O ESPAÇO CÉNICO
O espaço cénico da brinca é, digamos assim, tratado em três tempos diferentes mas complementares: em primeiro lugar, temos o tempo em que se inicia com a formação no local de representação até ao início do fundamento; o segundo tempo consiste na dramatização do próprio fundamento; o terceiro é constituído com os restantes elementos (contradanças, formações, rodas, etc.) até ao fim da brinca propriamente dita.
No entanto esta divisão agora proposta é artificial, pois que no decorrer da brinca as divisões existentes, marcadas fortemente pela bateria, são mais factores dinamizadores da acção do que marcações para “mudança de acto”.
O fundamento propriamente dito, isto é, a dramatização, inicia-se depois de todos os elementos da brinca se colocarem em círculo, excepto os palhaços, que não possuem lugar fixo. Os personagens só saem do seu lugar do círculo aquando da sua deixa, dirigindo-se então em direcção ao seu ou aos seus interlocutores. Ao terminar o fundamento dispõem-se novamente em círculo.
As diferentes coreografias geometrizam o espaço com círculos, quadrados, sinos-saimão, estrelas, meias-luas, etc., desenhos estes conotados com certos elementos tradicionais de cariz eventualmente mágicos e propiciatórios. A geometrização é principalmente elaborada durante as contradanças, sua formação e desformação.
É importante insistirmos aqui no espaço circular de representação do fundamento. Estaremos perante reminiscências de ritos solares de épocas remotas? Segundo autores como Mircea Eliade, o espaço circular da representação é o espaço de festa por excelência, onde acontece, cada vez que é provocada, a recriação de um espaço sagrado, onde tem lugar a renovação cíclica da própria vida, nas suas vertentes natural e cultural.
O exemplo que vamos descrever de seguida, o da estruturação do espaço cénico de uma brinca, não poderá, como é óbvio, ser extensivo, na sua forma, a representação de outras brincas nos seus pormenores, mas sim nos seus aspectos mais gerais de estruturação dos conteúdos e de veiculação de uma mensagem simbólica subjacente à própria dramaturgia.
I
[Chegada ao local]
Formação
bateria
Pedido de autorização ao dono do lugar, pelo Mestre
Contradança
Roda com o Mestre ao centro
Apresentação e breve explicação do fundamento
bateria
Apresentação dos personagens
bateria
II
Desenvolvimento do Fundamento
Fim do Fundamento
III
Roda com o Mestre ao centro
Décima de agradecimento aos presentes
Peditório de auxílio para as despesas efectuadas
Brincadeira dos Palhaços
bateria
Valsa
bateria
Décima à Bandeira
Canção em coro (sinopse do Fundamento)
Agradecimento de despedida
Formação
Contradança de despedida
Despedida e agradecimento ao dono do lugar
Finaliza a função em casa do dono do lugar, tomando todos os participantes da Brinca uma bebida oferecida por este e convivendo todos durante uns momentos. Como o local de representação escolhido é quase sempre junto de uma venda ou taberna, normalmente é o proprietário deste estabelecimento que desempenha o papel prestigiante de dono do lugar.
É claro que, de brinca para brinca, existem muitas variantes, não sendo rígida a estruturação de todo o conjunto cénico.
Existindo, à partida, um fundamento, a Brinca organiza-se e fica pronta a sair à rua num mês e meio (em média).
Iniciam-se os contactos preliminares na noite do baile do Ano Novo, congregando-se o grupo à volta do Mestre. Termina a função, desfazendo-se a brinca, na Quarta-Feira de Cinzas, com o tradicional Enterro do Entrudo, para voltarem a reunir-se no ano seguinte, demonstrando deste modo o carácter cíclico bastante bem demarcado e calendarizado.
O dinheiro conseguido nos peditórios é principalmente usado para cobrir as despesas com os adereços e, se for caso disso, com o acordeonista. Se sobrar alguma importância é organizado um convívio entre todos os elementos.
Por norma ensaiam dois a três dias por semana, chegando a ensaiar todos os dias na semana imediatamente anterior ao Carnaval. Estes ensaios são normalmente - segundo a tradição - envolvidos no maior, digamos assim, secretismo, pois o despique entre as diferentes Brincas é enorme - não só no que diz respeito ao fundamento a apresentar, mas igualmente em relação aos fatos usados, bandeira e sua decoração, etc. O ensaio geral é tradicional que se realize no local de origem da brinca, durante o baile de Sábado de Carnaval, fazendo-se a sua primeira representação em público sob os olhares críticos mas construtivos dos velhos das brincas de outros tempos.
Resta dizer que, durante os meses de ensaios para levantarem a brinca, esta funciona como um importantíssimo factor de coesão social de grupo, uma forma de animação cultural comunitária por excelência.
domingo, 7 de fevereiro de 2010
sábado, 6 de fevereiro de 2010
AS BRINCAS DO ENTRUDO EM ÉVORA - III
OS ELEMENTOS-FORÇA CONSTITUINTES
A. O Palhaço
«A alma da brinca, para quem a representa, é o fundamento; e para quem a presencia são os palhaços», segundo depoimento de Mestre de Brinca.
É o Faz-Tudo. Serve de ponto, serve igualmente para tapar os enganos dos companheiros. A sua fala é de improviso.
Tem uma função essencialmente desorganizadora e anomista na ordem dramática decorrente durante a representação. É um provocador de situações absurdas, irracionais, cómicas...
É, por outro lado, o elemento dinâmico que intervém ao longo de todo o tempo da representação. É o grande elo de ligação entre o círculo onde decorre aquela representação e o próprio povo que assiste e que, subitamente, se encontra envolvido no processo dramático, é obrigado a isso pelas brincadeiras dos palhaços, transferindo para o referido espaço cénico os seus sentimentos mais profundos e as suas reacções mais primárias, mais espontâneas.
Inserido e simultaneamente elemento exógeno de toda a dramaturgia, o palhaço intervém para quebrar as tensões e as próprias mensagens veiculadas pelos personagens ao longo da narração e, especialmente, nos momentos críticos de grande tragédia vivencial.
«Os palhaços fazem tudo ao contrário e quanto mais ao contrário mais graça têm.»
O palhaço é o elemento, digamos assim, que retira o eventual excesso de densidade dramática da acção, conferindo-lhe uma frescura e um à vontade frequentemente excessivo, por vezes obsceno para a moralidade e o sistema de regras em vigor, o senso comum, mas, é Carnaval...
B. O Mestre
Tradicionalmente, é visto como uma autoridade assumida e reconhecida enquanto tal pelos restantes companheiros. Em princípio, terá recebido o testemunho de um mestre mais antigo.
É, regra geral, o ensaiador. A sua função é mandar a música, orientar a brinca, explicar, apresentar e agradecer ao dono do lugar durante a estadia e representação do seu grupo nesse local. É o que responde ao despique - em décimas -, com outro mestre, se outra brinca se cruzar com a dele, se não chegarem a bom termo as necessárias negociações para esclarecer e definir de qual brinca actuará em primeiro lugar em dado local.
Possui gestos estereotipados que marcam o ritmo da música, através de movimentos mais os menos bruscos, mas ritmados e cadenciados, das mãos, segurando por vezes fitas coloridas.
Ao som de um apito, manda executar as várias marcações das contradanças e das outras movimentações coreográficas.
C. A Bandeira
A brinca reúne-se [por vezes] em redor de uma bandeira, mastro ou estandarte, por vezes ostentando a bandeira nacional e o nome da brinca, enfeitado artisticamente com armações diversas, papéis coloridos, fitas de seda, etc., dependendo a decoração, em última análise, do gosto e das possibilidades dos elementos constituintes do grupo.
A bandeira é um factor de factor de coesão do grupo e emblema da Brinca, eixo-força do círculo da dramatização do fundamento.
Poderemos considerá-la enquanto manifestação simbólica do axis mundi, ainda existente em termos residuais na nossa contemporaneidade; e representação de reminiscências paradigmáticas do centro do mundo, num espaço tradicionalmente sagrado onde se observa, se faz reviver o drama da criação/recriação na natureza e no mundo; da passagem cíclica do Caos para o Cosmos... do Inverno para a Primavera.
Este conceito sagrado está antropologicamente conotado com o sentido de primordial, puro, pertencente às origens fabulosas do paraíso perdido de todos os grandes sistemas de Mitos Cósmicos. Este conceito subentende, por sua vez, e necessariamente, um centro que, em todas as actualidades, em todas as épocas, faça a ligação simbólica, transportando os participantes do rito para aquele tempo sem história em que os homens eram deuses.
D. Ornamentos tradicionais
Os chapéus possuem uma armação de arame que suporta os ornamentos, que vão das rosas de papel colorido às fitas de seda de várias cores, e que se cruzam sobre o peito dos vários intervenientes da brinca.
É claro que os palhaços possuem as vestimentas desregradas costumeiras. Por vezes até com adereços obscenos, que utilizam durante as brincadeiras. Eventualmente poderá a brinca sair com um guarda-roupa completo, de acordo com cada um dos personagens do fundamento.
E. Instrumentos musicais
Os instrumentos tradicionalmente utilizados pelas brincas são o bombo, a caixa, o acordeão e a concertina, a pandeireta, a guitarra, a ronca, os ferrinhos e as castanholas, variando de grupo para grupo, consoante os meios humanos que cada mestre consegue mobilizar para a sua brinca.
Papel de grande importância tiveram as Associações com vocações artísticas e musicais, como era o caso da Escola dos Amadores de Música Eborense e da Sociedade Recreativa e Dramática Eborense, que há cinquenta anos atrás estavam sediadas, respectivamente, na Rua do Raimundo e no Pátio de S. Miguel. Estas Associações forneciam aos músicos populares participantes nas Brincas, mediante o pagamento de pequena taxa de aluguer, instrumentos musicais diversos.
A. O Palhaço
«A alma da brinca, para quem a representa, é o fundamento; e para quem a presencia são os palhaços», segundo depoimento de Mestre de Brinca.
É o Faz-Tudo. Serve de ponto, serve igualmente para tapar os enganos dos companheiros. A sua fala é de improviso.
Tem uma função essencialmente desorganizadora e anomista na ordem dramática decorrente durante a representação. É um provocador de situações absurdas, irracionais, cómicas...
É, por outro lado, o elemento dinâmico que intervém ao longo de todo o tempo da representação. É o grande elo de ligação entre o círculo onde decorre aquela representação e o próprio povo que assiste e que, subitamente, se encontra envolvido no processo dramático, é obrigado a isso pelas brincadeiras dos palhaços, transferindo para o referido espaço cénico os seus sentimentos mais profundos e as suas reacções mais primárias, mais espontâneas.
Inserido e simultaneamente elemento exógeno de toda a dramaturgia, o palhaço intervém para quebrar as tensões e as próprias mensagens veiculadas pelos personagens ao longo da narração e, especialmente, nos momentos críticos de grande tragédia vivencial.
«Os palhaços fazem tudo ao contrário e quanto mais ao contrário mais graça têm.»
O palhaço é o elemento, digamos assim, que retira o eventual excesso de densidade dramática da acção, conferindo-lhe uma frescura e um à vontade frequentemente excessivo, por vezes obsceno para a moralidade e o sistema de regras em vigor, o senso comum, mas, é Carnaval...
B. O Mestre
Tradicionalmente, é visto como uma autoridade assumida e reconhecida enquanto tal pelos restantes companheiros. Em princípio, terá recebido o testemunho de um mestre mais antigo.
É, regra geral, o ensaiador. A sua função é mandar a música, orientar a brinca, explicar, apresentar e agradecer ao dono do lugar durante a estadia e representação do seu grupo nesse local. É o que responde ao despique - em décimas -, com outro mestre, se outra brinca se cruzar com a dele, se não chegarem a bom termo as necessárias negociações para esclarecer e definir de qual brinca actuará em primeiro lugar em dado local.
Possui gestos estereotipados que marcam o ritmo da música, através de movimentos mais os menos bruscos, mas ritmados e cadenciados, das mãos, segurando por vezes fitas coloridas.
Ao som de um apito, manda executar as várias marcações das contradanças e das outras movimentações coreográficas.
C. A Bandeira
A brinca reúne-se [por vezes] em redor de uma bandeira, mastro ou estandarte, por vezes ostentando a bandeira nacional e o nome da brinca, enfeitado artisticamente com armações diversas, papéis coloridos, fitas de seda, etc., dependendo a decoração, em última análise, do gosto e das possibilidades dos elementos constituintes do grupo.
A bandeira é um factor de factor de coesão do grupo e emblema da Brinca, eixo-força do círculo da dramatização do fundamento.
Poderemos considerá-la enquanto manifestação simbólica do axis mundi, ainda existente em termos residuais na nossa contemporaneidade; e representação de reminiscências paradigmáticas do centro do mundo, num espaço tradicionalmente sagrado onde se observa, se faz reviver o drama da criação/recriação na natureza e no mundo; da passagem cíclica do Caos para o Cosmos... do Inverno para a Primavera.
Este conceito sagrado está antropologicamente conotado com o sentido de primordial, puro, pertencente às origens fabulosas do paraíso perdido de todos os grandes sistemas de Mitos Cósmicos. Este conceito subentende, por sua vez, e necessariamente, um centro que, em todas as actualidades, em todas as épocas, faça a ligação simbólica, transportando os participantes do rito para aquele tempo sem história em que os homens eram deuses.
D. Ornamentos tradicionais
Os chapéus possuem uma armação de arame que suporta os ornamentos, que vão das rosas de papel colorido às fitas de seda de várias cores, e que se cruzam sobre o peito dos vários intervenientes da brinca.
É claro que os palhaços possuem as vestimentas desregradas costumeiras. Por vezes até com adereços obscenos, que utilizam durante as brincadeiras. Eventualmente poderá a brinca sair com um guarda-roupa completo, de acordo com cada um dos personagens do fundamento.
E. Instrumentos musicais
Os instrumentos tradicionalmente utilizados pelas brincas são o bombo, a caixa, o acordeão e a concertina, a pandeireta, a guitarra, a ronca, os ferrinhos e as castanholas, variando de grupo para grupo, consoante os meios humanos que cada mestre consegue mobilizar para a sua brinca.
Papel de grande importância tiveram as Associações com vocações artísticas e musicais, como era o caso da Escola dos Amadores de Música Eborense e da Sociedade Recreativa e Dramática Eborense, que há cinquenta anos atrás estavam sediadas, respectivamente, na Rua do Raimundo e no Pátio de S. Miguel. Estas Associações forneciam aos músicos populares participantes nas Brincas, mediante o pagamento de pequena taxa de aluguer, instrumentos musicais diversos.
sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010
AS BRINCAS DO ENTRUDO EM ÉVORA - II
AS ORIGENS
É difícil definir-se historicamente a origem deste tipo de manifestação cultural tradicional. Alguns autores apontam o século XVIII, outros fazem remontar a sua origem à época e aos autos de Gil Vicente, no século XVI, outros ainda há que não arriscam quaisquer datas para a sua origem, devido ao simbolismo subjacente na sua coreografia e à sua estruturação espacial, fazendo-as remontar a tradições mítico-religiosas ancestrais, nomeadamente inseridas em contextos de culturas e vivências de forte conotação agrária.
O problema está em saber destrinçar a forma do conteúdo. Pois que, se formalmente estas brincas por nós hoje conhecidas, podem ser eventualmente recentes no tempo, os seus conteúdos poderão sem dúvida alguma ser encontrados entre as grandes representações míticas universais.
As Brincas, hoje
A sua proveniência continua a ser os bairros periféricos e as freguesias rurais de Évora. São, pois, caracterizadas por uma marcada ruralidade original.
As freguesias de N.ª S.ª de Machede, N.ª S.ª da Tourega, Graça do Divôr e Canaviais; os actuais bairros como o Degebe, a Garraia, Almeirim, S.to António, Peramanca, são alguns exemplos de que as Brincas chegaram aos dias de hoje. No ano de 1994, estavam ainda todas em actividade.
Luís de Matos, em trabalho publicado no I Congresso sobre o Alentejo (Semeando Novos Rumos, III Volume, Évora, Outubro de 1985, pp.1261-62), refere, baseado em investigações de campo, que há umas dezenas de anos os locais de representação das Brincas eram as quintas, nomeadamente: dos Apóstolos, do Ourives, do Chéu-Chéu, dos Meninos Órfãos, da Rafaela, das Pimentas, das Torcidas, o lugar da Machoca, etc.. Com o desaparecimento da importância das quintas e de toda a sua lógica vivencial, os locais de representação foram mais recentemente localizados nalguns bairros. Nos anos 80, e ainda segundo o mesmo estudo de Luís de Matos, esses bairros eram: Canaviais, Frei Aleixo, Almeirim, S.ta Maria, S.to António, Senhor dos Aflitos, S.to Antonico, Degebe (Machado), Louredo (Venda do Pascoal e do Alface), Barraca de Pau.
O seu público privilegiado são os habitantes das próprias zonas de origem, simultaneamente de pertença e de referência, ou de outras zonas com características semelhantes.
O local de representação é a rua, ao ar livre, ou em casão agrícola cedido para o efeito.
Tradicionalmente, as Brincas eram constituídas somente por homens, travestindo-se, se necessário, para o desenrolar do fundamento, numa média de quinze a vinte: um mestre, dois ou três palhaços (os faz-tudos), meia dúzia de músicos, onde a bateria (bombo e caixa) e a concertina têm um papel fundamental, um porta-estandarte e os restantes figurantes para a execução/representação do fundamento.
Convém clarificar que se denomina brinca o grupo de homens ou rapazes que se organizam anualmente (ciclicamente) para a construção e execução de uma dramatização popular durante a época festiva do Carnaval. No entanto, poderá igualmente entender-se por brinca toda a acção dramatizada (o fundamento), musicada (a contradança, a valsa, a canção, etc.) e coreografada (as diferentes formações que têm lugar ao longo de toda a acção: as rodas, etc.). que esse grupo assume nas várias representações que realiza.
No que diz respeito ao fundamento, em termos formais é constituído por décimas de versos rimados. É a alma da brinca.
Um autor de fundamentos - importante pela quantidade e qualidade de fundamentos escritos - o Sr. Raimundo José Lopes, é sobejamente conhecido nos meios do Carnaval tradicional da região de Évora, chegando um só fundamento dos seus a reunir mais de dois mil versos, estes, por sua vez, organizados em décimas.
O fundamento, na perspectiva do citado autor popular, apresenta um enredo, com princípio, meio e fim, podendo este focar diferentes realidades sócio-culturais e históricas. Diversificada poderá ser a temática desse enredo: episódios da Bíblia, da História de Portugal, da realidade social alentejana, da guerra, contos populares tradicionais, do comum quotidiano, entre outros.
«Os antigos é que prestavam atenção às brincas e as compreendiam. Os da cidade não as percebem e chamam-nos pategos.»
Com este depoimento de um mestre de brinca, põe-se-nos a questão: poderá o homem citadino apreender o sentido mais profundo destas manifestações culturais da tradição oral?
De facto, trata-se de uma forma muito rica e complexa de cultura popular, com as manifestações artísticas dos seus componentes: poetas, músicos, encenadores, coreógrafos, artistas plásticos de cariz popular, criando ou recriando eles próprios os versos do fundamento e as músicas executadas.
As mensagens da brinca abalam de facto as estruturas sociais mais sólidas: a família, a autoridade, a igreja, o poder instituído, a moralidade e os bons costumes.
Se o fundamento, na brinca, representa a narração de uma situação normal (normalizada) que caracteriza toda uma ordem quotidiana, a principal figura da brinca - o Palhaço/o Faz-Tudo - personifica a desordem, o caos, o diabo, a loucura, em suma, a ausência de ordem, de lei, de respeito, realizando ele, no decorrer de toda a dramatização, a inversão total dos valores veiculados pelos seus restantes companheiros, que fazem os possíveis e os impossíveis para o ignorar - ele, para eles, não existe...
Deste modo, será legítimo afirmar que o Faz-tudo põe em causa tudo, inclusive a própria brinca e o seu fundamento.
É exactamente por este emaranhado de situações, mais ou menos complexas, que só faz verdadeiro sentido nós encararmos a brinca no contexto mais amplo do próprio Carnaval, inserido este no calendário das principais Festas Cíclicas (Agrárias) Anuais. Não o Carnaval domesticado, legitimado, vendido, bem educado, isto é, o Carnaval citadino e urbano, mas sim aquele tempo de festa, de jogo, onde a transgressão, a loucura, o imoral deveriam ter sido, em eras passadas, os únicos valores, ou melhor, anti-valores aceites num tempo e num espaço de renovação, de exaustão do velho e do gasto, para que o novo (ou renovado) pudesse emergir, ressuscitar, germinar com o aparecimento da Primavera. Daí o denominar-se, tradicionalmente, desde tempos imemoriais, de Entrudo (Entrada) esta época de caos e desordem que antecedia paradigmaticamente a génese da organização natural e humana.
Em tempo de Carnaval todos teriam, simultaneamente, de se constituir enquanto autores, actores e espectadores das brincadeiras das trupes - no nosso caso concreto das brincas - e demais grupos errantes. A censura oficial e policial existente era menosprezada. A participação era total e sincera, o riso era o advogado de acusação no julgamento da autoridade, da moral e da lei oficiais, reguladoras da vida social nos restantes períodos do calendário.
É difícil definir-se historicamente a origem deste tipo de manifestação cultural tradicional. Alguns autores apontam o século XVIII, outros fazem remontar a sua origem à época e aos autos de Gil Vicente, no século XVI, outros ainda há que não arriscam quaisquer datas para a sua origem, devido ao simbolismo subjacente na sua coreografia e à sua estruturação espacial, fazendo-as remontar a tradições mítico-religiosas ancestrais, nomeadamente inseridas em contextos de culturas e vivências de forte conotação agrária.
O problema está em saber destrinçar a forma do conteúdo. Pois que, se formalmente estas brincas por nós hoje conhecidas, podem ser eventualmente recentes no tempo, os seus conteúdos poderão sem dúvida alguma ser encontrados entre as grandes representações míticas universais.
As Brincas, hoje
A sua proveniência continua a ser os bairros periféricos e as freguesias rurais de Évora. São, pois, caracterizadas por uma marcada ruralidade original.
As freguesias de N.ª S.ª de Machede, N.ª S.ª da Tourega, Graça do Divôr e Canaviais; os actuais bairros como o Degebe, a Garraia, Almeirim, S.to António, Peramanca, são alguns exemplos de que as Brincas chegaram aos dias de hoje. No ano de 1994, estavam ainda todas em actividade.
Luís de Matos, em trabalho publicado no I Congresso sobre o Alentejo (Semeando Novos Rumos, III Volume, Évora, Outubro de 1985, pp.1261-62), refere, baseado em investigações de campo, que há umas dezenas de anos os locais de representação das Brincas eram as quintas, nomeadamente: dos Apóstolos, do Ourives, do Chéu-Chéu, dos Meninos Órfãos, da Rafaela, das Pimentas, das Torcidas, o lugar da Machoca, etc.. Com o desaparecimento da importância das quintas e de toda a sua lógica vivencial, os locais de representação foram mais recentemente localizados nalguns bairros. Nos anos 80, e ainda segundo o mesmo estudo de Luís de Matos, esses bairros eram: Canaviais, Frei Aleixo, Almeirim, S.ta Maria, S.to António, Senhor dos Aflitos, S.to Antonico, Degebe (Machado), Louredo (Venda do Pascoal e do Alface), Barraca de Pau.
O seu público privilegiado são os habitantes das próprias zonas de origem, simultaneamente de pertença e de referência, ou de outras zonas com características semelhantes.
O local de representação é a rua, ao ar livre, ou em casão agrícola cedido para o efeito.
Tradicionalmente, as Brincas eram constituídas somente por homens, travestindo-se, se necessário, para o desenrolar do fundamento, numa média de quinze a vinte: um mestre, dois ou três palhaços (os faz-tudos), meia dúzia de músicos, onde a bateria (bombo e caixa) e a concertina têm um papel fundamental, um porta-estandarte e os restantes figurantes para a execução/representação do fundamento.
Convém clarificar que se denomina brinca o grupo de homens ou rapazes que se organizam anualmente (ciclicamente) para a construção e execução de uma dramatização popular durante a época festiva do Carnaval. No entanto, poderá igualmente entender-se por brinca toda a acção dramatizada (o fundamento), musicada (a contradança, a valsa, a canção, etc.) e coreografada (as diferentes formações que têm lugar ao longo de toda a acção: as rodas, etc.). que esse grupo assume nas várias representações que realiza.
No que diz respeito ao fundamento, em termos formais é constituído por décimas de versos rimados. É a alma da brinca.
Um autor de fundamentos - importante pela quantidade e qualidade de fundamentos escritos - o Sr. Raimundo José Lopes, é sobejamente conhecido nos meios do Carnaval tradicional da região de Évora, chegando um só fundamento dos seus a reunir mais de dois mil versos, estes, por sua vez, organizados em décimas.
O fundamento, na perspectiva do citado autor popular, apresenta um enredo, com princípio, meio e fim, podendo este focar diferentes realidades sócio-culturais e históricas. Diversificada poderá ser a temática desse enredo: episódios da Bíblia, da História de Portugal, da realidade social alentejana, da guerra, contos populares tradicionais, do comum quotidiano, entre outros.
«Os antigos é que prestavam atenção às brincas e as compreendiam. Os da cidade não as percebem e chamam-nos pategos.»
Com este depoimento de um mestre de brinca, põe-se-nos a questão: poderá o homem citadino apreender o sentido mais profundo destas manifestações culturais da tradição oral?
De facto, trata-se de uma forma muito rica e complexa de cultura popular, com as manifestações artísticas dos seus componentes: poetas, músicos, encenadores, coreógrafos, artistas plásticos de cariz popular, criando ou recriando eles próprios os versos do fundamento e as músicas executadas.
As mensagens da brinca abalam de facto as estruturas sociais mais sólidas: a família, a autoridade, a igreja, o poder instituído, a moralidade e os bons costumes.
Se o fundamento, na brinca, representa a narração de uma situação normal (normalizada) que caracteriza toda uma ordem quotidiana, a principal figura da brinca - o Palhaço/o Faz-Tudo - personifica a desordem, o caos, o diabo, a loucura, em suma, a ausência de ordem, de lei, de respeito, realizando ele, no decorrer de toda a dramatização, a inversão total dos valores veiculados pelos seus restantes companheiros, que fazem os possíveis e os impossíveis para o ignorar - ele, para eles, não existe...
Deste modo, será legítimo afirmar que o Faz-tudo põe em causa tudo, inclusive a própria brinca e o seu fundamento.
É exactamente por este emaranhado de situações, mais ou menos complexas, que só faz verdadeiro sentido nós encararmos a brinca no contexto mais amplo do próprio Carnaval, inserido este no calendário das principais Festas Cíclicas (Agrárias) Anuais. Não o Carnaval domesticado, legitimado, vendido, bem educado, isto é, o Carnaval citadino e urbano, mas sim aquele tempo de festa, de jogo, onde a transgressão, a loucura, o imoral deveriam ter sido, em eras passadas, os únicos valores, ou melhor, anti-valores aceites num tempo e num espaço de renovação, de exaustão do velho e do gasto, para que o novo (ou renovado) pudesse emergir, ressuscitar, germinar com o aparecimento da Primavera. Daí o denominar-se, tradicionalmente, desde tempos imemoriais, de Entrudo (Entrada) esta época de caos e desordem que antecedia paradigmaticamente a génese da organização natural e humana.
Em tempo de Carnaval todos teriam, simultaneamente, de se constituir enquanto autores, actores e espectadores das brincadeiras das trupes - no nosso caso concreto das brincas - e demais grupos errantes. A censura oficial e policial existente era menosprezada. A participação era total e sincera, o riso era o advogado de acusação no julgamento da autoridade, da moral e da lei oficiais, reguladoras da vida social nos restantes períodos do calendário.
quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010
AS BRINCAS DO ENTRUDO EM ÉVORA - I
O TEMPO DO CARNAVAL OU DO ENTRUDO
Tempo de festa, de jogo, onde a «transgressão», a «loucura», o «imoral» e a «paródia» deveriam ter sido, em eras remotas, os únicos valores aceites de um tempo de renovação, de exaustão do «velho» e do «gasto» para que o «novo» pudesse ressuscitar, germinar com a Primavera. Talvez daí o facto de se chamar, desde tempos imemoriais, de Entrudo (Entrada) a esta época de caos e desordem que antecedia paradigmaticamente a génese cíclica da transformação natural e da organização social.
Entre os homens, em tempo de Carnaval ou de Entrudo todos teriam, simultaneamente, de ser autores, actores e espectadores das «brincadeiras» e das «mascaradas» das trupes errantes. A censura do povo não existia ou estava convenientemente recalcada durante estes dias de festa. A participação era total e sincera, o riso era o advogado de acusação no julgamento da Autoridade, da Moral e da Lei oficiais e vigentes, reguladoras da vida social e cultural nos restantes períodos do Calendário anual.
O Carnaval para ser verdadeiramente Carnaval teria de ser assumido por cada indivíduo, enquanto festa colectiva e enquanto festa possuidora de uma consciência de ruptura com o convenientemente «arrumado», «estereotipado», «normalizado», «catalogado», «convencionado», onde a espontaneidade e a alegria gratuitas reinassem e fizessem dos grupos humanos «unidades desorganizadas» onde a única regra aceite seria a da proibição de tirar a máscara ao parceiro e revelar a sua identidade; e ainda, paradoxalmente, não aceitar quaisquer regras anteriormente estabelecidas, aceitando o imprevisto e o desconhecido como a única realidade a ser vivida.
As Brincas de Évora
As Brincas são das manifestações tradicionais mais representativas do Carnaval de Évora. Consistem numa manifestação cultural tradicional, ainda hoje viva, sendo únicas pela forma e pelo conteúdo, pela originalidade e pela criatividade. São um subgénero da dramatização popular, musicadas e coreografadas, tendo por base um fundamento constituído por um “corpus” de décimas, tão características do Alentejo, e um dos pilares das oralidades da cultura popular alentejana.
A preservação desta manifestação tradicional, por parte dos responsáveis das instituições culturais autárquicas, tem consistido numa atenção redobrada aos dinamizadores das Brincas, dando-lhes o apoio necessário para a construção da coreografia da função. Nos últimos anos têm saído Brincas nos Bairros dos Canaviais e Almeirim e ainda na freguesias de Nossa Senhora de Machede e Graça do Divôr.
Por outro lado, há que reconhecer, tivemos a felicidade de ainda termos conhecido e contactado a pessoa que desde os anos 30 do século passado escreveu os fundamentos em décimas que são a “alma”, das Brincas: estamos a falar do Senhor Raimundo José Lopes, residente, durante largos anos, no Bairro de Almeirim, até à sua morte no ano de 2003. Voltaremos mais à frente a falar desta extraordinária personagem.
Não obstante, a melhor preservação destas tradições orais é o seu estudo e a sua compreensão, áreas de trabalho que nos encontramos há alguns anos a fomentar e a realizar, e que pensamos continuar, em prol da dignificação da cultura popular.
Poderemos desde já referir que encaramos as Brincas carnavalescas da região de Évora como reminiscências de antigos costumes comunitários, que uma cultura natural do povo rural das quintas dos arredores da cidade e dos grandes montes agrícolas circundantes manteve e preservou ao longo dos tempos.
Atrevendo-nos a teorizar um pouco, poderemos considerar a cultura natural como aquela manifestação sociocultural que permite, entre as pessoas e os grupos, o entendimento e a escuta de uns em relação aos outros, caracterizada pela espontaneidade e independência, além e aquém dos conhecimentos intelectuais e eruditos, dos conhecimentos técnicos e teóricos, etc.
A cultura natural terá mais que ver com as vivências e as experiências acumuladas por cada um; com as capacidades que cada indivíduo possui, em si próprio, para responder positivamente aos desafios da vida; com as necessidades de todos para a construção, juntamente com os seus semelhantes, de um mundo melhor, mais verdadeiro, mais belo e mais sensível...
Será esta cultura natural que se encontra, em última análise, na raiz da compreensão da própria natureza humana, em termos gerais, e no emergir consciente de uma identidade cultural determinada, com características idiossincráticas próprias – quintaneiros, rurais, alentejanos, eborenses, etc…
Tempo de festa, de jogo, onde a «transgressão», a «loucura», o «imoral» e a «paródia» deveriam ter sido, em eras remotas, os únicos valores aceites de um tempo de renovação, de exaustão do «velho» e do «gasto» para que o «novo» pudesse ressuscitar, germinar com a Primavera. Talvez daí o facto de se chamar, desde tempos imemoriais, de Entrudo (Entrada) a esta época de caos e desordem que antecedia paradigmaticamente a génese cíclica da transformação natural e da organização social.
Entre os homens, em tempo de Carnaval ou de Entrudo todos teriam, simultaneamente, de ser autores, actores e espectadores das «brincadeiras» e das «mascaradas» das trupes errantes. A censura do povo não existia ou estava convenientemente recalcada durante estes dias de festa. A participação era total e sincera, o riso era o advogado de acusação no julgamento da Autoridade, da Moral e da Lei oficiais e vigentes, reguladoras da vida social e cultural nos restantes períodos do Calendário anual.
O Carnaval para ser verdadeiramente Carnaval teria de ser assumido por cada indivíduo, enquanto festa colectiva e enquanto festa possuidora de uma consciência de ruptura com o convenientemente «arrumado», «estereotipado», «normalizado», «catalogado», «convencionado», onde a espontaneidade e a alegria gratuitas reinassem e fizessem dos grupos humanos «unidades desorganizadas» onde a única regra aceite seria a da proibição de tirar a máscara ao parceiro e revelar a sua identidade; e ainda, paradoxalmente, não aceitar quaisquer regras anteriormente estabelecidas, aceitando o imprevisto e o desconhecido como a única realidade a ser vivida.
As Brincas de Évora
As Brincas são das manifestações tradicionais mais representativas do Carnaval de Évora. Consistem numa manifestação cultural tradicional, ainda hoje viva, sendo únicas pela forma e pelo conteúdo, pela originalidade e pela criatividade. São um subgénero da dramatização popular, musicadas e coreografadas, tendo por base um fundamento constituído por um “corpus” de décimas, tão características do Alentejo, e um dos pilares das oralidades da cultura popular alentejana.
A preservação desta manifestação tradicional, por parte dos responsáveis das instituições culturais autárquicas, tem consistido numa atenção redobrada aos dinamizadores das Brincas, dando-lhes o apoio necessário para a construção da coreografia da função. Nos últimos anos têm saído Brincas nos Bairros dos Canaviais e Almeirim e ainda na freguesias de Nossa Senhora de Machede e Graça do Divôr.
Por outro lado, há que reconhecer, tivemos a felicidade de ainda termos conhecido e contactado a pessoa que desde os anos 30 do século passado escreveu os fundamentos em décimas que são a “alma”, das Brincas: estamos a falar do Senhor Raimundo José Lopes, residente, durante largos anos, no Bairro de Almeirim, até à sua morte no ano de 2003. Voltaremos mais à frente a falar desta extraordinária personagem.
Não obstante, a melhor preservação destas tradições orais é o seu estudo e a sua compreensão, áreas de trabalho que nos encontramos há alguns anos a fomentar e a realizar, e que pensamos continuar, em prol da dignificação da cultura popular.
Poderemos desde já referir que encaramos as Brincas carnavalescas da região de Évora como reminiscências de antigos costumes comunitários, que uma cultura natural do povo rural das quintas dos arredores da cidade e dos grandes montes agrícolas circundantes manteve e preservou ao longo dos tempos.
Atrevendo-nos a teorizar um pouco, poderemos considerar a cultura natural como aquela manifestação sociocultural que permite, entre as pessoas e os grupos, o entendimento e a escuta de uns em relação aos outros, caracterizada pela espontaneidade e independência, além e aquém dos conhecimentos intelectuais e eruditos, dos conhecimentos técnicos e teóricos, etc.
A cultura natural terá mais que ver com as vivências e as experiências acumuladas por cada um; com as capacidades que cada indivíduo possui, em si próprio, para responder positivamente aos desafios da vida; com as necessidades de todos para a construção, juntamente com os seus semelhantes, de um mundo melhor, mais verdadeiro, mais belo e mais sensível...
Será esta cultura natural que se encontra, em última análise, na raiz da compreensão da própria natureza humana, em termos gerais, e no emergir consciente de uma identidade cultural determinada, com características idiossincráticas próprias – quintaneiros, rurais, alentejanos, eborenses, etc…
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