segunda-feira, 10 de junho de 2013

A Feira de São João em Évora: etnografia, história e tradição


“Évora festeja desde há muito o dia de S. João. Deste antiquíssimo costume permaneceu principalmente a Feira de S. João, tal como nos habituámos a chamá-la desde o momento em que juntávamos as sílabas para tentar pelas primeiras vezes, balbuciando, a Comunicação através da Palavra. Momento tradicionalmente grandioso para as gentes de Évora e dos arredores, em que se faziam negócios e combinavam contratos; se compravam os fatos, o calçado, as mantas, as louças, os queijos e até os capotes alentejanos e as peças de fazenda; se adquiriam por atacado um nunca mais acabar de produtos para a casa e para o seu gasto durante o ano que agora re-começava... E para as crianças, as principais atracções eram os carrosséis e os carrinhos de choque; as farturas ou brenhóis e o algodão doce; eram as barracas de quinquilharias e de brinquedos; e era o Circo!...  O Circo com os palhaços e os leões, os malabaristas e os equilibristas; eram as cores e a música, eram os cheiros, eram um nunca mais acabar de sentires e de desejos, de deslumbramento e de espantos... Era a Feira de São João.” [Rui Arimateia, in “Diário do Sul”, 24 de Junho de 1997].

 

1. Curiosidades Históricas – os antecedentes:

 

Feira de Santiago ­ – criada no reinado de D. Afonso III por carta régia, em 5 de Julho de 1275. Tendo sido transformada em feira franqueada, a 16 de Fevereiro de 1279, por D. Dinis.

No reinado de D. Afonso V (1438-1481), faz-se público um Regimento que determina «como se devem escrever e assentar os gados para evitar que sejam levados para Castela». Datado de 1455, esse Regimento impunha aos lavradores  que fizessem escrever e assentar todo o seu gado, em cada ano no dia de S. João.

No reinado de D. Manuel I, a 6 de Abril de 1501, este monarca, ouvindo o que a Câmara lhe manda dizer por João Mendes Cicioso, responde que «ha por bem que façam a eleição dos almotacés por um ano somente e que começará por S. João de 1501, em diante».

A 22 de Abril de 1513, o mesmo rei, manda passar um Alvará nesta cidade de Évora, dirigido ao Juiz, Vereador e Procurador de Évora, afirmando que «por assim sentirmos por bem e por boa governança da cidade, havemos por bem e nos prás que de S. João em deante em que os Oficiais novos entrarem nos ofícios desta cidade, fique sempre um dos Vereadores do ano passado aquele que é mais antigo para servir o ano que vem como Vereador com os dois que se elejam… no dito dia de S. João que vem , em deante.»

A primeira Feira de S. João realizou-se no Rossio de S. Brás no dia 24 de Junho do ano de 1569.

A 7 de Novembro de 1574 aparece um Alvará de D. Sebastião (assinado pelo Cardeal Infante D. Henrique, seu tio), regulamentando a Feira de S. João no Rossio de S. Brás.

A 31 de Agosto de 1620, o rei Filipe II, manda de Lisboa um Alvará determinando «que os contratos que a Câmara fizer com os marchantes, sejam de S. João a S. João e não de Páscoa a Páscoa, como até agora se faziam.»

 

Outras Feiras tiveram lugar ao longo dos tempos no Rossio de São Brás, de que deixamos uma curta relação:

·         A Feira de Santiago, com notícia desde o reinado de D. Afonso III, em 1275;

·         A Feira Franqueada de D. Dinis, desde 1286;

·         A Feira dos Pucarinhos ou das Candeias, do reinado de D. João III, em 1525;

·         A Feira dos Estudantes, do reinado de D. Sebastião, em 1569;

·         A Feira dos Ramos, desde 1839;

·         A Feira Nova de S. Cipriano, desde 1900.

 

Como sugestão para um maior aprofundamento histórico e literário da temática da Feira de São João de Évora sugiro a consulta do livro “As Feiras de Évora” da autoria do Dr. Manuel Carvalho Moniz, uma edição da Câmara Municipal de Évora datada de 1997, na Colecção: “Novos Estudos Eborenses”, n.º 1.

 

2. A Feira de São João de Évora nos alvores do Século XX

 

Feira de tendas onde os mercadores e ofícios tinham uma importância fundamental. As arruadas arrumavam-se pelos ofícios e mesteres tradicionais: cirgueiros, cerieiros, curtidores de courama, mercadores de panos de cor, oleiros da loiça, ourives do ouro e da prata, filateiros das fiações, tecelões, caldeireiros, sapateiros, etc.

A movimentação na cidade nesta altura da Feira era enorme: mercadores, barraqueiros… assim como o policiamento da cidade durante o período de duração da Feira. Havia comboios especialmente fretados para trazerem pessoas para a Feira – de Lisboa e das cidades do Alentejo.

Era uma Feira que se impunha em termos económicos em todo o Sul do país, principalmente no que diz respeito ao comércio de gados.

A Feira de S. João era um certame fundamental enquanto instrumento de regulação dos preços dos produtos agro-pecuários – gado, trigo, farinhas, batata, azeite, vinho lãs, etc.

Período igualmente importante para as Estalagens existentes na época e posteriores Hotéis.

Durante muitos anos Évora foi a segunda cidade do Reino, daí a importância das feiras aqui realizadas para a economia da Região e do País.

A Feira de São João constituía-se enquanto a grande mostra dos produtos e das riquezas regionais.

Os dias mais festivos da Feira de S. João serviam como o espelho da moda de então: as toilettes e o social.

As cabanas e casas de pasto e os vendedores de droga e de fruta, os queijos e os enchidos. Dentistas e pedicuros. Todas estas actividades detinham a sua quota-parte na animação económica da feira.

Eram utilizadas as carretas e os carros de canudo alentejanos, para o transporte de mercadorias e das famílias.

A Feira de S. João enquanto espaço de diversão: as touradas e as cavalhadas; os Circos, Teatro e os Robertos; as barracas de répteis e outros fenómenos; barracas de jogos pim pam pum; as barracas de fotógrafos e os Museus Científicos; os Animatógrafos; as Filarmónicas Civis e as Bandas Militares dos Regimentos. O fogo de artifício.

Contribuía a Feira igualmente para o desenvolvimento do Teatro e da Música Filarmónica, pois nesta época muitas Companhias e Bandas Filarmónicas se deslocavam à cidade para apresentar as suas produções artísticas.

A própria família real visitou o certame por duas vezes, D. Carlos de Bragança e D. Amélia de Orleans estiveram na Feira de São João em 1889 e em 1903.

Após 1940 – o folclore e as inaugurações governamentais do Estado Novo marcaram presença transfigurando o aspecto tradicional da feira de São João. Re-organizou-se o terrado, apareceram as decorações ao gosto estético da época. Realizaram-se os cortejos do Trajo dos anos 60, tendo implícita a ideologia“ imperial” do Estado Novo.

Após o 25 de Abril – o Poder Local Democrático continuou a tradicional Feira de S. João, modernizando-a, e conferindo-lhe outras valências não só culturais mas também económicas: os concursos gastronómicos, as propostas socioculturais, o desenvolvimento tecnológico… Apesar de tudo a Feira de São João continuou como espaço e tempo catárticos dos cidadãos eborenses, fundamental para o equilíbrio funcional e emocional da sociedade eborense ao longo do restante ano de trabalho.

 

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Neste ano de 2013 em que se comemora o Centenário do Nascimento de Túlio Espanca, não queria deixar de partilhar a vivência deste nosso Amigo e grande historiador de Évora e do Alentejo, dos seus tempos de juventude. Túlio Espanca assenta praça como voluntário no Regimento de Artilharia Ligeira n.º1 em Évora no dia 25 de Fevereiro, onde permaneceu como militar até 1933, tendo sido licenciado como cabo condutor. Apresentamos de seguida o depoimento que Túlio Espanca deixou escrito nos seus Diários, sobre a Feira de S. João em Évora, decorrendo ano de 1931, nas entradas referentes aos dias 19, 23 e 24 de Junho:

 

“No rossio de São Brás, armavam-se já bastantes barracas, e a animação da tradicional feira de São João principiara. Os esqueletos do Cine-Teatro Rentini, companhia extravagante de comedias lofuquistas, e do velho barracão dos Três Irmãos Unidos, cujos fantoches eram os mais afamados que corriam de terra em terra. Rufando incessantemente e acompanhado pelos sons guturais dum realejo roufenho, mostrava-se ao começo do campo, uma escusa barraca com pequena esplanada na frente, onde se empoleirava um homensinho de grandes guias, bradando em altos gritos a propaganda de sua casa de clichés de cristal, num elenco formidável, mostrando as colossais caçadas ao leão africano, ao tigre indiano, ao elefante de Ceylão, à pantera do Senegal, ao ypophotamo, ao urso polar, etc., etc.; as grandes viagens de Cristóvão Colombo e a descoberta da América, a celebre travessia do Atlântico pelos arrojados aviadores Coutinho e Cabral, a terrível batalha de Marne etc. Cervejarias modernas, tombolas, quinquelharias, apareciam continuadamente nas ruas da feira, assim como jogos diversos, da argola, da bola nos palhaços, roleta, tiro ao pucarinho, ao alvo, ao canhão, ao pombo, às surpresas. Carrousseis, defrontavam-se dois abaixo do monumento aos Mortos, de troupes muito extravagantes.

Dia 23. Fui escalado para ordenança de ronda à feira, da tarde à uma hora da madrugada, sendo oficial da mesma, o aspirante Carrilho.

Dia 24. Entrei de cabo da guarda à cavalariça. São João em Évora.

A feira animava-se: chegavam os circos Excelsior e Mexicano, representando este as feras amestradas e ilariantes clowes; a sensação do homem mais pequeno do mundo, o basar das surpresas universais etc, mas eu (fatalidade) continuava em serviço no quartel, sem poder sair.”

 

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Pela sua actualidade de análise e de linguagem será interessante a leitura de um artigo publicado em 1901 na Revista “Serões”, publicada na capital, e intitulado:

 

A FEIRA DE EVORA

 

“Com o volver dos tempos as feiras vão perdendo a sua antiga importância económica. É natural a evolução. Nos organismos sociais como nos vivos, os órgãos sofrem as modificações correlativas à intensidade dos eu exercício, desenvolvendo-se ou atrofiando-se consoante o predomínio da função que desempenham; outras vezes por adaptações sucessivas aos meios novos de existência, de sua natureza também variáveis, os órgãos transformam-se tão profundamente que na aparência se torna difícil estabelecer-lhes a derivação. As feiras obedeceram às leis gerais. A mais simples observação descobre a verdade banal do conceito. Em passadas épocas, quando a carência ou a dificuldade de comunicações e de transportes interrompia a circulação necessária dos produtos agrícolas e industriais, onerava de despesas e riscos a deslocação, quando a intensidade do movimento comercial não atingia a aceleração febril que hoje o domina, quando a especulação inteligente e produtiva não acendia disputas de concorrência tão calorosas como as que actualmente aquecem a vida económica universal, nem se feriam batalhas de tão numerosos combatentes a disputar primazias ou preponderâncias decisivas na conquista das riquezas, como as que a cada momento agora abalam o mundo dos negócios; era evidente que as feiras representavam uma acção muito importante na economia, eram órgãos de principalíssimas funções. Claro está também que a meio tão diverso do antigo, a nova condições e circunstâncias, as feiras transformaram-se radicalmente, multiplicaram-se, generalizaram-se nos mercados especiais, de periódicas que eram tornaram-se permanentes. E, curioso aspecto de regressão atávica, tendo principiado por serem festas, adquirindo depois conjuntamente as funções utilitárias de mercados, vão hoje outra vez restringindo-se à sua primitiva feição espectaculosa, à medida que perdem a importância comercial. Junto dos grandes centros de população a mudança é completa, embora as feiras vão lutando sempre pela vida, buscando alento na tradição, que nos mecanismos sociais representa o benefício de volante, vencedor dos pontos mortos e regularizador do movimento. Basta recordar para confirmação do asserto as diversas fases por que foram passando nestes últimos vinte ou trinta anos as memoráveis feiras de Belém ou do Campo Grande em volta de Lisboa. E ainda, esta regressão tão característica é que mesmo na história das exposições internacionais ou universais, desde a primeira de Londres à mais recente de Paris, essas grandes feiras da indústria e do comércio modernos, se reconhece o caminhar apressado para a festa espectaculosa e deslumbradora que a crítica económica aprecia severamente; porque na verdade, em obediência às leis gerais da vida, as exposições também se diluíram, se parcelaram, se subdividiram e se tornaram permanentes no mercado universal.

Todavia como preenchem funções indispensáveis, as feiras subsistem onde ainda as necessidades comerciais e o maior ou menor desenvolvimento do meio económico exigem o exercício daqueles órgãos. No nosso país ainda há anualmente feiras duma importância considerável, embora atenuada em comparação com períodos anteriores. Andam quase sempre ligadas às comemorações religiosas que constituíam em antigos tempos o calendário do povo, mnemónica tradicional de fácil uso; realizam-se por isso, conforme as localidades e segundo os objectos especiais a que se dedicam, pelas festas do Espírito Santo, pelo S. João, pelo S. Mateus, ou pelo S. Miguel, em elucidativa correlação dos trabalhos da lavoura com as épocas do ano, em enumeração cronológica ou em compreensivo registo de contratos e de vencimentos.

            Entre as feiras actuais, a de Évora pelo S. João é ainda uma das mais importantes do país, não obstante a diversão casual e festiva substituir já em grande parte a actividade de transacções que outrora nela se realizavam. Feira de lãs, reguladora de preços para a estação; feira de gado e de artigos de lavoura; enorme mercado de utensílios domésticos e de fornecimentos caseiros; exibição característica, pitoresca de costumes alentejanos, de aspectos de vida provincial, tão fortemente acentuada no nosso país, e tão desastradamente comprimida pela centralização administrativa, absorvente, niveladora, geométrica na disposição, nos preceitos e nos processos.

            A feira chama à cidade uma concorrência extraordinária, curiosa capital das regiões de além rio, do sul do país, como o Porto é do norte, e anima a vida normalmente concentrada, monótona, pouco exterior das suas ruas e das suas praças, tão pouco denunciadoras da riqueza que ela encerra ou representa. No vasto rossio alinham-se as barracas e as fileiras abundantemente fornecidas dos diversos objectos para venda. Ao fundo, junto da orla do arvoredo acumulam-se num ele-mêle indescritível os carros, os animais, e os homens, onde vivem durante os dias de feira, porque o carro alentejano com sua cobertura característica de lona branca, para defesa das ardências do sol no estio e dos ventos gelados no inverno, constante confirmação da ciência pelo uso, das teorias da reflexão e da emissão do calor segundo as cores pela experiência dos séculos, o carro serve de casa, de leito, de hospedaria volante nas longas jornadas através das extensas charnecas da província. Mais além agrupam-se os animais para venda, as muares e os burros, os bois e os cavalos, das raças próprias da região ou mescladas das importadas de Espanha. Aqui lavradores entendidos, alquiladores de profissão examinam atentamente, debatem, numa técnica de difícil compreensão para profanos, as qualidades e os méritos duma bela parelha de muares resistentes, ou dum cavalo do tipo Alter ou do tipo luso-andaluz na sua variedade alentejana, elegante e graciosa à vista apesar das modificações que tem experimentado na grossura dos membros, crinas abundantes, finas, ondeadas, orelhas espertas, estreitas, bem plantadas na cabeça seca e longa. Acolá, sob a tenda formada com o auxílio do carro que se transformou em loja de bebidas, senão em casa de pasto, fecham-se transacções avultadas, contam-se maços de notas, onde há anos se ouvia em contagem rápida o metálico som do ouro em libras a transbordar de bolsas de couro bem providas. Lá em cima, regulam-se as compras de lãs dos barros, avalia-se o rendimento utilizável na indústria, separam-se as categorias de aplicação. Além, naquele terreiro, apresentam-se os sofredores, e sóbrios burros, resignados apesar da sua teimosia, aptos para todos os serviços de lavoura, prestáveis a todos os transportes.

Assim se vai passando em revista na vasta feira d’Évora toda a casta de animais agrícolas e todos dos produtos que dos montes e as herdades do distrito, e mesmo da região sul, acodem àquele tradicional mercado, conjuntamente com os pandeiros e adufes onde em acompanhamento monótono de reminiscências mouriscas se percute o ritmo das canções campesinas ao S. João, dolentes e arrastadas; e destes variados aspectos se dá ideia geral nas fotografias documentais que acompanham estas linhas descritivas.”  [inSerões”, s/a,  Revista mensal ilustrada, Vol. 1, Nº 4, Lisboa, Julho de 1901, págs. 251-253]

 

 

 

3. A Etnografia e a Feira de São João de Évora

 

De trabalho anterior de minha autoria, publicado no “Diário do Sul”  na edição do dia 24 de Junho de 1997, retiro alguns excertos sobre o “São João de Évora e a Tradição”:

 

«…/…

Passando muito rapidamente pela tradição etnográfica portuguesa, verificamos que as Festas de São João constituem tradicionalmente a reminiscência de antiquíssimo rito pagão, muito anterior ao cristianismo que, tal como muitos outros, a Igreja assimilou à sua própria liturgia – constituem aquelas festas, na verdade, a adaptação cristã do longínquo culto do fogo através do qual os povos primitivos acompanhavam e celebravam a evolução solar ao longo das estações do ano. Neste caso, assinalavam com enormes fogueiras a passagem do solstício de Verão, em que o Sol atinge o seu máximo esplendor, e daí que o São João se celebre a 24 de Junho, com a abundância de fogueiras e folguedos à sua volta.

 

Podemos ler no jornal eborense “Sul”, datado de 22 de Junho de 1882:

 

     «Diz a  tradicção que o santo popular costumava festejar o seu dia com tal estrondo, com tão ruidosas festas, que d’ahi procediam as trovoadas, que n’essa epocha do anno nos atormentavam os ouvidos. Deus, para pôr termo a taes excessos, condemnou-o a dormir durante os dias 23, 24 e 25, de modo que S. João não póde festejar o seu anniversario.

     Allusivas ao somno, que a tradição menciona, conhecemos algumas quadras:

 

                            Se S. João bem soubera

                            quando era o seu dia,

                            viria do céu á terra

                            com prazer e alegria.

 

                            Desperta, João, desperta

                            que já chegou o teu dia;

                            vem ver como te festejam

                            com prazer e alegria.

                           

                            S. João adormeceu

                            nas escadinhas do côro;

                            deram as freiras com elle

                            depenicaram-no todo.

 

     Embora esteja condemnado a esse somno de tres dias, S. João não deixa de revolucionar, especialmente, as cabeças das raparigas, que na proxima noite de sexta-feira tentam a sorte, para ver se hão de morrer solteiras ou casadas.

     Estas experimentam a alcachofra, aquellas a gema do ovo lançada no copo da agua; umas deixam ao sereno a bacia em que mergulharam as sortes onde estão escriptos os nomes dos mais queridos do seu coração, outras lançam á meia noite do alto das escadas o velho sapato que, se chega ao patamar, lhes dá a triste noticia de que hão de morrer  solteiras, e, se fica parado em qualquer degrau, lhes annuncia quantos annos hão de esperar pelo matrimonio.

     A noite d’amanhã é, pois, anciosamente esperada pelas que desejam saber se o escolhido do seu coração ainda estará muito tempo sem lhes pertencer.

     Até á meia noite, hora destinada para se effectuarem taes crendices, reina o delirio dos bailes e dos descantes em volta da fogueira: e, depois d’uma pequena paragem, proseguem até manhã clara, para á noite reviver com o mesmo enthusiasmo.»

                       

            Sobre as festividades do São João de Évora, refere-nos o Professor José Leite de Vasconcellos, por ocasião de uma sua visita à cidade, na companhia de Gabriel Pereira no ano de 1888 [José Leite de Vasconcellos – Ensaios Ethnographicos, Vol.IV, Livraria Classica Editora, Lisboa, 1910, págs. 317-320]:

 

     «(...).

     Á hora marcada, no dia 23 de Junho, embarcámos no Terreiro do Paço (...). Em breve cortavamos, no mais agradável convivio, as agoas mansas do Tejo, para logo em seguida entrarmos no comboio do Barreiro, que, através de extensas planicies, charnecas e vinhas, nos conduziu sem incidente a Évora.

     Das janellas do vagão avistavam-se ás vezes na orla extrema do horizonte fogueiras a arder. Eram as manifestações populares em honra do Precursor do Messias.

 

                            Quando os Moiros na Moirama

                            Festejam a S. João,

 

no dizer da trova, não admira que nas nossas populações esteja vivo o sentimento de respeito e veneração a elle, embora esta festa não seja de origem catholica, e se filie em velhos cultos naturalisticos: poucas festas tem mesmo significação tão bem conhecida e estudada.

     Chegámos de noite. Na estação havia extraordinaria agglomeração de gente á espera de forasteiros que, como nós, iam á feira de S. João. (...).

     Parte da feira tinha assento diante d’este templo [ermida de S. Brás].

     (...).

     Por todos os lados se erguiam barracas de panno com botequins improvisados, tendas de quinquilharias, lojas de dôce, - e se ouvia algazarra enorme e confusa, em que o habitante do extremo Sul do reino misturava a sua algaravia com as pragas rudes do calão dos Ciganos.

     (...).

     Depois atravessámos ruas tortas e estreitas, apesar de uma d’ellas se denominar pomposamente Rua Ancha, passámos debaixo de arcadas, silenciosas como claustros, e installámo-nos por fim em casa de Gabriel Pereira(...).

     Apesar de ser vespera de uma grande feira de anno e noite de S. João, o casamenteiro das velhas e gracioso galanteador das moças, no interior de Evora não se percebia o menor ruido (...).

     A minha illusão desvaneceu-se de pressa, porque, quando eu me preparava para dormir, começaram a passar na rua bandos de raparigas, que cantavam ao som de adufes, em toada monotona e prolongada:

 

                            S. João perdeu a capa

                            No caminho do estudo...

                            Ajuntem-se as moças todas,

                            Façam-lhe uma de velludo.

 

                            S. João, vós sois ôrives,

                            Porque é que não trabalhaes?

                            Quem me dera ser thesôro

                            Do dinhêro que gánhaes.

 

     Esta toada, com o seu quê de mourisco, divergia muito das do Norte e centro do reino (Porto, Beira), que são mais alegres e mais vivas. Por fim tudo cahiu em silencio (...).

                       

 

            Refiramos ainda algumas tradições curiosas recontadas por José Leite de Vasconcellos de Norte a Sul do País [José Leite de Vasconcellos, inEtnografia Portuguesa - Tentame de Sistematização”, Vol.VIII, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, Lisboa, 1982, págs.378-425]:

 

            “O Sol, ao nascer, na manhã de S. João, vem a dançar... dá três voltas... ou sete voltas...

            Que festa haverá aí tão popular como a do São João? – “‘Té os moiros da Moirama/ Festejam a S. João.” (Do «Romanceiro» de Almeida Garrett).

            A noite de São João é a noite das fantasias e do amor: as feiticeiras vão na casquinha de um ovo para a Índia; as mouras encantadas saem dos penedos e das fontes, e estendem os seus tesouros por sobre a relva verde à luz da lua...

            Tudo nessa noite é reboliço e vida, tudo é juventude e amor...

            Ao saltarem as fogueiras, nove vezes, com um ramo na mão, diz-se: – “Viva São João/Nosso Senhor nos dê muito pão!”, ou, saltam as moças nove vezes a fogueira e dizem de cada vez: – “Em louvor de São João/Que me dê um homem rijo e são!”, e ainda, pega-se numa bacia com água muito clara, passa-se nove vezes sobre a fogueira e depois miram-se na água; se virem a cara, chegam ao resto do ano, se não, não.

            Pelo São João as moças saberiam o nome do futuro marido... queimavam alcachofras e ervas pincheiras ou deitavam ovos em água para saberem o futuro...

            Por outro lado, as moiras encantadas aparecem cá fora, saídas das fontes e das grutas, são espíritos das Naturezas, despertados em época tão santa e especial - quando os frutos começam a aparecer.”

 

 

            Rocha Peixoto, outro eminente etnógrafo português, vê na crença das mouras encantadas, que nesta noite aparecem associadas à água a mostrarem tesouros escondidos, persistências da “simbólica do Sol renascendo da Terra e triunfando do Inverno; encanto: a luz dominada pela sombra; meadas de ouro: a vitória plena da luz.” [Rocha Peixoto, in “Etnografia Portuguesa”, Col.’Portugal de Perto’, nº20, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1990, págs.57-64].

 

…/…».

 

4. A Tradição do São João

 

As festividades de São João Baptista e de S. João Evangelista, respectivamente a 24 Junho e a 27 de Dezembro são coincidentes com os solstícios. Assim, periodicamente, somos levados a reflectir na importância simbólica e espiritual do fenómeno solsticial, inserido este no período de um ano e directamente relacionado com o posicionamento do Sol face à Terra, ou vice-versa. Com efeito, no Solstício de Inverno inicia-se a fase ascendente do ciclo anual; marcando o Solstício de Verão o início da fase ascendente. No simbolismo greco-romano têm o nome de portas solsticiais e são representadas pelas duas faces de Janus, que por sua vez, deram origem aos dois São João, de Inverno e de Verão. A porta invernal introduz a fase luminosa do ciclo enquanto que a porta estival está relacionada com o, a partir desse momento, progressivo obscurecimento.

            Realidade Natural que se faz sentir com toda a certeza desde os primórdios da Criação, foi contudo aproveitada pelos Homens Sages para fazer transportar para as vivências da Humanidade outras Realidades, qualitativamente superiores, estas de cariz mais Espiritual e ligadas às tradições dos Mistérios.

            Nada melhor que o simbolismo de Janus – o deus das duas caras – para que pudesse ser transmitido aos homens o conceito de princípio permanente, pois que, este deus de cara dupla simbolizava o Uno Imanifestado que ligava o passado e o futuro no Único e Eterno Presente.

            Os antigos iniciados dos Mistérios romanos faziam representar Janus com duas caras, uma, jovem, simbolizando o ano crescente, a outra, velha, símbolo do ano moribundo. Contudo, porque símbolo do Sol, Janus não passava de uma realidade virtual, pois a Realidade Última, perene e inefável, teria que ser apreendida para além da manifestação dualística e exterior.

            As festas ritualísticas dos dois São João, como em certa medida toda a celebração litúrgica, repousam pois sobre o seguinte postulado: o tempo cósmico e humano está sujeito à regeneração perene, sendo este vai-vem rítmico dos solstícios como que uma imagem e um reflexo sensível e natural desta lei universal.

            Muito mais se poderia dizer e especular e argumentar, sobre as diferentes iniciações mistéricas, perante as diversas culturas e épocas, sobre superstições e realidades, sobre costumes bizarros e cultos atávicos, contudo, gostaria tão só referir alguns conceitos e realidades energéticas, porque ao meditá-los sinto a possibilidade de transformação de mim próprio, via um autoconhecimento que se pretende cada vez mais profundo.

            O SOL, a primeira realidade fundamental e elemento chave das Festas de S. João. Os solstícios são dois momentos cruciais no Ciclo da Natureza e do Ano. Realidades ligadas à transformação, à purificação, à mudança, ao crescimento e à colheita, à luz que combate as trevas - física, psicológica e espiritualmente. Manifestação de Arquétipo Universal.

            O FOGO, realidade ligada desde o primeiro momento com a criação, a manutenção da Vida e a Iniciação aos Mistérios da Humanidade. Associada à Terceira Pessoa da Trindade da Tradição Cristã - o Espírito Santo, mas indissociável a esta Tradição está também  o Cristo e o Baptismo pelo Fogo. Manifestação de Arquétipo.

            A FESTA, novamente a Iniciação aos Mistérios. A importância da dramatização dos Rituais. A Consagração do Sol, do Fogo, da Natureza, do Cristo - enquanto Realidades Cósmicas.  Vêm também as Fogueiras, a Magia Naturalista das Mouras e das Fontes, os Encantamentos e a Adivinhação, a Poesia, a Aldeia e o Paganismo. Manifestações de Arquétipos.

            Espiritualmente, todas as Realidades Arquetípicas, quando vividas com autenticidade, amor, tolerância, são Verdadeiras.

A cadeia do saber mistérico, iniciático e tradicional, encontra-se mergulhada nos arquétipos eterno presente. O princípio e o fim fundindo-se e transmutando-se na alquimia da Vida, numa génese única do Ser. A Egrégora Eterna…. A Iniciação Solar... Tão bem transmutada e transmitida através do simbolismo perene de São João e das suas festividades milenares.

            Tenhamos então e em conta as palavras de Mestre Jesus, chegadas até nós pela palavra de S. João Evangelista no Evangelho Segundo São João, XV,12-17, essência última da mensagem mais profunda da Religião Cristã:

 

     «Este é o meu mandamento: que vos ameis uns aos outros, como eu vos amei. Ninguém tem maior amor do que o daquele que dá a vida pelos amigos. Vós sois meus amigos, se fizerdes o que eu vos ordenei. Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor: chamei-vos amigos, porque vos manifestei tudo o que ouvi de meu Pai. Não fostes vós que escolhestes a mim; fui eu que escolhi a vós e vos constituí, para que vades e produzais fruto e para que o vosso fruto seja duradouro, a fim de que tudo o que pedirdes ao Pai em meu nome, ele vo-lo conceda. Isto eu vos ordeno: que vos ameis uns aos outros.»

 

PAX  PROFUNDA

 

Rui Arimateia

rui.arimateia@gmail.com

Évora, Junho de 2013

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