo a Campaniça também esteve em extinção e hoje goza de boa saúde!
Lurdes